A CHAVE, O RETORNO E O LUGAR: ATOS FALHOS, ENCERRAMENTO DA JORNADA E A BUSCA DE UM LUGAR PARA EXERCER O QUE FOI CONSTRUÍDO
Resumo
Este
artigo propõe uma leitura psicanalítica de três atos falhos ocorridos em 21 de
agosto de 2026, durante a jornada de trabalho de um fiscal de caixa em um
supermercado. Os episódios envolveram: o deslocamento equivocado de uma lasanha
para a cafeteria em vez da geladeira dos frios; o retorno repetido ao armário
após uma demanda relacionada à busca de um cigarro; e, próximo ao encerramento
da jornada, a descida ao driver para atender um cliente, seguida do
esquecimento da chave, retorno para buscá-la e nova descida. A análise articula
os conceitos freudianos de ato falho e ações equivocadamente realizadas, a
compulsão à repetição, a demanda do Outro em Lacan e a questão do lugar
subjetivo. Sustenta-se como hipótese que os episódios não devem ser entendidos
como mensagens inconscientes literais, mas como material que pode revelar uma
tensão entre a obrigação de continuar respondendo às demandas do trabalho e o
desejo de concluir um ciclo. Particular atenção é concedida ao terceiro
episódio, no qual a chave aparece associada ao acesso ao driver e ao retorno ao
lugar anterior. A hipótese central é que o encerramento do supermercado pode
mobilizar não apenas o medo de perder um emprego, mas a angústia de perder um
lugar concreto onde o sujeito é útil, necessário e reconhecido, justamente
enquanto procura outro lugar onde seus conhecimentos, sua formação e sua
experiência possam ser utilizados.
Palavras-chave: psicanálise; ato falho; compulsão à repetição;
trabalho; encerramento; demanda; chave; identidade profissional; lugar
subjetivo.
1. Introdução
Em 21
de agosto de 2026, sexta-feira, durante sua jornada de trabalho em um
supermercado, o fiscal de caixa vivenciou três episódios que posteriormente
foram reconhecidos por ele como possíveis atos falhos. Embora cada
acontecimento possa possuir explicações ordinárias — distração, automatismo,
fadiga, sobrecarga atencional ou hábito —, a reunião dos três episódios em uma
mesma jornada permite uma leitura psicanalítica enquanto material associativo.
A
importância da psicanálise nesse tipo de investigação reside justamente na
possibilidade de considerar que determinados erros cotidianos podem adquirir
significado quando são associados à história, às preocupações e aos conflitos
do sujeito. Em A psicopatologia da vida cotidiana, Freud investigou
esquecimentos, lapsos e ações equivocadamente realizadas, propondo que
determinadas perturbações aparentemente banais da atividade cotidiana poderiam
ser relacionadas a pensamentos, motivos ou conflitos que não estavam
imediatamente disponíveis à consciência (Freud, 1901).
Isso
não significa, entretanto, que todo erro cotidiano seja necessariamente um ato
falho no sentido psicanalítico. A própria literatura contemporânea reconhece
que muitos lapsos podem decorrer de hábitos, carga cognitiva e mecanismos não
motivados psiquicamente. Assim, a interpretação apresentada neste artigo deve
ser compreendida como hipótese psicanalítica construída a partir das
associações produzidas pelo próprio sujeito, e não como diagnóstico ou
prova objetiva de uma intenção inconsciente.
A
sequência dos acontecimentos é particularmente significativa.
No
primeiro episódio, o fiscal saiu com uma lasanha na mão, pretendendo colocá-la
na geladeira dos frios, mas acabou dirigindo-se à cafeteria. Ao perceber o
desvio, afirmou à operadora: “Ixi, olha o que aconteceu. Era pra mim colocar
essa lasanha aqui lá na geladeira dos frios e eu vim parar aqui
despercebidamente”.
