Resumo
Este
artigo analisa a trajetória profissional de um sujeito graduado em Psicologia
que, ao longo de dez anos, buscou incessantemente a inserção e o reconhecimento
em diversas ramificações da profissão sem encontrar sustentação institucional,
demanda social ou retorno financeiro. Fundamentado na metapsicologia
psicanalítica freudiana e na teoria das relações de objeto, o estudo examina o
processo de desinvestimento libidinal massivo e o trabalho de luto decorrentes
do colapso do Ideal do Eu profissional. Explora-se como as tentativas de
atuação na clínica, na psicologia esportiva, no plantão online, na gestão
organizacional, na atuação social/hospitalar e no ambiente digital constituíram
uma série de feridas narcísicas encadeadas, culminando no esgotamento das
defesas sublimatórias e na emergência de um estado de vazio libidinal
necessário à reorganização psíquica.
Introdução
A
construção da identidade profissional não se erige unicamente a partir da
obtenção de um título acadêmico ou da apropriação teórica de um saber. Na
perspectiva psicanalítica, o vir a ser profissional depende intrinsecamente do
reconhecimento do Outro, do espelhamento institucional e da constituição de um enquadre
(setting) que ofereça sustentação psíquica e material. Quando o meio externo
falha sistematicamente em oferecer esse solo, o sujeito é submetido a um estado
contínuo de vulnerabilidade e erosão narcísica.
A
história do sujeito em questão sintetiza a trajetória de um esforço
multifacetado e persistente de dez anos em busca dessa validação. Formado em
Psicologia, sua jornada iniciou-se no trabalho voluntário, onde a ausência de
um consultório ou sala adequada para o atendimento clínico assinalou a primeira
grande recusa de reconhecimento: a negação do espaço físico como extensão do
contorno psíquico do fazer analítico. Tentando contornar essa barreira, o
sujeito buscou a inserção na Psicologia Esportiva dentro de uma academia,
oferecendo palestras gratuitas que, contudo, não geraram demanda ou adesão.
Buscando
uma ancoragem institucional, atuou por uma década em um Centro de Referência
LGBT municipal — único espaço em que lhe foi concedido um consultório —, mas
onde permaneceu fixado em uma relação de doação sem reciprocidade remunerada ou
perspectiva de profissionalização. Paralelamente, testou o acolhimento no meio
virtual por meio do Plantão Psicológico online gratuito, colhendo o silêncio e
a ausência de engajamento de um público que não formulara uma demanda por
escuta.
A
busca por inserção estendeu-se ao mercado formal e às instituições. Atuando
como fiscal de caixa em um supermercado, o sujeito lançou mão do mecanismo de
intelectualização e sublimação ao transformar o cotidiano operacional em um
"laboratório humano" para estudos em Psicologia Organizacional e
Institutional. Contudo, ao submeter projetos e tentar a transição para vagas
formais e de RH, encontrou barreiras corporativas, favoritismo e a recusa
institucional. O mesmo padrão de rejeição e silêncio — marcado pela ausência do
feedback — repetiu-se na candidatura a processos seletivos formais para
as áreas de Psicologia Social, Hospitalar, Jurídica e Orientação Educacional,
cujos requisitos formais e de experiência prévia ele não preenchia.
Como
última fronteira de investimento autoral, o sujeito construiu um blog
internacional e um site para difusão de seus artigos e estratégias de marketing
digital. A despeito do alcance transnacional permitido pelas ferramentas de
tradução, o baixo engajamento e a falta de retorno sustentável expuseram a
ineficácia do ambiente digital em consolidar sua posição de referência.
Diante
do esgotamento de todas as vias disponíveis (autônoma, institucional, virtual,
autoral e sublimatória), o sujeito iniciou o desligamento de suas práticas
diárias de observação no supermercado, a desvinculação emocional de sua função
operacional e o desmantelamento de seus projetos digitais. Encontra-se,
atualmente, em uma fase de desinvestimento libidinal definitivo e luto das
múltiplas identidades profissionais tentadas ao longo de uma década,
enfrentando o vazio psíquico necessário para a emergência de novos caminhos.
O Colapso das Identidades e o
Trabalho de Luto na Psicanálise
Para
compreender o impacto psíquico dessa trajetória, faz-se necessário recorrer ao
conceito de Ideal do Eu (Ich-Ideal), formulado por Sigmund Freud.
O título de psicólogo e as expectativas depositadas na práxis constituem o
objeto de amor e investimento do Ego. Quando as tentativas de corporificar esse
ideal esbarram sucessivamente na recusa do ambiente, o psiquismo sofre
recorrentes golpes na sua estrutura narcísica.
A
ausência de um consultório adequado no trabalho voluntário ou o silêncio das
instituições em processos seletivos não representam meras frustrações
mercadológicas; operam como a negação da existência do sujeito enquanto
profissional. Como destaca a teoria winnicottiana, sem o holding
(sustentação) do ambiente, a construção da identidade resulta fragmentada. O
sujeito é colocado em uma posição de "não-lugar".
