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Capaz de Entrar, Resolver, Fechar e Sair

 Uma leitura psicanalítica do armário, da chave, do cliente e do encerramento de um ciclo

Introdução

A cena analisada parte de uma situação aparentemente banal ocorrida no trabalho do fiscal de caixa. Um cliente solicitou determinado cigarro. O fiscal dirigiu-se ao armário para buscá-lo, retornou ao caixa e descobriu que aquele não correspondia ao produto desejado. Voltou ao armário, verificou que não havia o cigarro solicitado e comunicou a situação à operadora. Ela orientou que levasse o outro cigarro que havia sido trazido. O fiscal voltou novamente ao armário, pegou o produto, levou-o ao cliente e solucionou a demanda.

Entretanto, depois de realizar a tarefa, surgiu o elemento central da cena: o fiscal estava com a chave do armário na mão, mas, em vez de dirigir-se ao balcão de atendimento, retornou novamente ao armário. Somente ao chegar ao armário percebeu que deveria ter ido ao balcão.

Inicialmente, esse comportamento poderia ser compreendido simplesmente como distração, automatismo ou erro de orientação. Contudo, pela perspectiva da psicanálise, os chamados atos falhos ou ações equivocadamente realizadas podem ser considerados fenômenos dignos de investigação. Freud dedicou parte importante de A psicopatologia da vida cotidiana justamente ao estudo de esquecimentos, equívocos e ações realizadas de maneira diferente da intenção consciente. (Clássicos da História da Psicologia)

Isso não significa que todo erro cotidiano tenha necessariamente uma mensagem inconsciente determinada. A leitura psicanalítica exige cautela: o significado de um ato não pode ser simplesmente imposto de fora. É necessário considerar a cadeia associativa, o contexto e a história do sujeito. Portanto, o episódio aqui analisado deve ser tratado como hipótese interpretativa, e não como prova de que o inconsciente “disse” literalmente alguma coisa.

Ainda assim, a sequência apresenta uma configuração simbólica particularmente rica: cliente, demanda, armário, cigarro, chave, fechamento e balcão.


1. A primeira abertura: uma demanda que precisa ser atendida

O cliente apresenta uma demanda.

O fiscal recebe essa demanda e dirige-se ao armário.

O armário, nesse primeiro momento, é o lugar onde se encontra o objeto capaz de responder à necessidade do cliente. Ele precisa ser aberto, o objeto precisa ser localizado, retirado e entregue.

Temos, portanto, uma sequência bastante clara:

demanda → busca → encontro → retirada → entrega.

O fiscal não está simplesmente circulando pelo supermercado. Ele está executando uma função: resolver uma demanda apresentada por outra pessoa.

O primeiro cigarro não corresponde àquilo que o cliente desejava. Surge então uma interrupção do circuito. O fiscal precisa retornar, verificar novamente e receber uma nova orientação.

A repetição começa a aparecer.

Ele vai.

Volta.

Confere.

Retorna.

Busca novamente.

Entrega.

Nesse ponto, a tarefa finalmente é solucionada.


2. O segundo retorno ao armário

O elemento decisivo ocorre depois da solução.

O cigarro foi encontrado.

O produto foi entregue.

O cliente foi atendido.

O armário foi fechado.

E o fiscal está com a chave na mão.

Objetivamente, não existe mais nenhuma tarefa relacionada àquele cigarro naquele armário.

Entretanto, o corpo realiza mais um movimento em direção ao lugar anterior.

Ele volta ao armário.

É nesse instante que a cena pode ser interpretada como algo além de um simples erro de percurso.

Ele retorna ao lugar onde a tarefa começou e encontra, simbolicamente, a ausência de uma nova tarefa.

Não há mais nada para buscar.

O objeto já foi retirado.

A demanda já foi atendida.

O ciclo já foi fechado.

A própria repetição acaba produzindo o reconhecimento de que não havia motivo para repetir.


3. A chave: capacidade de abrir, mas também possibilidade de sair

A chave assume uma posição central na interpretação.

Enquanto o problema estava aberto, a chave possuía uma função objetiva: permitir o acesso ao armário.

Ela possibilitou a abertura necessária para buscar o objeto.

Mas, depois que o cigarro foi retirado e o armário fechado, a função daquela chave em relação àquela demanda terminou.

Isso permite uma leitura simbólica:

A chave continua pertencendo ao sujeito, mas o problema ao qual ela servia já foi solucionado.

Portanto, a chave não precisa ser novamente utilizada para abrir o mesmo armário.

Ela pode permanecer com o sujeito enquanto ele muda de direção.

Essa diferença é fundamental.

Não se trata de perder a chave.

Não se trata de não possuir recurso.

