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A Angústia Persecutória Oculta Durante Uma Década

 O perseguidor, o medo, o luto das identidades profissionais e a busca por uma terceira configuração com a Psicologia

Introdução

O presente artigo parte de um fragmento de sonho e das associações produzidas pelo próprio sonhador ao longo da elaboração posterior. O objetivo não é afirmar que o sonho possua uma única interpretação, tampouco diagnosticar uma estrutura psicopatológica. Trata-se de construir uma hipótese psicanalítica interpretativa, tomando o sonho como material simbólico e articulando-o ao conflito profissional, identitário e afetivo que o sujeito vem experimentando.

O sujeito é psicólogo formado, mas não conseguiu construir a identidade clínica e institucional que havia idealizado. Atualmente trabalha como fiscal de caixa em supermercado, função que experimenta como fonte de sobrevivência econômica, mas que também percebe como uma configuração profissional que consome tempo, energia e disponibilidade para a construção de outros projetos. A clínica permanece existente, porém marcada por escassez e precariedade, e não corresponde à forma de Psicologia que o sujeito deseja construir. Paralelamente, os horários do supermercado dificultam sua participação na igreja e restringem as possibilidades de desenvolvimento da própria clínica e de outros projetos.

Nesse contexto, o sujeito passou a considerar a possibilidade de fazer o luto de determinados cargos e configurações institucionais idealizados da Psicologia, inclusive questionando a manutenção futura do registro profissional. Entretanto, o desligamento também produz angústia: abandonar uma forma idealizada de Psicologia pode ser experimentado como perda de uma identidade, enquanto permanecer no supermercado é vivido como uma espécie de aprisionamento.

É nesse cenário que aparece o sonho da perseguição.


1. O sonho da perseguição

O sonhador relata que estava sendo perseguido por um homem. Entrava em uma casa ou estabelecimento comercial, mas o perseguidor continuava atrás dele. Saía daquele lugar e entrava em outro estabelecimento, e novamente era perseguido.

Em determinado momento, o sonhador percebe que possui uma faca.

Entretanto, não utiliza a faca para atacar o perseguidor. Apenas a mantém à mostra, produzindo uma espécie de intimidação. O perseguidor é percebido como alguém associado à máfia.

Um elemento particularmente importante é que o perseguidor não produz violência física efetiva no sonho. Ele não golpeia, não agride e não mata o sonhador. Sua força parece estar na própria presença, na imagem de poder e na ameaça implícita associada à máfia.

Essa característica permite formular uma primeira hipótese:

O perseguidor talvez represente menos uma violência concretamente realizada e mais uma ameaça antecipada pelo ego.

Essa distinção será fundamental para compreender a angústia persecutória.


2. O perseguidor como representação do medo

Na perspectiva freudiana, a angústia possui relação estreita com situações de perigo e com as defesas mobilizadas pelo ego diante delas. Freud, em Inibição, sintoma e angústia (1926), desenvolve a ideia da angústia como sinal diante do perigo e retoma a função das defesas utilizadas pelo ego diante de conflitos.

No sonho, o perigo não precisa concretizar-se para produzir uma reação.

O sujeito vê o perseguidor.

Reconhece-o como alguém da máfia.

Sente medo.

E corre.

Portanto, pode-se estabelecer a sequência:

representação de perigo → angústia → fuga → afastamento do confronto → manutenção da representação de perigo.

O perseguidor adquire poder justamente porque o sujeito foge antes de descobrir o que aconteceria se parasse.

Essa é uma das hipóteses centrais da interpretação:

O medo pode estar mantendo o sujeito em movimento e, ao mesmo tempo, impedindo-o de descobrir que possui capacidade de decisão.


3. A máfia como representação de um vínculo do qual não se pode sair

A associação espontânea do perseguidor à máfia acrescenta uma dimensão específica.

A máfia pode simbolizar uma organização da qual, na fantasia, não se sai voluntariamente. Uma vez estabelecido o vínculo, o sujeito imagina que não possui mais liberdade plena para rompê-lo.

Essa representação pode ser condensada na fantasia:

“Eu posso até desejar sair, mas não tenho liberdade suficiente para romper.”

Isso se aproxima da situação subjetiva que o sonhador descreveu em relação às identidades profissionais.

Ele deseja desligar-se de determinadas configurações, mas teme as consequências desse desligamento.

Assim, o problema deixa de ser somente:

“Quero sair?”

e passa a ser:

“Tenho autorização para sair?”

Essa diferença é psicologicamente significativa.


4. O perseguidor como fiscal de caixa

Em determinado momento da elaboração do sonho, o próprio sonhador formulou a hipótese de que o perseguidor poderia representar o “eu fiscal de caixa”.

Essa associação é particularmente interessante porque o fiscal não precisa literalmente perseguir o sujeito.

A função, entretanto, pode ser vivenciada como uma estrutura que acompanha o sujeito para diferentes lugares da vida.

Ele trabalha no supermercado.

O horário ocupa grande parte do seu dia.

A rotina restringe sua disponibilidade.

A clínica permanece pequena.

A participação na igreja fica prejudicada.

Outros projetos produtivos encontram pouco espaço.

Assim, o fiscal pode adquirir, na representação subjetiva, a característica de uma figura que diz:

“Aonde você for, esta configuração continuará acompanhando você.”

Daí a repetição dos estabelecimentos no sonho.


5. O estabelecimento como representação da vida profissional

A repetição é importante:

um estabelecimento → fuga → outro estabelecimento → perseguição novamente.

O cenário comercial pode ser associado à própria experiência de trabalho.