No
segundo episódio, foi buscar um cigarro solicitado por um cliente. Ao chegar ao
caixa, descobriu que não era aquele que o cliente queria. Retornou ao armário,
constatou que não havia o cigarro solicitado, comunicou a situação e recebeu
orientação para buscar outro cigarro. Depois de pegá-lo novamente e levá-lo ao
cliente, estava com a chave na mão e deveria dirigir-se diretamente ao balcão
de atendimento. Entretanto, retornou mais uma vez ao armário. Somente ao chegar
ao local percebeu que deveria ter ido ao balcão.
No
terceiro episódio, faltando aproximadamente dez minutos para o término da
jornada e para o registro do ponto, uma fiscal de caixa solicitou que ele
descesse ao driver para atender um cliente. Inicialmente, respondeu que não
iria. Depois mudou de ideia, desceu pelo elevador e, quando chegou ao local,
percebeu que havia esquecido a chave do driver. Precisou retornar, buscar a
chave e descer novamente para abrir a porta e retirar os itens solicitados.
Os
três acontecimentos apresentam uma característica comum: o deslocamento do
sujeito não acompanha exatamente a intenção consciente inicialmente
estabelecida.
A
questão que se coloca, portanto, é: o que esses atos falhos podem espelhar
para o sujeito?
2. O ato falho como desvio da
intenção consciente
Freud
dedicou atenção especial às chamadas Fehlleistungen, ou ações falhas,
incluindo situações nas quais uma ação executada se desvia da intenção
previamente estabelecida. No capítulo dedicado às ações equivocadamente
realizadas, Freud considera a possibilidade de transferir para os atos motores
a mesma expectativa de sentido que havia sido aplicada aos lapsos de fala e
esquecimento.
Essa
perspectiva é particularmente pertinente aos episódios analisados porque os
acontecimentos são essencialmente corporais e espaciais.
O
sujeito pensa uma coisa e o corpo realiza outra.
Não se
trata de uma fantasia narrada posteriormente. O fenômeno ocorre no próprio
deslocamento corporal:
deveria
ir aos frios → vai à cafeteria;
deveria
ir ao balcão → retorna ao armário;
deveria
concluir a jornada → aceita uma nova demanda, desce ao driver, esquece a chave,
retorna e desce novamente.
A
questão psicanalítica não é simplesmente perguntar “por que ele errou?”, mas:
por que esses erros assumiram
precisamente essas formas e por que foram percebidos pelo sujeito como
significativos?
A
resposta não pode ser dada antecipadamente. É necessário associar cada
elemento.
3. Primeiro ato falho: a lasanha
que vai parar na cafeteria
O
primeiro episódio apresenta um desvio aparentemente simples.
A
tarefa consciente era:
levar a lasanha → colocá-la na
geladeira dos frios.
Entretanto:
levar a lasanha → chegar à
cafeteria.
O
sujeito percebe o próprio deslocamento e verbaliza o estranhamento.
Psicanaliticamente,
a cafeteria não deve receber um significado universal. Não se pode afirmar que
“cafeteria” necessariamente simboliza descanso ou desejo de sair. O valor
simbólico depende das associações do sujeito.
Entretanto,
o episódio permite formular uma primeira hipótese: há uma ruptura entre a
tarefa consciente e o percurso corporal.
O
corpo não realiza exatamente o caminho previsto pela consciência.
Essa
primeira ruptura pode ser entendida como a abertura da sequência que
posteriormente se repetirá de maneira mais complexa.
4. Segundo ato falho: o retorno
ao armário
O
segundo episódio acrescenta um elemento fundamental: a repetição.
O
fiscal não apenas erra uma vez. Ele retorna ao mesmo lugar depois que a lógica
da tarefa já havia mudado.
A
sequência pode ser esquematizada:
demanda do cliente → armário →
constatação da falta → comunicação → nova orientação → armário → cigarro →
cliente → chave na mão → retorno ao armário → percepção do equívoco.
O
armário torna-se, assim, um ponto de repetição.
Não é
necessário concluir que o armário possua um significado fixo. Porém, dentro da
narrativa produzida pelo sujeito, ele pode ser tomado como o lugar das coisas
que ainda precisam ser procuradas, abertas, verificadas ou resolvidas.
Surge
então uma questão:
Por que, quando a tarefa já
havia mudado de etapa, o corpo retornou ao lugar anterior?
