Introdução
O
término da graduação marca, para muitos profissionais, o ponto de partida de um
projeto de vida focado na consolidação de uma carreira funcional, sustentável e
reconhecida. No entanto, o percurso acadêmico e o esforço individual nem sempre
garantem a inserção ou o êxito nos variados campos de atuação que a profissão
promete. Entre o momento da formação, em 2018, e a maturidade profissional
projetada para 2026, a vivência contínua de insucessos em múltiplos eixos pode
conduzir o indivíduo a uma profunda reavaliação sobre a viabilidade de
permanecer em determinada área. Quando todos os caminhos desenhados e
executados culminam na ausência de retorno prático, o reconhecimento do
encerramento de um ciclo e a elaboração do luto profissional emergem não como fraqueza,
mas como um processo fundamental de reorganização existencial e ocupacional.
A Articulação dos Caminhos
Tentados (2018–2026)
Ao
longo de oito anos, foram empreendidos esforços deliberados em praticamente
todas as vertentes acessíveis da Psicologia, utilizando tanto as vias
tradicionais de mercado quanto as experiências prévias e de vida. Contudo,
nenhuma das frentes apresentou a sustentabilidade necessária:
- Atendimento Clínico (Presencial e On-line): A tentativa de estruturar um consultório
autônomo, integrando o espaço físico ao atendimento remoto, resultou em
uma demanda escassa de pacientes. A criação de um site próprio para
ancorar o conhecimento técnico e a manutenção de um blog com a publicação
contínua de artigos entre 2018 e 2026 não geraram a visibilidade ou a
captação esperadas para a sustentabilidade da prática clínica.
- Psicologia Social e Atuação Comunitária: A participação constante em processos
seletivos para instituições sociais e do terceiro setor não redundou em
aprovação. O vínculo de trabalho voluntário mantido no Centro de
Referência LGBT entre 2017 e 2025 — totalizando oito anos de dedicação à
causa e à comunidade — não se converteu em uma oportunidade de contratação
formal como psicólogo social na própria instituição.
- Concursos Públicos e Terceiro Setor
Religioso: As tentativas de
ingresso no serviço público por meio de concursos na área de Psicologia
não obtiveram êxito. Paralelamente, o diálogo com a instituição associada
à igreja em que congrega, sustentado pela graduação em Teologia, não
resultou na absorção nem como psicólogo social, nem na convocação para o
cargo de educador social.
- Psicologia Hospitalar e Organizacional: A experiência profissional anterior como
técnico em mecânica no Hospital de Clínicas da Unicamp não abriu portas
para o ingresso na Psicologia Hospitalar. De forma semelhante, a atuação
como fiscal de caixa em uma rede de supermercados não se traduziu em
progressão funcional para o cargo de assistente de RH generalista dentro
da própria empresa.
- Psicologia do Esporte: O projeto autoral elaborado para atuação
dentro da academia onde pratica atividades físicas não obteve adesão e
fracassou no ambiente institucional.
A
sobreposição desses resultados consolida um cenário no qual as competências
adquiridas, os acervos de artigos escritos e os saberes acumulados em Teologia,
suporte técnico hospitalar e vivência operacional em vendas/caixa não
encontraram ressonância no mercado de trabalho da Psicologia.
Razões para a Elaboração do Luto
da Psicologia
A
decisão de interromper a busca por uma carreira na Psicologia exige
fundamentação analítica para que o encerramento do ciclo ocorra sem a
permanência de pendências subjetivas. As razões centrais para a realização
desse luto pautam-se nos seguintes aspectos:
1.
Exaustão do Repertório de Ação: Foram testadas a clínica
(online/presencial/marketing de conteúdo), a assistência social, o concurso
público, o terceiro setor, a área hospitalar, a organizacional (via promoção
interna) e a esportiva. O esgotamento das possibilidades lógicas elimina a dúvida
sobre a falta de tentativa.
2.
Descompasso Temporal e Econômico: O período compreendido entre 2018 e 2026 representa
um intervalo significativo de investimento sem o devido retorno econômico ou
estabilidade profissional na área de formação.
3.
Encaminhamento para o Luto Profissional: O conceito de luto, tradicionalmente aplicado à
perda de entes queridos, estende-se à perda de papéis sociais, expectativas e
projetos de vida. Conforme apontam estudos sobre transição de carreira e luto
ocupacional:
"O
luto por uma carreira idealizada exige a aceitação de que o investimento de
tempo, energia e identidade em determinado campo atingiu um limite. Reconhecer
o fim de um projeto profissional possibilita a desinvestimentação afetiva da
idealização e a abertura para novas formas de inserção social."
(KÜBLER-ROSS, 1969; WORDEN, 2013).
Aproveitar
o período de férias do trabalho no supermercado para vivenciar esse luto
torna-se um passo estratégico. O espaço de pausa permite distanciar-se da
rotina e processar a frustração acumulada, validando a trajetória percorrida
sem a obrigação de insistir em caminhos que demonstraram estagnação.
Conclusão
A
constatação de que não foi possível construir um caminho de sucesso na
Psicologia, a despeito de oito anos de tentativas diversificadas e do empenho
contínuo em diferentes nichos, conduz de forma coerente à escolha pelo
encerramento dessa etapa. Fazer o luto da Psicologia significa reconhecer que o
esforço depositado no blog, no trabalho voluntário, nos projetos e nas seleções
cumpriu seu papel de testagem de hipóteses profissionais, ainda que o resultado
tenha sido a inadequação do mercado às expectativas e necessidades do
indivíduo. A aceitação do término dessa trajetória libera recursos psíquicos e
práticos para que a atenção e a energia possam ser redirecionadas a novos
objetivos e realidades.
Referências Bibliográficas
- KÜBLER-ROSS,
Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes,
1969.
- WORDEN, J.
William. Aconselhamento do luto e terapia do luto: um manual para o
profissional de saúde mental. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
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