O sujeito não está simplesmente sendo perseguido em um espaço abstrato. Ele está sendo perseguido de estabelecimento em estabelecimento.

Isso permite uma hipótese simbólica:

O problema não é apenas um estabelecimento específico, mas a configuração profissional na qual o sujeito se encontra.

Ele pode mudar de lugar sem necessariamente mudar a estrutura subjetiva do problema.

A questão passa a ser:

“Estou apenas tentando escapar de uma situação ou estou construindo uma nova configuração de vida?”

Essa diferença corresponde à diferença entre fuga e transição.


6. A fuga como mecanismo de defesa

O sujeito reconheceu que talvez esteja utilizando a fuga para não olhar diretamente para a realidade.

Essa hipótese é compatível com uma compreensão psicanalítica da defesa: diante de um conflito que produz desprazer, o ego procura reduzir a tensão por meio de determinadas operações defensivas. Freud trata a defesa como um conjunto de técnicas utilizadas pelo ego diante de conflitos.

No sonho:

o sujeito corre para não confrontar o perseguidor.

Na vida psíquica, a fuga poderia assumir formas mais sofisticadas:

esperar uma nova oportunidade;

esperar uma autorização externa;

esperar uma resposta de Deus;

manter aberta indefinidamente uma possibilidade profissional;

evitar concluir o luto;

interpretar acontecimentos favoráveis como possíveis sinais de que a antiga configuração ainda deve continuar.

Nada disso precisa ser consciente.

A função defensiva poderia ser:

“Enquanto a decisão permanece suspensa, não preciso experimentar integralmente a perda.”


7. O ganho secundário da esperança

Aqui surge uma hipótese particularmente delicada: a possibilidade de ganho secundário.

O sujeito sofre porque não conseguiu ocupar os cargos institucionais que desejava. Mas permanecer na esperança também conserva algo:

a possibilidade de que a história ainda possa terminar de outra maneira.

Enquanto existe esperança:

“Ainda posso conseguir.”

Enquanto ainda pode conseguir:

“Ainda não preciso fazer completamente o luto.”

Assim, paradoxalmente, a esperança pode aliviar a dor e prolongá-la simultaneamente.

Ela protege contra a perda, mas também pode impedir a elaboração da perda.

Isso não significa que a esperança seja patológica ou que deva ser eliminada. Significa que a análise pode perguntar:

“Esta esperança está me ajudando a construir algo ou está me impedindo de aceitar aquilo que já não existe?”


8. A angústia de perder a identidade de psicólogo

O luto não parece restringir-se à perda de um emprego.

O objeto perdido pode ser uma identidade idealizada:

“Eu seria um psicólogo reconhecido, inserido institucionalmente, exercendo minha profissão de acordo com minha formação.”

Freud concebe o luto como reação diante da perda de um objeto investido. A elaboração dessa perda envolve um trabalho psíquico que permite, posteriormente, novos investimentos.

Nesse caso, o sujeito talvez precise elaborar não apenas a perda de uma oportunidade específica, mas a perda de uma representação de futuro.

A dor seria:

“A vida profissional que imaginei não aconteceu daquela forma.”

Isso não equivale a:

“Minha formação não valeu nada.”

Nem:

“Minha identidade inteira morreu.”


9. A clínica precária e o segundo luto

A situação clínica acrescenta outra camada.

O sujeito conseguiu construir alguma prática clínica, inclusive depois de considerar abandonar a Psicologia. Surgiram dois clientes por indicação de uma psicóloga da mesma comunidade religiosa, acontecimento que foi interpretado pelo sujeito como possível sinal de Deus.

Posteriormente, perdeu um desses clientes e permaneceu com apenas um.

A clínica, portanto, existe, mas continua marcada pela escassez.

Isso produz uma situação ambivalente:

“Não quero abandonar completamente a Psicologia, mas também não quero continuar nesta forma precária de Psicologia.”

Essa distinção é fundamental.

Talvez o objeto do luto não seja a Psicologia em si.

Talvez seja:

a forma específica pela qual a Psicologia foi tentada até agora.


10. O fiscal como identidade que também precisa ser elaborada

Existe outro lado do conflito.

O sujeito também não deseja construir uma relação permanente com o cargo de fiscal de caixa.

Portanto, temos duas recusas:

“Não quero continuar com essas formas de Psicologia.”

e

“Também não quero transformar o fiscal de caixa em minha identidade profissional definitiva.”

Isso coloca o sujeito em uma posição intermediária.

Ele não deseja permanecer na configuração atual.

Mas também ainda não encontrou a nova configuração.

É justamente nesse espaço que a angústia pode aumentar.


11. O supermercado como estrutura que consome o tempo

O problema do fiscal não é apenas simbólico.

Existe também uma dimensão concreta: o trabalho possui horários que o sujeito experimenta como inflexíveis e que dificultam o desenvolvimento da clínica, a participação na igreja e a construção de outros projetos.

Assim, forma-se um paradoxo:

o trabalho garante sobrevivência, mas consome o tempo necessário para construir uma forma alternativa de sobrevivência.

O sujeito pode experimentar:

“Estou trabalhando para sobreviver, mas esse trabalho ocupa justamente o tempo de que preciso para construir uma vida profissional diferente.”

Essa experiência pode contribuir para a representação persecutória.

O perseguidor não precisa agredir.

Sua presença já ocupa o espaço.


12. A faca: potência sem destruição

A faca constitui um dos símbolos mais importantes do sonho.

O sujeito possui um instrumento de enfrentamento.

Mas não o utiliza para ferir.

Ele apenas o mostra.