A
hipótese da compulsão à repetição pode ser evocada aqui, desde que usada com
rigor. Freud descreveu a repetição como um fenômeno clínico no qual o sujeito
pode reproduzir determinados circuitos em vez de simplesmente recordar ou
elaborar aquilo que está em jogo. No presente caso, não se pode diagnosticar
uma compulsão à repetição a partir de um único episódio; pode-se, entretanto,
observar uma estrutura repetitiva local: a demanda parece conduzir
novamente ao lugar onde as demandas são procuradas e solucionadas.
O
sujeito parece permanecer na posição de:
“há mais alguma coisa que
preciso encontrar.”
5. Terceiro ato falho: o driver
e a chave
O
terceiro episódio é o mais significativo porque ocorre exatamente no limiar do
encerramento.
Faltavam
dez minutos para o registro do ponto.
A
jornada estava objetivamente próxima do fim.
Nesse
momento, surge uma nova demanda:
“Você
pode descer no driver para atender o cliente?”
A
primeira resposta foi:
“Não vou.”
Depois
veio a mudança:
“Vou.”
Esse
pequeno diálogo já apresenta uma ambivalência importante.
De um
lado, existe a percepção do limite:
“Minha
jornada está terminando.”
De
outro:
“Ainda
existe uma demanda à qual preciso responder.”
A
situação torna-se ainda mais significativa quando o sujeito desce e percebe que
esqueceu a chave.
Ele
precisa voltar.
Busca
a chave.
Desce
novamente.
Abre o
driver.
Retira
os itens.
Atende
o cliente.
O
encerramento, portanto, não ocorre de maneira direta. Antes dele, existe mais
uma demanda, mais um deslocamento e mais um retorno.
6. A chave como elemento
simbólico
A
chave merece atenção especial porque aparece no momento em que a tarefa exige
acesso ao driver.
Em
termos concretos, a função da chave é objetiva: abrir a porta.
Em
termos simbólicos, entretanto, ela pode ser associada a ideias de acesso,
passagem, abertura, entrada e possibilidade de fechamento.
Não se
deve afirmar que a chave “significa” necessariamente uma determinada coisa.
Mas, dentro da associação produzida pelo sujeito, ela permite formular uma
pergunta:
O que precisa ser encontrado
antes que o sujeito consiga passar de um lugar para outro?
A
resposta pode não ser apenas material.
Pode
ser:
- uma oportunidade
profissional;
- uma nova
instituição;
- uma experiência
que legitime sua trajetória;
- uma forma de
utilizar seus conhecimentos;
- reconhecimento;
- segurança;
- confiança;
- um projeto
profissional;
- ou simplesmente a
autorização subjetiva para concluir uma etapa.
A
chave pode ser pensada, portanto, como uma metáfora da condição de passagem.
7. O supermercado como lugar de
função
A
interpretação do terceiro ato falho torna-se mais ampla quando se considera o
lugar que o trabalho ocupa na experiência do sujeito.
O
supermercado não é apenas o local onde ele executa tarefas. É também um lugar
no qual ele possui uma função concreta.
Ali
ele é solicitado.
Ali
ele resolve problemas.
Ali
ele orienta.
Ali
ele atende clientes.
Ali
ele lida com operadores.
Ali
ele recebe demandas.
Ali
sua presença possui utilidade imediata.
Isso
cria uma questão subjetiva importante:
Se esse lugar for encerrado,
onde aquilo que construí poderá ser utilizado?
Aqui a
questão deixa de ser exclusivamente “sair ou ficar no supermercado”.
Surge
a questão do lugar profissional.
O
sujeito possui formação e conhecimentos em Psicologia e deseja encontrar
espaços nos quais possa aplicar aquilo que construiu. Portanto, o encerramento
de um ciclo profissional pode mobilizar não apenas o medo de perder uma fonte
de trabalho, mas o medo de ficar sem um lugar concreto onde sua capacidade
possa adquirir função.
Essa
distinção é fundamental.
O medo
não seria necessariamente:
“Tenho
medo de ficar sem supermercado.”