Não se trata de incapacidade de solucionar.

Ao contrário: o sujeito solucionou o problema e permanece de posse da chave.

A questão passa a ser reconhecer que não é necessário reabrir aquilo que já foi fechado.


4. O ato falho como reconhecimento tardio da conclusão

Freud considerava que as ações equivocadamente realizadas da vida cotidiana poderiam ser objeto de investigação psicanalítica justamente porque nem sempre a ação efetivamente realizada coincide perfeitamente com a intenção consciente. (Clássicos da História da Psicologia)

Nesse episódio, a intenção objetiva depois da entrega do cigarro seria dirigir-se ao balcão.

Entretanto, o movimento realizado foi outro:

balcão pretendido → armário realizado.

A interpretação proposta aqui é que esse movimento não precisa ser compreendido simplesmente como fracasso.

Ele pode ser pensado como uma repetição que permite o reconhecimento do encerramento.

O fiscal retorna ao armário e, ao chegar lá, percebe:

“Eu já fiz o que precisava fazer aqui.”

Assim, a consciência transforma o que inicialmente parece um erro em uma oportunidade de reconhecimento:

a tarefa acabou.


5. “Eu resolvi” é diferente de “foi resolvido”

Existe, nessa cena, uma questão subjetiva particularmente importante.

Há diferença entre:

“O problema foi resolvido.”

e:

“Eu resolvi o problema.”

A primeira formulação descreve o resultado.

A segunda implica apropriação subjetiva da própria capacidade de agir.

O fiscal foi quem:

  • recebeu a demanda;
  • foi buscar o produto;
  • percebeu o equívoco;
  • retornou;
  • recebeu nova orientação;
  • encontrou o produto;
  • entregou-o;
  • fechou o armário;
  • ficou com a chave.

Portanto, ele realizou a sequência inteira.

O retorno ao armário pode ser pensado, simbolicamente, como uma espécie de momento de constatação corporal:

“Não há mais nada para eu buscar porque aquilo que precisava ser encontrado já foi encontrado.”

Nesse sentido, o acontecimento pode ser compreendido como uma passagem da execução da tarefa para a apropriação da tarefa concluída.


6. Repetição e compulsão à repetição

A psicanálise possui um conceito particularmente útil para essa discussão: compulsão à repetição.

Freud desenvolveu progressivamente esse conceito, que aparece clinicamente em Recordar, repetir e elaborar e ganha elaboração metapsicológica em Além do princípio do prazer (1920). (PubMed)

É necessário, contudo, evitar uma equivalência simplista.

Uma única volta ao armário não permite diagnosticar compulsão à repetição.

O que podemos fazer é observar que a cena possui uma estrutura de repetição: uma ação já concluída é momentaneamente reproduzida.

A importância psicanalítica estaria justamente na pergunta:

O que está sendo repetido quando já não existe mais necessidade objetiva de repetir?

Neste caso, a hipótese construída é:

está sendo repetido o movimento de retornar ao lugar onde uma demanda foi solucionada.

E a repetição produz uma descoberta:

não há mais nada a buscar naquele lugar.

A repetição, portanto, não precisa terminar simplesmente na reprodução. Ela pode abrir espaço para uma elaboração: reconhecer que o ciclo terminou.


7. O armário como representação do ciclo do supermercado

A partir daqui entramos no nível propriamente simbólico da interpretação.

Se o armário for tomado como representação do circuito profissional vivido no supermercado, sua função torna-se mais ampla.

O armário é o lugar de onde se retiram objetos para responder às demandas.

Ele pode representar, metaforicamente, o espaço no qual o fiscal passa repetidamente para:

buscar → resolver → retornar → corrigir → atender → repetir.

Nesse sentido, voltar ao armário pode representar uma tentativa de retornar ao circuito conhecido.

Mas o sujeito encontra ali algo fundamental:

o ciclo já foi encerrado.

Não há mais cigarro.

Não há mais aquela demanda.

Não há mais necessidade de abrir aquela porta.

O armário está fechado.

E a chave está na mão.


8. O balcão: novas demandas ou saída do circuito?

Nas primeiras interpretações da cena, o balcão poderia representar simplesmente o lugar para onde o fiscal deveria dirigir-se depois de pegar o cigarro: o lugar de atendimento e de novas demandas.

Essa leitura permanece válida no nível concreto.

Mas, quando a cena é articulada à hipótese de encerramento de um ciclo profissional, surge uma interpretação mais profunda.

Talvez o movimento simbólico não seja simplesmente:

armário → balcão → outra demanda do supermercado.

Talvez seja:

armário → reconhecimento do encerramento → saída do circuito.