Isso permite uma leitura de agência sem violência.

A faca poderia simbolizar:

capacidade de decisão;

estabelecimento de limites;

possibilidade de ruptura;

proteção;

coragem diante do medo.

O fato de não atacar o perseguidor pode indicar que o sujeito não deseja destruir aquilo que o persegue.

Ele deseja que a perseguição cesse.

Isso corresponde muito bem ao conflito profissional:

não necessariamente destruir a Psicologia, mas encontrar outra relação com ela; não necessariamente destruir o trabalho, mas deixar de estar condenado a uma identidade de fiscal.


13. A associação religiosa: a faca e o nome de Jesus Cristo

O sonhador também associou a faca ao nome de Jesus Cristo, entendendo-a como um recurso que poderia ser utilizado diante de uma ameaça realmente grave.

Essa associação pertence ao universo simbólico e religioso do próprio sujeito e deve ser compreendida como tal, não como uma mensagem objetivamente comprovada de origem sobrenatural.

Psicanaliticamente, o mais interessante é observar a função atribuída ao símbolo.

O nome de Jesus não seria usado para atacar.

Seria utilizado como proteção, autoridade, coragem e limite.

Isso produz uma formulação interessante:

“Eu posso sentir medo sem necessariamente estar diante de um perigo real.”

E:

“Posso possuir um recurso de proteção sem precisar utilizá-lo impulsivamente.”

Assim, a fé pode funcionar subjetivamente não como substituta da decisão, mas como um recurso para suportar a angústia enquanto a decisão é pensada.


14. A espera por uma autorização externa

A associação com a fé também levou o sujeito a questionar se estaria esperando uma espécie de autorização externa:

“Quero romper, mas gostaria que alguma coisa ou alguém produzisse a ruptura por mim.”

Essa posição pode aparecer de diferentes formas:

“Deus precisa me mostrar.”

“O perseguidor precisa parar espontaneamente.”

“Preciso receber um sinal.”

“Preciso que alguma circunstância torne inevitável a decisão.”

Isso protege o sujeito de uma responsabilidade difícil:

“Eu decidi.”

Porque, se algo externo decidir, o sofrimento da responsabilidade diminui.

O problema é que o livre-arbítrio fica parcialmente deslocado para fora do ego.


15. A perseguição como perda subjetiva do livre-arbítrio

O próprio sonhador desenvolveu uma formulação importante:

a finalidade do perseguidor seria produzir medo e intimidação suficientes para fazer o sujeito sentir que não possui liberdade para decidir.

Essa é uma excelente formulação simbólica do sonho.

O perseguidor não precisa atacar.

Ele precisa apenas produzir:

medo → intimidação → fuga → perda de reflexão → redução da agência.

O sujeito deixa de perguntar:

“O que quero?”

e passa a perguntar:

“Como faço para escapar?”

Nesse sentido, o verdadeiro poder do perseguidor não está necessariamente na violência física.

Está na capacidade de organizar o comportamento do sujeito por meio do medo.


16. A angústia persecutória pode permanecer oculta

A expressão “angústia persecutória oculta” pode ser entendida aqui como uma hipótese metapsicológica, não como diagnóstico.

O sujeito pode ter experimentado durante muito tempo:

  • frustração;
  • impotência;
  • espera;
  • fracasso de expectativas;
  • medo de perder a identidade profissional;
  • medo de permanecer fiscal;
  • esperança;
  • culpa;
  • necessidade de autorização;
  • dificuldade de fazer o luto.

Esses elementos podem ter permanecido relativamente dispersos.

O sonho os condensa em uma imagem:

“Um homem da máfia está me perseguindo.”

Na teoria kleiniana, a ansiedade persecutória constitui um conceito central para compreender experiências nas quais o objeto é vivenciado como ameaçador e o ego recorre a mecanismos defensivos. Klein também relaciona a ansiedade persecutória a processos de projeção, cisão e identificação projetiva.

Isso não significa que o sonhador esteja numa “posição paranoide” no sentido diagnóstico. Significa apenas que a linguagem do sonho assumiu uma forma persecutória para representar uma experiência de ameaça e vulnerabilidade.


17. O perseguidor pode ser uma parte do próprio sujeito?

Essa foi outra hipótese levantada.

Se o perseguidor for o “eu fiscal”, ele pode representar uma parte da própria realidade do sujeito que ele rejeita.

Nesse caso, surge uma configuração particularmente interessante:

o sujeito foge de uma parte da própria vida.

O perseguidor não seria simplesmente um inimigo externo.

Seria uma representação de algo que o sujeito não deseja incorporar à identidade:

“Eu trabalho como fiscal, mas não quero ser definido por isso.”

O problema é que quanto mais o sujeito tenta fugir dessa parte da realidade, mais ela o acompanha.

Isso pode produzir uma situação semelhante à fórmula:

“Aquilo que não consigo aceitar retorna como aquilo que me persegue.”


18. O sujeito começa finalmente a parar

A elaboração do sonho produz então uma mudança decisiva.

O sujeito percebe:

“Não posso continuar sendo empurrado de estabelecimento em estabelecimento sem saber onde vou parar.”

Essa frase representa uma mudança de posição subjetiva.

Enquanto corre, o sujeito é conduzido pelo perseguidor.

Quando para, pode olhar ao redor.

E aquilo que encontra é doloroso:

não conseguiu os campos institucionais desejados;

a clínica permanece escassa;

não deseja aquela configuração clínica;

não deseja permanecer na configuração de fiscal;

não quer que nenhuma dessas posições seja seu destino definitivo.