Poderia
ser:
“Tenho medo de sair de um lugar
onde sou funcional sem ainda possuir outro lugar onde possa ser funcional de
outra maneira.”
8. A angústia do intervalo entre
dois lugares
O
terceiro ato falho pode então ser lido como uma cena de transição.
De um
lado está o lugar conhecido:
supermercado → função → demanda
→ utilidade → pertencimento.
Do
outro lado está um lugar desejado, mas ainda não totalmente constituído:
formação → experiência →
Psicologia → possibilidade de aplicação → novo lugar profissional.
Entre
os dois existe um intervalo.
E o
intervalo pode produzir angústia.
A
pergunta subjetiva passa a ser:
“Se eu fechar esta porta, qual
será a próxima porta?”
Nesse
contexto, o esquecimento da chave pode adquirir um valor metafórico:
“Ainda não tenho a chave do
próximo lugar.”
Não se
trata de afirmar que o inconsciente literalmente produziu o esquecimento para
comunicar essa frase. Trata-se de uma associação interpretativa possível a
partir do material.
9. A demanda do Outro
A
leitura lacaniana acrescenta outra dimensão.
No
terceiro episódio, a demanda não nasce inicialmente do próprio sujeito. Ela vem
de uma outra pessoa:
“Você
pode descer no driver para atender o cliente?”
O
sujeito responde primeiro negativamente, depois aceita.
A
demanda do outro coloca o sujeito novamente na posição daquele que responde.
Na
teoria lacaniana, a demanda não é apenas um pedido concreto; ela está
articulada à relação do sujeito com o Outro e excede a satisfação da
necessidade imediata.
Aplicada
cuidadosamente ao episódio, essa perspectiva permite perguntar:
O que acontece com o sujeito
quando o Outro demanda algo justamente no momento em que ele pretendia encerrar
sua participação?
A
resposta observada foi: ele retorna à posição de quem atende.
O
cliente precisa.
A
fiscal solicita.
O
fiscal responde.
A
porta precisa ser aberta.
A
chave precisa ser buscada.
A
demanda é solucionada.
A
jornada pode finalmente prosseguir para seu encerramento.
Assim,
a cena pode representar a seguinte estrutura:
quando o fim se aproxima, uma
demanda do Outro reinstala o sujeito na posição daquele que resolve.
10. O conflito entre “resolver”
e “encerrar”
A
sequência dos três atos falhos permite formular um eixo comum:
Primeiro episódio
Desvio do percurso.
Segundo episódio
Retorno ao lugar da demanda.
Terceiro episódio
Retorno ao lugar anterior
justamente no momento do encerramento.
Há uma
progressão:
desviar → retornar → prolongar →
finalmente concluir.
Isso
pode espelhar uma organização subjetiva na qual o encerramento precisa ser
precedido por uma última resolução.
A
questão passa a ser:
Por que o sujeito precisaria
resolver mais uma coisa antes de se autorizar a terminar?
Possíveis
respostas são:
- porque aprendeu
que só pode descansar depois de cumprir integralmente sua obrigação;
- porque sente que
sempre existe alguém que pode precisar dele;
- porque resolver
produz uma sensação de utilidade;
- porque uma nova
demanda oferece uma justificativa para permanecer;
- porque sair antes
de tudo estar resolvido pode ser vivido como abandono;
- porque ainda não
possui segurança sobre o que virá depois;
- porque o trabalho
fornece uma identidade funcional concreta;
- porque concluir um
ciclo pode produzir o encontro com a incerteza do próximo ciclo.
11. “Já terminou”: o significado
de reconhecer um limite
A
frase:
“Já terminou; não há mais nada
que eu precise resolver aqui.”
pode
representar uma operação subjetiva importante.
Ela
não significa necessariamente “devo abandonar o emprego imediatamente”.
Significa
algo mais elementar:
“Minha responsabilidade possui
um limite.”
O
sujeito pode reconhecer que existem demandas que continuarão existindo depois
que sua jornada terminar.
O
cliente continuará podendo ter necessidades.
O
supermercado continuará possuindo problemas.
Outros
trabalhadores continuarão executando suas funções.