Nesse sentido, o balcão não precisa ser tomado literalmente como “o próximo lugar onde ele deve continuar trabalhando”.

Ele pode funcionar como ponto de passagem, como o lugar que representa a relação com o outro, com novas demandas e com a possibilidade de uma atividade diferente.

Isso permite deslocar a pergunta:

“Qual é a próxima demanda que preciso resolver dentro desse mesmo circuito?”

para:

“Depois de concluir esse ciclo, para onde quero dirigir a capacidade que continua comigo?”


9. A chave não precisa ser abandonada

Essa talvez seja a dimensão mais importante de toda a interpretação.

Se o supermercado representa o ciclo que está sendo encerrado, isso não significa que tudo aquilo que foi desenvolvido naquele lugar precise ser descartado.

O sujeito leva consigo a “chave”.

Em termos simbólicos, essa chave pode representar:

  • experiência;
  • capacidade operacional;
  • capacidade de resolver problemas;
  • conhecimento sobre relações humanas;
  • capacidade de atender pessoas;
  • experiência institucional;
  • capacidade de observar conflitos;
  • capacidade de lidar com demandas;
  • recursos profissionais construídos ao longo da trajetória.

Portanto:

encerrar o ciclo não significa perder a chave.

Significa deixar de utilizá-la para reabrir a mesma porta.

A experiência permanece.

A capacidade permanece.

O aprendizado permanece.

Mas o lugar de aplicação pode mudar.


10. O fiscal psicólogo e a questão da mudança de posição

Essa interpretação ganha uma dimensão particular quando pensamos no sujeito não apenas como fiscal de caixa, mas como alguém que possui formação e identidade profissional em Psicologia.

Ao longo da cena, ele ocupa uma posição muito específica:

alguém pede → ele busca → encontra → entrega → resolve.

Essa posição é funcional e necessária no trabalho.

Mas, simbolicamente, pode levantar uma questão maior:

Será que a identidade do sujeito ficou demasiadamente organizada em torno de responder às demandas que aparecem naquele lugar?

O retorno ao armário poderia então ser pensado como uma pergunta corporal:

“Ainda preciso buscar alguma coisa aqui?”

E a resposta encontrada pela própria cena seria:

“Não. Já foi encontrado.”

Essa formulação não significa que o supermercado objetivamente não tenha mais problemas ou que o sujeito não possa continuar exercendo seu trabalho. Significa que, no plano simbólico, uma determinada forma de relação com esse lugar pode estar sendo questionada.


11. Capaz de entrar, resolver, fechar e sair

É aqui que o título do artigo ganha seu sentido.

A experiência pode ser condensada em quatro verbos:

Entrar

O sujeito possui uma chave e consegue acessar o lugar necessário.

Resolver

Ele encontra aquilo que é necessário e atende à demanda.

Fechar

Ele encerra a tarefa, fecha o armário e conclui o circuito.

Sair

Ele reconhece que não precisa permanecer retornando ao mesmo lugar.

A chave permanece com ele.

Essa é uma diferença essencial.

Sair não significa sair sem recursos.

Significa sair levando consigo os recursos adquiridos.

Nesse sentido, o encerramento de um ciclo não é necessariamente uma perda. Pode representar uma mudança de destino para aquilo que foi aprendido e desenvolvido durante o ciclo.


12. O corpo como lugar de uma elaboração

A expressão utilizada ao longo da reflexão — “o corpo que fala” — pode ser compreendida aqui de maneira metafórica e psicanaliticamente cuidadosa.

Não se trata de afirmar que o corpo literalmente transmite uma mensagem verbal do inconsciente.

O que ocorre é que uma ação corporal pode tornar-se material para uma interpretação.

O sujeito retorna ao armário.

Chega ao lugar.

Percebe que não há nada mais a fazer.

Percebe que está com a chave.

Percebe que deveria estar indo para outro lugar.

Essa sequência produz uma pequena narrativa corporal:

“Eu já entrei.”
“Eu já encontrei.”
“Eu já resolvi.”
“Eu já fechei.”
“A chave está comigo.”
“Não preciso abrir novamente.”
“Posso seguir.”

Não é necessário afirmar que essa sequência constitui uma mensagem inconsciente literal. Ela pode ser compreendida como uma construção interpretativa produzida a partir da associação entre o acontecimento concreto e a história subjetiva do sujeito.


13. O encerramento como elaboração, não como fuga

Existe ainda uma diferença fundamental entre encerrar e fugir.

Fugir seria abandonar algo sem elaboração.

Encerrar, na leitura proposta, significa reconhecer:

“Isso foi vivido, executado, aprendido e concluído.”

O sujeito não precisa negar sua experiência no supermercado.