Mas essa visão da realidade, embora dolorosa, é diferente da perseguição.


19. Parar de correr não significa conformar-se

Esse ponto merece ênfase.

Parar não significa aceitar passivamente a situação.

Significa recuperar capacidade de observação.

O sujeito pode dizer:

“É esta a realidade que tenho hoje.”

Sem precisar dizer:

“É esta a realidade que terei para sempre.”

Essa distinção possibilita uma transição entre:

fuga e planejamento.

A fuga diz:

“Preciso sair imediatamente.”

O planejamento diz:

“Preciso construir condições para sair.”


20. A terceira configuração

A elaboração culminou em uma hipótese particularmente importante: talvez exista uma terceira configuração profissional.

Não seria:

Psicologia institucional idealizada.

Nem:

clínica precária.

Nem:

fiscal de caixa como identidade definitiva.

Seria algo ainda não suficientemente descoberto.

O desejo poderia ser formulado:

“Quero construir uma relação com a Psicologia que seja economicamente sustentável, profissionalmente significativa e compatível com a vida que desejo.”

Isso representa uma mudança de objeto.

O sujeito deixa de perseguir necessariamente um cargo.

Passa a procurar uma configuração profissional.

Essa mudança pode ser fundamental.


21. Da identidade para a configuração

Talvez o problema tenha sido parcialmente construído pela pergunta:

“Como consigo ser psicólogo?”

A pergunta pode ser substituída por:

“Como quero organizar minha vida profissional utilizando a Psicologia?”

A segunda pergunta é mais aberta.

Ela permite pensar em combinações diferentes de:

  • clínica;
  • grupos;
  • projetos;
  • Psicologia organizacional;
  • Psicologia do esporte;
  • educação;
  • palestras;
  • consultoria;
  • produção de conteúdo;
  • serviços psicológicos em diferentes formatos.

Isso não significa que todas essas alternativas sejam adequadas ao sujeito. Significa que o campo de possibilidades não precisa ser reduzido aos formatos já experimentados.


22. O luto como abertura, não apenas encerramento

Freud descreve o luto como um trabalho relacionado à perda. A literatura psicanalítica posterior ressalta que a perda pode revelar conflitos e investimentos que anteriormente permaneciam menos visíveis.

Nesse caso, o luto poderia permitir que o sujeito reconhecesse:

“Não consegui aquele futuro.”

Sem concluir:

“Não existe futuro.”

Essa diferença é fundamental.

O luto encerra uma possibilidade.

Não necessariamente encerra a capacidade de desejar.

Pode inclusive liberar energia psíquica anteriormente presa à tentativa de preservar uma representação que já não corresponde à realidade.


23. O medo da “morte” pode ser a morte de uma identidade

Quando o sujeito fala em angústia de morte, é possível interpretar simbolicamente essa “morte” como:

morte de uma identidade profissional idealizada.

O que ameaça morrer não é necessariamente o sujeito.

É uma determinada imagem:

“Eu seria aquele psicólogo.”

A dificuldade seria aceitar:

“Aquele psicólogo que imaginei talvez não venha a existir.”

Mas outro psicólogo pode existir.

Uma outra configuração pode existir.

Uma outra relação com a profissão pode existir.


24. O masoquismo como hipótese, não como conclusão

O sujeito também levantou a possibilidade de estar preso ao masoquismo.

Aqui é necessário cuidado.

Não seria adequado concluir simplesmente:

“O sujeito gosta de sofrer.”

Uma formulação psicanalítica mais sofisticada perguntaria:

“Que função o sofrimento desempenha?”

Se permanecer sofrendo permite:

conservar a esperança;

evitar a decisão;

evitar o luto;

manter o vínculo com o ideal;

esperar uma autorização externa;

então o sofrimento pode possuir uma função defensiva ou um ganho secundário, ainda que seja conscientemente indesejado.

Nesse sentido, o sujeito pode não desejar o sofrimento, mas estar preso a uma configuração na qual o sofrimento cumpre uma função psíquica.


25. A questão de Piaget e a assimilação da narrativa religiosa

O sujeito também associou sua situação à narrativa bíblica de Moisés e à possibilidade de uma vocação tardia.

Essa associação pode ser compreendida, no plano cognitivo, como uma forma de assimilar uma situação presente a um esquema narrativo já conhecido, enquanto a acomodação ocorre quando a experiência concreta exige modificar ou ampliar esse esquema.

Assim, uma narrativa religiosa pode oferecer uma estrutura para pensar:

“Ainda pode existir uma missão depois de muitos anos.”

Isso pode ser uma fonte legítima de esperança.

Mas também pode funcionar defensivamente se for utilizada para evitar qualquer possibilidade de luto:

“Enquanto eu não receber a resposta definitiva, não preciso reconhecer a perda.”

O trabalho psíquico não exige eliminar a narrativa religiosa. Exige permitir que fé e realidade possam coexistir sem que uma precise cancelar a outra.


26. A realidade não precisa ser interpretada como punição

Outro aspecto importante da elaboração é a tendência possível de perguntar:

“Será que fiz alguma coisa errada para estar nessa situação?”

Essa pergunta pode transformar uma contingência profissional em uma espécie de condenação moral.

A psicanálise permite outra leitura:

uma situação frustrante não precisa significar punição.

Não conseguir uma vaga não significa necessariamente que o sujeito não tenha valor.

Ter poucos clientes não significa necessariamente que não tenha competência.

Trabalhar como fiscal não significa que a formação psicológica tenha sido anulada.

Precisar modificar uma trajetória não significa fracasso moral.