Nem
tudo precisa passar pelo sujeito.
Esse
reconhecimento rompe a fantasia de que o encerramento depende da solução total
das demandas.
12. A questão da identidade
profissional
A
hipótese torna-se ainda mais importante quando se considera que o sujeito não
se identifica exclusivamente com o trabalho atual.
Existe
uma trajetória de formação, estudo e construção profissional que aponta para
outros campos de atuação.
Consequentemente,
o encerramento do supermercado pode mobilizar uma pergunta identitária:
“Quem sou eu quando não estou
mais ocupando este lugar?”
Essa
pergunta pode ser acompanhada por outra:
“Onde aquilo que construí
durante minha formação encontrará um lugar para existir?”
O
problema, portanto, não seria simplesmente abandonar uma função.
Seria
realizar uma passagem entre posições:
“sou aquele que atende demandas
no supermercado”
para
“posso ocupar um lugar no qual
meus conhecimentos psicológicos e minha experiência humana sejam utilizados de
outra maneira.”
O
segundo lugar precisa ser construído.
É
justamente essa construção que pode tornar o encerramento angustiante.
13. A chave como metáfora da
passagem profissional
O
terceiro ato falho permite formular uma hipótese condensadora:
O sujeito talvez não tenha
apenas medo de sair de um lugar; talvez tenha medo de sair sem possuir ainda a
chave do próximo lugar.
A
chave torna-se, então, um elemento que articula três dimensões:
acesso → função → passagem.
Sem a
chave, ele não consegue entrar no driver.
Da
mesma maneira, metaforicamente, o sujeito pode sentir que precisa encontrar
alguma condição antes de abandonar completamente o lugar atual.
Essa
condição poderia ser:
“Preciso
encontrar uma oportunidade.”
“Preciso
provar minha experiência.”
“Preciso
construir meu projeto.”
“Preciso
saber onde vou atuar.”
“Preciso
ter segurança de que aquilo que aprendi terá lugar.”
Nesse
sentido, o trabalho de elaboração não seria simplesmente produzir uma saída,
mas construir uma passagem.
14. A repetição do circuito
“mais uma coisa”
Os
três atos falhos também podem ser compreendidos através de uma frase implícita:
“Ainda falta alguma coisa.”
Na
lasanha:
ainda
falta colocar no lugar correto.
No
cigarro:
ainda
falta encontrar o cigarro correto.
No
driver:
ainda
falta buscar a chave.
Em
cada situação, surge uma pequena tarefa adicional.
Essa
repetição pode produzir uma representação cotidiana de uma experiência maior:
“Antes de terminar, sempre
existe mais alguma coisa para resolver.”
A
consequência subjetiva dessa regra é grave:
Se o
sujeito só puder sair quando tudo estiver resolvido, ele nunca estará
autorizado a sair, porque o campo de trabalho produz demandas continuamente.
O
trabalho analítico, então, pode consistir em questionar a própria regra:
“Quem determinou que preciso
resolver tudo para poder encerrar?”
15. O lugar onde o sujeito é
necessário
Há
ainda uma dimensão narcísica e identitária que merece investigação.
Ser
aquele que resolve problemas pode produzir uma experiência de valor:
“Sou
necessário porque consigo resolver.”
Isso
não significa necessariamente narcisismo patológico. Trata-se de investigar uma
possível ligação entre utilidade e valor subjetivo.
Se a
pessoa se sente especialmente reconhecida quando alguém precisa dela, uma
redução das demandas pode produzir um vazio:
“Se
ninguém precisa de mim, qual é o meu lugar?”
Nesse
ponto, o encerramento da jornada pode ser mais difícil do que a própria
atividade.
A
atividade oferece um roteiro.
O
encerramento retira temporariamente esse roteiro.
16. O paradoxo do encerramento
O
paradoxo central pode ser formulado assim:
Para sair de um lugar no qual o
sujeito é constantemente solicitado, ele precisa tolerar a possibilidade de não
ser solicitado naquele momento.
Isso
pode ser difícil porque a demanda fornece uma função.
O
cliente chama → ele atende.
O
operador solicita → ele resolve.
