A Idealização do Parceiro nos Aplicativos de Relacionamento: Uma Análise da Compatibilidade de Rotinas e da Construção Social das Escolhas Afetivas sob a Perspectiva da Psicologia Social
Introdução
Os
aplicativos de relacionamento transformaram profundamente a forma como as
pessoas estabelecem vínculos afetivos. Se anteriormente a convivência cotidiana
permitia que a personalidade fosse conhecida antes da avaliação de
características objetivas, atualmente a decisão sobre continuar ou interromper
uma interação ocorre em poucos minutos, muitas vezes baseada em informações
limitadas, como profissão, idade, escolaridade, localização e disponibilidade
de tempo.
O caso
analisado neste artigo refere-se a um sujeito que, ao longo de aproximadamente
oito anos, ingressou e saiu de diversos aplicativos de relacionamento sem
conseguir estabelecer um relacionamento amoroso. Segundo seu relato, existe um
padrão recorrente: após iniciar uma conversa, as mulheres perguntam sobre sua
profissão. Ao responder que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado,
surge imediatamente outra pergunta: "Você trabalha aos finais de
semana?". Ao responder afirmativamente, a interação é encerrada e,
frequentemente, ocorre sua exclusão do aplicativo ou do WhatsApp.
A
repetição desse fenômeno levou o sujeito à conclusão de que as mulheres desejam
apenas parceiros que estejam disponíveis aos finais de semana, possuam
profissões socialmente mais valorizadas e se encaixem em um modelo previamente
idealizado. Como consequência, ele concluiu que somente conseguirá estabelecer
um relacionamento amoroso com mulheres pertencentes ao próprio ambiente do
supermercado, pois estas compreenderiam sua rotina de trabalho.
A
Psicologia Social oferece instrumentos teóricos importantes para compreender
esse fenômeno sem recorrer à generalização de que todas as mulheres
compartilham dos mesmos critérios de escolha. O objetivo deste artigo é
analisar esse caso à luz dos principais conceitos da Psicologia Social.
A construção social da escolha
afetiva
Segundo
Moscovici (2015), os indivíduos constroem representações sociais acerca dos
diferentes papéis existentes na sociedade. Essas representações funcionam como
referenciais utilizados para interpretar rapidamente pessoas e situações.
Ao
informar que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e que exerce suas
atividades aos finais de semana, o sujeito desperta imediatamente determinadas
representações sociais associadas à profissão e ao estilo de vida. Antes mesmo
que sua personalidade seja conhecida, sua rotina profissional passa a funcionar
como um marcador social capaz de influenciar a continuidade da interação.
Dessa
forma, a decisão não ocorre necessariamente pela profissão em si, mas pela
representação construída em torno dela.
A compatibilidade de estilos de
vida
A
teoria da atração interpessoal demonstra que as pessoas tendem a buscar
parceiros percebidos como compatíveis com seus próprios projetos de vida (Myers
& Twenge, 2019).
Quando
uma mulher pergunta se o sujeito trabalha aos finais de semana, ela procura
identificar uma possível compatibilidade entre sua rotina e a dele.
Caso
ela atribua elevado valor ao lazer nos sábados e domingos, viagens ou
convivência familiar nesses dias, poderá interpretar a indisponibilidade do
sujeito como um obstáculo ao relacionamento.
Sob
essa perspectiva, a rejeição não necessariamente representa uma desvalorização
pessoal do indivíduo, mas uma avaliação subjetiva de compatibilidade entre
estilos de vida.
Os atalhos cognitivos nos
aplicativos de relacionamento
Os
aplicativos de relacionamento favorecem decisões extremamente rápidas.
Na
ausência de informações aprofundadas, os usuários recorrem às chamadas
heurísticas — atalhos cognitivos descritos por Kahneman (2012) — para
simplificar a tomada de decisão.
Profissão.
Disponibilidade.
Escolaridade.
Distância
geográfica.
Esses
elementos tornam-se critérios utilizados para decidir, em poucos segundos, se
vale ou não investir emocionalmente naquela interação.
Assim,
uma única informação pode ser suficiente para interromper uma conversa antes
que outras características da personalidade sejam conhecidas.
A idealização do parceiro
A
Psicologia Social demonstra que todos os indivíduos constroem expectativas
acerca do parceiro ideal.
Essas
expectativas podem incluir:
- disponibilidade de
tempo;
- estabilidade
financeira;
- escolaridade;
- valores pessoais;
- interesses
semelhantes;
- projetos
familiares;
- objetivos de vida.