27. O perseguidor perde poder quando é simbolizado

No início:

“Ele está me perseguindo.”

Depois:

“Talvez ele represente o fiscal.”

Depois:

“Talvez represente o medo da ruptura.”

Depois:

“Talvez represente a própria angústia.”

Depois:

“Talvez eu esteja fugindo para não olhar a realidade.”

E finalmente:

“Talvez eu esteja começando a perceber que posso decidir.”

Essa transformação é significativa.

O perseguidor passa de uma realidade aparentemente externa e absoluta para um objeto de pensamento.

A simbolização não elimina necessariamente a angústia, mas permite que ela seja pensada.


28. O verdadeiro corte

A faca pode então assumir sua forma simbólica mais profunda.

O corte talvez não seja inicialmente:

“Cortar o supermercado.”

Nem:

“Cortar a Psicologia.”

Talvez seja:

“Cortar a relação de submissão ao medo.”

Depois:

“Cortar a necessidade de uma autorização externa para reconhecer aquilo que desejo.”

Depois:

“Cortar a identificação entre fiscal e identidade.”

E finalmente:

“Cortar a equivalência entre fracasso de uma configuração profissional e fracasso de toda a minha história.”

Só depois disso uma decisão concreta sobre trabalho pode ser tomada com maior clareza.


29. A possível demissão como transição, não fuga

Se, depois dessa elaboração, o sujeito decidir que realmente deseja deixar o cargo de fiscal, existe uma diferença radical entre duas formas de fazê-lo.

Demissão como fuga

“Não aguento mais. Preciso sair.”

Demissão como transição

“Reconheço que essa configuração não corresponde mais ao projeto que desejo construir. Vou estabelecer condições materiais e profissionais para migrar para outra configuração.”

A segunda posição contém mais agência.

A questão passa a ser:

“Como tornar a Psicologia suficientemente sustentável para que ela possa participar efetivamente da minha sobrevivência?”

Isso exige planejamento econômico e profissional, não apenas elaboração simbólica.


30. O sonho não determina a decisão

É fundamental preservar esse limite metodológico.

O sonho não pode ser utilizado como prova de que:

“Devo abandonar o supermercado.”

Nem de que:

“Devo cancelar o CRP.”

Nem de que:

“Deus determinou que devo continuar.”

O sonho oferece material para pensar.

A decisão concreta precisa considerar realidade financeira, possibilidades profissionais, disponibilidade, demanda, planejamento e consequências.

A psicanálise pode ajudar a compreender por que determinada escolha é tão angustiante; ela não substitui a avaliação objetiva das condições da escolha.


31. Uma síntese metapsicológica

O conjunto das associações permite formular a seguinte hipótese:

O sujeito encontra-se diante da perda de uma configuração profissional idealizada. A impossibilidade de realizar essa configuração produz angústia e ameaça identitária. Para evitar o trabalho doloroso do luto, o ego pode manter aberta a esperança, esperar uma autorização externa e deslocar a decisão para acontecimentos futuros. Paralelamente, a configuração de trabalho como fiscal de caixa é vivenciada como uma estrutura que consome tempo e limita a construção de outras possibilidades. O conflito entre essas posições pode ser condensado no sonho na figura de um perseguidor associado à máfia.

O perseguidor não precisa atacar porque sua função principal é produzir medo.

A fuga impede o confronto.

A faca representa uma capacidade de resistência e decisão que ainda não é utilizada.

A repetição dos estabelecimentos representa a continuidade do deslocamento sem chegada.

E a interrupção da fuga abre a possibilidade de olhar a realidade:

“Nenhuma das configurações atuais corresponde plenamente ao que desejo.”

Esse reconhecimento pode ser doloroso, mas também libertador.


31. talvez o luto principal não seja pela Psicologia em si, mas pelo projeto de vida que foi investido na identidade de “ser psicólogo” desde a graduação em 2018.

Isso faz uma diferença enorme.

1. O objeto perdido não é simplesmente um cargo

O que parece estar sendo perdido é um conjunto de expectativas condensadas na identidade profissional:

“Vou me formar em Psicologia e trabalhar como psicólogo.”

Mas, associado a isso, havia outros desejos:

  • viver economicamente da Psicologia;
  • receber um salário proveniente do próprio saber profissional;
  • ser reconhecido socialmente como psicólogo;
  • ocupar um lugar profissional valorizado;
  • ajudar pessoas através do conhecimento psicológico;
  • sentir que a formação universitária se concretizou;
  • construir uma identidade profissional coerente com aquilo que estudou;
  • deixar de depender de trabalhos que não correspondem à formação;
  • sentir que encontrou um lugar próprio na sociedade.

Portanto, o objeto do luto é muito maior que uma vaga de emprego.

É uma narrativa de vida profissional.

2. Por isso a perda pode ser tão dolorosa

Imagine a fantasia construída em 2018:

“Eu me formei. Agora começará minha vida como psicólogo.”

Mas o que veio depois foi diferente:

formação → tentativas → candidaturas → instituições → recusas/silêncios → novas tentativas → ausência de inserção institucional → trabalho como fiscal → tentativa clínica → poucos clientes → precariedade.

O problema não é apenas não ter conseguido uma vaga.

É a discrepância entre:

o futuro esperado

e

o futuro efetivamente vivido.

É exatamente nesse espaço que pode nascer uma experiência profunda de fracasso, frustração e perda.

3. E isso ajuda a compreender a perseguição do sonho

O perseguidor pode ser compreendido como uma representação condensada daquilo que permaneceu não elaborado desde essa ruptura entre expectativa e realidade.