A
porta precisa ser aberta → ele busca a chave.
Existe
sempre uma ação possível.
Mas
quando a jornada termina:
não há mais demanda que
justifique sua permanência.
Nesse
instante aparece a possibilidade de uma pergunta diferente:
“O que desejo fazer quando
ninguém está me pedindo nada?”
Essa
pergunta desloca o sujeito da demanda do Outro para o próprio desejo.
17. Considerações clínicas e
limites da interpretação
É
fundamental destacar que esta análise não permite concluir que os atos falhos
sejam uma mensagem objetiva do inconsciente determinando que o sujeito deixe o
supermercado.
Também
não permite afirmar que a chave “significa” necessariamente a Psicologia, que o
armário “significa” o supermercado ou que a cafeteria “significa” descanso.
Na
psicanálise, o sentido de um elemento não é universalmente fixado por um
dicionário simbólico. Ele depende das associações do sujeito, de sua história e
da cadeia significante na qual o elemento aparece.
Freud
oferece fundamento para investigar as ações equivocadamente realizadas, mas uma
leitura responsável precisa considerar também que lapsos podem decorrer de
fatores cotidianos e cognitivos.
Portanto,
a interpretação deve permanecer aberta.
A
pergunta fundamental não é:
“O que
a chave significa?”
Mas:
“Quando penso na chave
esquecida, o que ela me faz associar?”
Da
mesma maneira:
“O que
significa para mim retornar ao armário?”
“O que
sinto quando a jornada está terminando?”
“O que
temo encontrar quando não houver mais nada para resolver?”
“Que
lugar quero ocupar depois do supermercado?”
“O que
precisaria existir para que eu me sentisse autorizado a encerrar?”
São
essas associações que poderiam confirmar, modificar ou rejeitar as hipóteses
apresentadas.
18. Conclusão
Os
três atos falhos ocorridos em 21 de agosto de 2026 podem ser lidos, em uma
perspectiva psicanalítica, como uma sequência na qual o corpo apresenta
desvios, retornos e prolongamentos justamente dentro de um cotidiano organizado
pela resposta contínua às demandas.
No
primeiro episódio, a lasanha deveria ir aos frios, mas o sujeito chega à
cafeteria. No segundo, depois de resolver sucessivas etapas relacionadas ao
cigarro, retorna novamente ao armário quando deveria dirigir-se ao balcão. No
terceiro, o mais expressivo, faltando aproximadamente dez minutos para o
encerramento da jornada, surge uma nova demanda; o sujeito inicialmente recusa,
depois aceita, desce ao driver, percebe que esqueceu a chave, retorna para
buscá-la e somente então volta para concluir a tarefa.
Tomados
em conjunto, os episódios permitem formular uma hipótese central: o problema
subjetivo talvez não seja simplesmente saber se o sujeito deseja permanecer ou
sair do supermercado, mas compreender por que o encerramento precisa ser
precedido por mais uma resolução.
O
driver concentra essa problemática. A jornada está terminando; surge uma
demanda; o sujeito retorna à posição daquele que resolve; falta a chave; ele
volta; encontra o instrumento necessário; desce novamente; abre; atende; e
finalmente pode prosseguir para o encerramento.
A
chave, portanto, pode ser tomada como uma metáfora possível da passagem. Sem
ela, a tarefa não pode ser concluída. Associativamente, isso permite formular a
hipótese de que o sujeito talvez esteja diante de uma questão mais ampla:
“Como encerrar um lugar no qual
ainda sou funcional sem saber plenamente qual será o próximo lugar onde aquilo
que construí poderá ser utilizado?”
Essa
formulação desloca o problema do simples binômio ficar × sair para uma
questão mais complexa: lugar atual × lugar possível.
O
supermercado fornece um lugar concreto de função, utilidade e demanda. O
sujeito sabe o que fazer ali e sabe que é chamado para resolver problemas. Ao
mesmo tempo, sua formação e trajetória em Psicologia apontam para a necessidade
de encontrar outros espaços nos quais seus conhecimentos possam adquirir
finalidade profissional. O encerramento, portanto, pode mobilizar não apenas o
medo de perder um trabalho, mas o medo do intervalo entre um lugar que existe e
outro que ainda precisa ser construído.