No
texto clássico Luto e Melancolia (1917/2010), Freud conceitua o luto (Trauer)
como a reação à perda de um objeto amado ou de uma abstração que tomou o seu
lugar, tal como a pátria, a liberdade ou um ideal. O processo de desligamento
descrito na história do sujeito responde rigorosamente às etapas do trabalho de
luto (Trauerarbeit):
[Investimento no Ideal:
"Ser Psicólogo"]
│
┌─────────────────────────┬───────────┴───────────┬─────────────────────────┐
▼ ▼ ▼ ▼
[Via
Clínica] [Via Esportiva] [Via Organizacional] [Via Digital/Social]
(Sem
consultório) (Sem demanda) (Sem acolhimento) (Sem engajamento)
│ │ │ │
└─────────────────────────┼───────────────────────┴─────────────────────────┘
▼
[Exame de Realidade]
(Constatação do
não-reconhecimento)
│
▼
[Desinvestimento Libidinal]
(Recolhimento da energia para o
Ego)
│
▼
[Vazio Libidinal]
(Período de latência e
reestruturação)
1.
O Exame de Realidade (Realitätsprüfung): O psiquismo é confrontado com a evidência de que o
objeto de investimento — a carreira de psicólogo reconhecido e remunerado — não
mais existe no mundo externo sob as condições apresentadas.
2.
A Retirada da Libido: A energia psíquica ligada a cada um dos projetos (a
clínica, a academia, o plantão online, a atuação organizacional e os meios
digitais) precisa ser desligada, ponto a ponto, lembrança por lembrança.
3.
A Diferenciação entre Luto e Melancolia: A travessia do luto exige que o sujeito reconheça
que a falha da concretização profissional decorreu da ausência de solo e
estrutura no ambiente social, e não de um defeito constitutivo de seu próprio
Eu. Se a perda do objeto for assimilada como uma incapacidade pessoal, a ferida
narcísica evolui para a depressão melancólica, caracterizada pelo ataque do
Superego ao Ego.
A
experiência de utilizar a função de fiscal de caixa como um "laboratório
humano" funcionou, por determinado período, como um mecanismo de defesa
por sublimação e intelectualização. Esse recurso permitiu proteger o
narcisismo ao conferir sentido analítico a uma posição operacional. Todavia, a
saturação desse mecanismo e o subsequente desligamento dessa prática sinalizam
que o Ego do sujeito já não necessita de ilusões defensivas para encarar a
realidade dos fatos.
O
estado de vazio libidinal no qual o sujeito se encontra após o
recolhimento total de sua energia psíquica não representa uma patologia, mas um
tempo de latência indispensável. O desinvestimento de uma trajetória de dez
anos impõe um período de repouso psíquico, no qual o Ego, desprovido do peso
das identidades idealizadas, recupera a capacidade de reinvestir a libido em
novos objetos no futuro.
Citação
"O
exame da realidade mostrou que o objeto amado não existe mais e exige que toda
a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto. Contra isso surge uma
inteligível oposição [...]. O trabalho do luto exige que cada uma das
lembranças e expectativas nas quais a libido esteve ligada ao objeto seja
focalizada e hiperinvestida, para que dela se realize o desligamento da
libido."
— SIGMUND
FREUD (Luto e Melancolia, 1917)
Conclusão
A
história do sujeito que percorreu múltiplas frentes da Psicologia durante uma
década sem encontrar solo propício exemplifica o colapso de uma identidade
idealizada diante da rigidez e da precariedade das estruturas sociais e
institucionais. A incapacidade de fixar-se como psicólogo clínico, esportivo,
organizacional, hospitalar ou digital não deve ser interpretada como um
fracasso individual, mas como o resultado de um desencontro estrutural entre a
oferta de um saber e a ausência de uma demanda e suporte correspondentes.
O
processo de desligamento emocional, a renúncia aos canais virtuais de difusão e
o abandono das defesas sublimatórias no cotidiano operacional constituem atos
de preservação do Ego. Ao realizar o desinvestimento libidinal e encarar o luto
dessas identidades, o sujeito interrompe a sangria narcísica causada pela
insistência em projetos sem retorno.
O
vazio psíquico vivenciado no presente é a condição de possibilidade para a
reestruturação do sujeito. Somente ao aceitar o fim desse ciclo e desatar os
nós que o prendiam ao título acadêmico será possível libertar a libido retida,
permitindo que a sua energia vital e a bagagem acumulada encontrem novos campos
de realização e subsistência.
Referências Bibliográficas
FREUD,
Sigmund. Luto e Melancolia (1917). Tradução de Marilene Carone. São
Paulo: Cosac Naify, 2010.
FREUD,
Sigmund. Introdução ao Narcisismo (1914). In: Obras Completas,
Vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
WINNICOTT,
Donald Woods. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT,
Donald Woods. O Ambiente e os Processos de Maturação: Estudos sobre a Teoria
do Desenvolvimento Emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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