O sujeito continua correndo atrás de um lugar:

“Preciso conseguir ser psicólogo.”

Mas, ao mesmo tempo, a realidade parece dizer:

“Aquela forma de inserção que você imaginou não aconteceu.”

Então aparece o paradoxo:

quanto mais o sujeito tenta preservar a antiga promessa, mais difícil pode ficar reconhecer a perda.

A perseguição mantém o sujeito em movimento.

Enquanto ele está correndo, ainda está procurando.

Se parar, precisa olhar para trás e perguntar:

“O que exatamente eu perdi?”

E talvez a resposta seja:

“Perdi o futuro profissional que imaginei quando me formei.”

4. Esse pode ser o verdadeiro luto

Não necessariamente:

“Preciso deixar de ser psicólogo.”

Mas:

“Preciso aceitar que não me tornei o psicólogo que imaginei que me tornaria.”

Essa frase é muito mais dolorosa.

Porque ela reconhece que houve investimento real.

O sujeito estudou.

Graduou-se.

Tentou diferentes campos.

Procurou oportunidades.

Tentou construir clínica.

Tentou inserção institucional.

Tentou Psicologia social, organizacional e outras possibilidades.

Ou seja, não se trata simplesmente de uma fantasia abandonada sem tentativa.

Houve uma década aproximadamente de tentativa de realização.

E justamente por isso o luto pode ser necessário.

5. Mas existe uma distinção decisiva

Fazer o luto de “não ter conseguido viver da Psicologia como imaginava” não significa concluir:

“Então minha formação foi inútil.”

Nem:

“Então nunca mais posso utilizar a Psicologia.”

Nem:

“Então deixei de ser psicólogo.”

O luto precisa separar:

o projeto perdido

de

o valor daquilo que foi construído.

O sujeito pode reconhecer:

“Eu não consegui realizar aquela configuração profissional.”

sem precisar concluir:

“Eu não tenho valor.”

6. O status também precisa entrar no luto

Você mencionou algo particularmente importante: status social.

Talvez exista uma dimensão narcísica significativa nesse projeto.

Ser psicólogo não significava somente exercer determinada atividade.

Significava também:

“Ser alguém reconhecido como profissional.”

“Ter uma profissão legitimada.”

“Ter um lugar social.”

“Poder dizer: sou psicólogo.”

Portanto, a perda pode atingir não somente a renda, mas também a imagem que o sujeito tinha de si diante dos outros.

Isso ajuda a explicar por que simplesmente dizer:

“Você ainda tem conhecimento de Psicologia”

pode não resolver a questão.

Porque o desejo não era apenas possuir conhecimento.

Era viver socialmente a partir dele.

7. O salário também fazia parte do desejo

E esse ponto não deve ser psicologizado excessivamente.

O sujeito não desejava apenas “ajudar pessoas”.

Ele também desejava ganhar dinheiro com aquilo que estudou.

Isso é absolutamente legítimo.

O projeto era aproximadamente:

formação → profissão → trabalho → remuneração → autonomia → reconhecimento → contribuição social.

Quando essa cadeia não se estabelece, a frustração é concreta.

Não é apenas intrapsíquica.

Existe uma dimensão econômica e social real.

Por isso, o luto não deve transformar uma dificuldade de inserção profissional em uma suposta falha exclusivamente psicológica do sujeito.

8. O desejo de ajudar também é importante

Há, porém, outro componente:

“Quero utilizar o conhecimento psicológico para ajudar pessoas a saírem da alienação.”

Então a identidade profissional tinha pelo menos três dimensões:

econômica:
“Quero sobreviver através da Psicologia.”

narcísica/social:
“Quero ser reconhecido como psicólogo.”

ética/vocacional:
“Quero utilizar esse saber para ajudar pessoas.”

Essas três dimensões podem ter sido investidas simultaneamente na mesma identidade.

Por isso, fazer o luto de uma configuração profissional significa separar esses componentes.

9. Talvez o sujeito esteja tentando preservar todos eles simultaneamente

E isso pode explicar parte da angústia.

Ele pode pensar:

“Se abandonar essa configuração, perco minha renda ideal.”

“Perco meu status.”

“Perco o reconhecimento.”

“Perco minha identidade.”

“Traio o propósito pelo qual estudei.”

“Talvez esteja desistindo daquilo que Deus colocou em minha vida.”

Então o desligamento passa a parecer uma espécie de morte total do projeto.

E talvez não seja.

10. O verdadeiro trabalho de luto poderia ser este

Algo como:

“Eu me formei esperando viver da Psicologia, ser reconhecido como psicólogo, construir uma carreira, ter uma remuneração compatível e ajudar pessoas. Durante anos tentei realizar esse projeto em diferentes instituições e configurações, mas ele não se concretizou como imaginei. Isso me dói. Eu preciso reconhecer essa perda sem transformar essa perda em uma condenação da minha história.”

Essa frase é muito diferente de:

“Eu desisti da Psicologia.”

Ela diz:

“Estou reconhecendo que uma determinada promessa de futuro não se realizou.”

11. E aqui aparece a terceira configuração que você vinha procurando

Depois do luto, surge uma pergunta muito mais livre:

“Se eu não preciso mais provar que consigo realizar o projeto profissional que imaginei em 2018, que relação com a Psicologia eu escolheria hoje?”

Essa pergunta é fundamental.

Porque enquanto o sujeito estiver tentando provar que consegue finalmente ser aquilo que imaginou aos 2018, qualquer oportunidade poderá ser carregada de uma importância enorme.