Entretanto,
não existe um padrão feminino universal.
Cada
pessoa atribui pesos diferentes a esses critérios.
Desse
modo, afirmar que todas as mulheres desejam homens livres aos finais de semana
constitui uma generalização incompatível com a literatura científica.
A influência das normas sociais
Segundo
Berger e Luckmann (2014), a realidade é socialmente construída.
Determinadas
profissões recebem maior reconhecimento simbólico do que outras.
Além
disso, culturalmente o final de semana costuma ser representado como o momento
destinado ao lazer, descanso e convivência familiar.
Quando
o sujeito informa que trabalha exatamente nesses dias, sua rotina passa a
divergir da expectativa social predominante.
Essa
divergência pode reduzir sua percepção inicial de compatibilidade para algumas
pessoas.
O viés de confirmação
Após
aproximadamente oito anos vivenciando rejeições semelhantes, o sujeito
desenvolveu uma hipótese explicativa:
"As
mulheres querem homens que estejam livres aos finais de semana."
A
Psicologia Social descreve esse fenômeno como viés de confirmação.
Segundo
Myers e Twenge (2019), quando uma crença é formada, os indivíduos tendem a
prestar maior atenção aos acontecimentos que a confirmam e menor atenção às
situações que poderiam contrariá-la.
Isso
pode fortalecer a percepção de que todas as experiências futuras produzirão o
mesmo resultado.
A convivência presencial como
fator de aproximação
Festinger,
Schachter e Back (1950) demonstraram que a proximidade física favorece o
desenvolvimento dos relacionamentos interpessoais.
No
ambiente do supermercado, colegas convivem diariamente.
Essa
convivência permite conhecer aspectos que os aplicativos dificilmente revelam:
- personalidade;
- caráter;
- senso de humor;
- responsabilidade;
- empatia;
- modo de lidar com
conflitos.
Nesse
contexto, a profissão deixa de ser a única informação disponível.
Por
essa razão, a hipótese do sujeito de que possui maiores chances de estabelecer
relacionamentos dentro do ambiente profissional encontra respaldo parcial na
Psicologia Social, não porque esse seja o único caminho possível, mas porque a
convivência contínua amplia as oportunidades de formação de vínculos.
A limitação da conclusão do
sujeito
Embora
as experiências negativas tenham sido numerosas, a conclusão de que
"jamais conseguirá se relacionar utilizando aplicativos" ultrapassa
aquilo que os dados permitem afirmar.
Do
ponto de vista científico, a repetição de um padrão não autoriza concluir que
ele seja universal.
As
experiências vividas indicam dificuldades reais, porém não demonstram que todas
as mulheres compartilham os mesmos critérios de escolha.
A
Psicologia Social recomenda cautela diante de generalizações construídas a
partir de experiências pessoais, justamente porque diferentes grupos sociais
podem apresentar expectativas distintas sobre um relacionamento.
Conclusão
O caso
analisado evidencia como os aplicativos de relacionamento favorecem avaliações
rápidas baseadas em poucas informações objetivas. A profissão de fiscal de
caixa e a necessidade de trabalhar aos finais de semana tornam-se elementos
altamente visíveis no início da interação, influenciando a percepção de
compatibilidade para parte das pessoas.
A
Psicologia Social sugere que essas rejeições podem ser compreendidas pela
combinação entre representações sociais, normas culturais, heurísticas
cognitivas, busca por compatibilidade de estilos de vida e viés de confirmação.
Esses fatores ajudam a explicar por que experiências repetidas podem levar o
sujeito à crença de que existe um padrão único de escolha feminina.
Ao
mesmo tempo, a literatura indica que relações construídas em contextos de
convivência contínua, como o ambiente de trabalho, permitem que outras
dimensões da pessoa sejam conhecidas antes que aspectos isolados, como
profissão e disponibilidade de tempo, assumam papel decisivo. Isso pode ampliar
as possibilidades de vínculo, sem significar que os aplicativos sejam,
necessariamente, uma via inviável para esse sujeito.
Referências
BERGER,
Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade. 36. ed. Petrópolis: Vozes,
2014.
FESTINGER, Leon; SCHACHTER,
Stanley; BACK, Kurt. Social Pressures in Informal Groups. Stanford: Stanford University Press, 1950.
KAHNEMAN,
Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2012.
MOSCOVICI,
Serge. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social. 11.
ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
MYERS,
David G.; TWENGE, Jean M. Psicologia Social. 12. ed. Porto Alegre: AMGH,
2019.
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