Ao contrário, pode reconhecer aquilo que ela produziu.

Ele foi capaz de:

  • entrar em situações difíceis;
  • lidar com demandas;
  • resolver problemas;
  • trabalhar sob pressão;
  • lidar com pessoas;
  • observar organizações;
  • desenvolver recursos;
  • adquirir experiência.

A questão passa a ser outra:

Esse lugar ainda é o lugar em que esses recursos precisam continuar sendo utilizados?

O armário, nesse sentido, não precisa ser destruído.

Ele simplesmente não precisa ser aberto indefinidamente.


Conclusão

A cena do cigarro, do armário e da chave pode ser compreendida, em uma leitura psicanalítica, como uma pequena dramatização da relação entre demanda, repetição, solução, encerramento e passagem.

O fiscal recebeu uma demanda, entrou no circuito de busca, encontrou o objeto, corrigiu o equívoco inicial, entregou o cigarro ao cliente, fechou o armário e ficou com a chave. Quando retornou novamente ao armário, aparentemente por automatismo, encontrou algo que já estava implícito na própria sequência: não havia mais nada para buscar ali.

Assim, aquilo que inicialmente poderia ser chamado de erro pode ser reinterpretado como uma cena na qual a repetição conduz ao reconhecimento de que a tarefa já havia sido concluída.

A chave adquire então um valor simbólico particularmente significativo. Ela representa não apenas aquilo que permite abrir, mas também aquilo que permanece com o sujeito depois que a porta é fechada. O recurso não desaparece com o encerramento do ciclo.

A partir dessa perspectiva, a questão não seria simplesmente “continuar procurando” no mesmo lugar. O problema não está na falta de capacidade para resolver. Pelo contrário: o sujeito demonstrou capacidade de entrar, encontrar, resolver e fechar.

O que resta é reconhecer a conclusão.

Freud permite pensar os atos falhos e as ações equivocadamente realizadas como fenômenos da vida cotidiana que podem merecer investigação sobre sua determinação psíquica. (Clássicos da História da Psicologia) A noção freudiana de repetição também oferece uma referência para compreender por que uma sequência anteriormente estabelecida pode reaparecer mesmo quando a situação já se modificou. (PubMed)

Entretanto, a interpretação mais importante desta cena não é afirmar dogmaticamente que “o inconsciente mandou o sujeito sair do supermercado”. Isso ultrapassaria aquilo que o episódio permite concluir.

A formulação mais rigorosa seria:

A cena pode ser tomada como uma construção simbólica na qual o sujeito retorna ao lugar da busca para reconhecer que aquilo que precisava ser encontrado já foi encontrado; retorna ao lugar da solução para descobrir que a solução já ocorreu; encontra a chave em sua própria mão e, a partir daí, pode conceber a possibilidade de não reabrir indefinidamente a mesma porta.

Nesse sentido, “capaz de entrar, resolver, fechar e sair” torna-se uma metáfora de apropriação.

Entrar significa ter coragem e recursos para enfrentar a situação.

Resolver significa reconhecer a própria capacidade de agir.

Fechar significa reconhecer que uma tarefa ou ciclo chegou ao fim.

E sair significa não confundir fidelidade ao que foi vivido com obrigação de permanecer indefinidamente no mesmo lugar.

A chave permanece.

A experiência permanece.

A capacidade permanece.

O que pode terminar é a necessidade de continuar abrindo a mesma porta.


Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana (1901). Obra dedicada, entre outros fenômenos, aos esquecimentos, equívocos, ações equivocadamente realizadas e atos sintomáticos da vida cotidiana. (Clássicos da História da Psicologia)

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). Texto fundamental para a compreensão da repetição no trabalho psicanalítico; a evolução do conceito de compulsão à repetição posteriormente alcança formulação metapsicológica em 1920. (PubMed)

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Texto central para a formulação freudiana da compulsão à repetição e para sua articulação com a teoria pulsional. (SciELO)

WINNICOTT, Donald W. Playing and Reality (1971). Obra na qual Winnicott desenvolve conceitos relacionados à criatividade, experiência subjetiva, espaço potencial e constituição do self. (OUP Academic)

CAROPRESO, Fátima; SIMANKE, Richard Theisen. “Compulsão à repetição: um retorno às origens da metapsicologia freudiana.” Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 9, n. 2, 2006. (SciELO)

PEREIRA, Douglas Rodrigo; MIGLIAVACCA, Eva Maria. “Compulsão à repetição na metapsicologia Freudiana.” Revista de Psicanálise da SPPA. O artigo discute diferentes momentos da elaboração freudiana da compulsão à repetição e sua relação com atuação, transferência e pulsão. (Revista de Psicanálise da SPPA)

 

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