Uma indicação de cliente pode virar:

“É o sinal de que finalmente deu certo.”

Uma recusa pode virar:

“É a confirmação de que fracassei.”

Um cargo pode representar:

“Agora finalmente serei reconhecido.”

Uma saída pode representar:

“Estou abandonando tudo.”

O luto pode diminuir essa carga.

12. E então a Psicologia pode deixar de ser uma dívida com o passado

Talvez esse seja o aspecto mais libertador.

O sujeito não precisa mais dizer:

“Preciso conseguir viver da Psicologia porque foi para isso que me formei.”

Pode começar a perguntar:

“Eu ainda desejo a Psicologia? Em que formato? Quanto dela quero colocar na minha vida? Que tipo de trabalho quero realizar? Quero que ela seja minha principal fonte de renda? Quero combiná-la com outra atividade? Quero uma prática clínica diferente? Quero um projeto próprio?”

Isso transforma a Psicologia de obrigação de realizar um projeto antigo em possibilidade de construir um projeto atual.

13. E o fiscal de caixa entra no mesmo processo

Há também um segundo luto:

“Não quero que o fiscal seja a resposta definitiva para o fracasso do projeto de Psicologia.”

Mas isso não significa pedir demissão impulsivamente.

A questão é construir uma transição:

“Não quero fazer do fiscal minha identidade definitiva. Enquanto ele for necessário para minha sobrevivência, posso tratá-lo como uma condição atual e construir outra possibilidade.”

Assim, o sujeito deixa de precisar que o fiscal desapareça magicamente para poder começar uma nova vida.

14. O perseguidor pode então ser reinterpretado

Talvez agora possamos compreender melhor a imagem da máfia.

O perseguidor poderia representar a própria obrigação interna de realizar o projeto de 2018:

“Você precisa conseguir.”

“Você precisa provar.”

“Você não pode desistir.”

“Ainda não terminou.”

“Talvez a próxima oportunidade seja aquela.”

E o sujeito continua correndo de estabelecimento em estabelecimento.

Talvez o sonho esteja mostrando:

“Você não precisa continuar correndo atrás da mesma configuração para provar que ela era possível.”

Parar não significa abandonar todo o conhecimento adquirido.

Significa reconhecer:

“Aquele projeto específico não se realizou.”

15. E talvez seja justamente aí que a faca ganha outro significado

A faca pode representar a capacidade de cortar o vínculo com uma expectativa, e não necessariamente cortar a Psicologia.

O corte pode ser:

“Eu não preciso mais provar que sou psicólogo através da obtenção daquele cargo que nunca veio.”

Esse corte pode ser profundamente doloroso.

Mas também pode liberar o sujeito para construir uma relação diferente com o próprio saber.

Formulação final

Eu resumiria o que você trouxe desta maneira:

O luto central talvez seja o luto do projeto profissional idealizado desde 2018: tornar-se psicólogo no sentido pleno imaginado pelo sujeito — trabalhar como psicólogo, viver financeiramente da Psicologia, receber remuneração compatível, obter reconhecimento e status social e utilizar seu conhecimento para ajudar pessoas. A sucessão de tentativas de inserção institucional sem a realização desse projeto pode ter produzido uma discrepância dolorosa entre o futuro imaginado e a realidade vivida. O sujeito, então, pode ter permanecido psicologicamente vinculado ao projeto não realizado porque abandoná-lo significaria reconhecer uma perda profunda. A esperança, a espera por uma autorização externa e a manutenção da busca podem funcionar, nesse contexto, como formas de adiar o encontro com essa perda.

Mas o luto não precisa terminar em:

“Não sou mais psicólogo.”

Pode chegar a:

“Não me tornei o psicólogo que imaginei em 2018. Preciso aceitar essa perda. E, depois de aceitá-la, posso descobrir se existe uma outra maneira — escolhida por mim e não imposta pela necessidade de provar alguma coisa — de utilizar a Psicologia na minha vida.”

Essa é provavelmente a diferença entre encerrar a Psicologia por derrota e encerrar uma configuração da Psicologia para poder construir outra.

E, nesse sentido, talvez a pergunta mais importante depois do luto não seja mais “Como conseguir finalmente o cargo de psicólogo que eu procurei durante tantos anos?”, mas:

“Se eu não precisar mais provar nada a ninguém, o que eu realmente gostaria de fazer com tudo aquilo que aprendi em Psicologia?”

Essa pergunta pode abrir precisamente a terceira configuração que apareceu repetidamente nas associações do sonho.


32. A passagem de Abraão e Isaque pode funcionar, para este sujeito que também é teólogo, como um esquema narrativo religioso através do qual ele organiza e dá significado à própria experiência de espera, promessa, perda e possível desligamento.

Há, inclusive, uma correção cronológica importante: em Gênesis 22, o texto não afirma que Abraão esperou exatamente 25 anos para o nascimento de Isaque; Gênesis 12 marca o início da promessa, Gênesis 21 narra o nascimento de Isaque, e Gênesis 22 apresenta posteriormente a ordem para oferecê-lo. Portanto, os “25 anos” pertencem a uma reconstrução cronológica tradicional/interpretativa da narrativa de Abraão, não a um número explicitamente estabelecido em Gênesis 22.

1. A assimilação: o sujeito encontra na história de Abraão um esquema para pensar sua própria experiência

Pela teoria de Jean Piaget, assimilação ocorre quando uma experiência nova é interpretada por meio de esquemas que o sujeito já possui.