A
frase “já terminou; não há mais nada que eu precise resolver aqui” adquire,
nesse contexto, um significado particularmente importante. Ela não precisa
representar uma decisão imediata de desligamento. Pode representar uma autorização
subjetiva para reconhecer limites: nem toda demanda precisa ser atendida
pelo sujeito; nem todo problema precisa ser resolvido por ele; e uma jornada
pode terminar mesmo quando o mundo continua apresentando problemas.
A
questão fundamental talvez seja, portanto:
“Posso encerrar uma função sem
considerar que, ao encerrá-la, também perco o meu lugar?”
E uma
segunda pergunta emerge:
“Posso confiar que aquilo que
construí comigo não desaparece quando uma jornada termina?”
Se a
resposta puder progressivamente ser afirmativa, o encerramento deixa de
significar simplesmente perda. Pode tornar-se uma passagem.
Nesse
sentido, os atos falhos não precisariam ser entendidos como uma ordem
inconsciente para abandonar o supermercado. Eles podem ser compreendidos como material
de elaboração sobre a dificuldade de concluir um ciclo, tolerar a ausência de
novas demandas e construir um lugar futuro no qual a experiência acumulada
possa continuar tendo valor e função.
O
trabalho psicanalítico, finalmente, não consistiria em obedecer ao ato falho,
mas em escutá-lo. Não perguntar apenas “para onde meu corpo foi?”, mas:
“O que estava acontecendo comigo
quando eu deveria estar terminando?”
É
nessa diferença entre o acontecimento e sua elaboração que o ato cotidiano pode
transformar-se em material para compreender o sujeito.
Referências bibliográficas
FREUD,
Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana (1901). Obra dedicada aos
esquecimentos, lapsos, ações equivocadas e outros fenômenos da vida cotidiana.
A edição digital consultada apresenta os capítulos sobre esquecimento, lapsos e
“ações equivocadamente realizadas”.
FREUD, Sigmund. The
Psychopathology of Everyday Life: Erroneously Carried-out Actions. 1901. Capítulo VIII. A obra investiga a
possibilidade de sentido e finalidade em determinadas perturbações
aparentemente banais das ações cotidianas.
LACAN,
Jacques. O Seminário, Livro VIII: A transferência. 1960–1961. Referência
para a discussão lacaniana da demanda, do desejo e da relação com o Outro. A
estrutura do seminário inclui especificamente o desenvolvimento da relação
entre demanda e desejo.
LACAN,
Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. Referência geral para a teoria
lacaniana do sujeito, do significante, do Outro, da demanda e do desejo.
WINNICOTT,
Donald W. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro:
Imago. Referência para conceitos fundamentais da teoria winnicottiana
relacionados à constituição do self, dependência, ambiente e experiência
subjetiva.
WINNICOTT,
Donald W. O gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes. Referência para
a compreensão da experiência subjetiva e da espontaneidade no pensamento
winnicottiano. A literatura especializada também destaca a formulação
winnicottiana sobre verdadeiro e falso self, fenômenos transicionais e
simbolização.
MIGLIORINI,
Walter José Martins. O objeto transicional pode ser uma pessoa? Teoria e
clínica. Revista Internacional de Psicanálise Winnicottiana, v. 9,
n. 2, 2014. O artigo discute a especificidade dos conceitos winnicottianos de
objeto transicional, simbolização e transição.
GELLER, Jay. The
psychopathology of everyday Vienna: psychoanalysis and Freud's familiars. International Journal of Psychoanalysis, v. 85, n. 5, p. 1209–1223, 2004. O estudo examina
a dimensão dos atos falhos e sua relação com ambivalências e conflitos não
formulados.
Nota metodológica
As
situações descritas neste artigo são tratadas como vinhetas autobiográficas
interpretadas psicanaliticamente, e não como material suficiente para
diagnóstico clínico. A interpretação dos atos falhos permanece hipotética e
deve ser submetida às associações, à história e à elaboração do próprio
sujeito.
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