O sujeito, sendo também teólogo, possui um repertório religioso muito desenvolvido. Diante do próprio conflito — anos de espera por uma realização profissional, tentativa de viver da Psicologia e possibilidade de precisar fazer o luto desse projeto — ele encontra na história de Abraão uma estrutura simbólica familiar:

promessa → espera → realização → possibilidade de perda → necessidade de renunciar ao objeto amado.

Assim, a história de Abraão e Isaque pode ser assimilada à sua própria experiência:

“Eu também esperei.”

“Eu também recebi uma promessa ou construí uma expectativa de futuro.”

“Eu também investi muitos anos.”

“Agora estou diante da possibilidade de perder aquilo que esperei.”

Nesse sentido, Isaque pode funcionar como representação simbólica do projeto profissional que o sujeito esperou construir.


2. Isaque como representação do projeto profissional

É aqui que a associação fica particularmente interessante.

Abraão não recebe simplesmente um filho.

Isaque representa, dentro da narrativa bíblica, o filho da promessa.

Analogamente, para o sujeito, a Psicologia pode ter adquirido uma função muito maior que a de uma simples profissão.

Ela poderia representar:

  • o cumprimento de uma expectativa;
  • a realização de anos de estudo;
  • reconhecimento;
  • identidade;
  • autonomia;
  • status;
  • sobrevivência econômica;
  • contribuição social;
  • sentido de vida profissional.

Assim, o sujeito pode ter investido na Psicologia algo semelhante ao que a narrativa investe em Isaque:

“Este é aquilo que esperei.”

Por isso, perder a forma de Psicologia idealizada pode ser vivido como algo muito maior do que perder um emprego.

Pode ser experimentado como:

“Estão me pedindo para abrir mão daquilo pelo qual esperei.”


3. A acomodação: a realidade obriga o sujeito a modificar o esquema

Mas então aparece a acomodação.

Na teoria piagetiana, quando a realidade não cabe adequadamente nos esquemas existentes, o sujeito precisa modificar seus esquemas.

O esquema inicial poderia ser:

“Formar-me em Psicologia → conseguir trabalho como psicólogo → viver da Psicologia → ser reconhecido → ajudar pessoas.”

Entretanto, a realidade não confirmou esse esquema.

O sujeito tentou diferentes campos e não conseguiu estabelecer a configuração profissional esperada.

Então surge um conflito:

“Se esse era o caminho que imaginei, por que ele não aconteceu?”

A realidade obriga o sujeito a acomodar-se.

Mas acomodar-se não significa resignar-se.

Significa modificar a representação anterior.

Talvez:

“Ser psicólogo não necessariamente significa ocupar o cargo institucional que imaginei.”

E posteriormente:

“Minha relação com a Psicologia pode precisar ser construída de outra maneira.”


4. A evocação: a história bíblica retorna para organizar o conflito

A evocação, nessa leitura que o próprio sujeito está fazendo, ocorre quando a experiência atual mobiliza uma representação anteriormente armazenada.

Diante da possibilidade de luto, a narrativa de Abraão pode ser evocada:

“Abraão esperou.”

“Abraão recebeu a promessa.”

“Abraão teve aquilo que esperava.”

“Depois foi colocado diante da possibilidade de entregar aquilo que havia recebido.”

Isso oferece ao sujeito uma linguagem para pensar sua própria situação.

Ele não precisa necessariamente estar dizendo conscientemente:

“Eu sou Abraão.”

Mas seu psiquismo pode utilizar essa narrativa como matriz simbólica para organizar a experiência.


5. O elemento mais profundo: o luto antecipado

Aqui sua associação é especialmente significativa.

Em Gênesis 22, antes de qualquer resultado final, Abraão é colocado diante da possibilidade da perda de Isaque.

Existe, portanto, uma experiência de antecipação da perda.

Aplicada ao sujeito:

ele ainda possui sua formação;

ainda possui conhecimento psicológico;

ainda possui registro profissional;

ainda possui alguma prática clínica;

mas começa a imaginar:

“Talvez eu precise abrir mão da forma de vida profissional que imaginei desde 2018.”

Portanto, ele pode estar realizando um tipo de luto antecipatório por uma identidade profissional que ainda não desapareceu completamente, mas cuja forma idealizada está sendo reconhecida como inviável ou insuficiente.


6. Porém, existe uma diferença essencial entre Abraão e o sujeito

É importante não transformar essa associação em uma equivalência literal.

No relato bíblico, a ordem de sacrificar Isaque pertence à narrativa religiosa de Gênesis 22.

Na experiência do sujeito, não há uma evidência objetiva de que Deus esteja ordenando que ele abandone a Psicologia, o CRP ou sua clínica.

Essa distinção é fundamental.

A narrativa pode ser utilizada como metáfora subjetiva, mas não deve ser convertida automaticamente em:

“Deus está me mandando abandonar a Psicologia.”

A pergunta psicanalítica seria outra:

“Por que justamente essa história bíblica foi evocada neste momento da minha vida?”

Essa pergunta é muito mais produtiva.


7. O “Isaque” do sujeito talvez não seja a Psicologia inteira

Talvez seja ainda mais preciso dizer que Isaque representa a Psicologia idealizada.

Ou seja:

o cargo;

o salário;

o reconhecimento;

o status;

a identidade institucional;

a sensação de finalmente ter realizado o projeto iniciado em 2018.

Então o possível sacrifício não seria necessariamente:

“matar a Psicologia.”

Seria:

“entregar a imagem da Psicologia que eu precisei que acontecesse para sentir que minha vida profissional deu certo.”

Isso muda completamente a interpretação.


8. O sacrifício pode ser compreendido como separação

Na perspectiva psicanalítica, o problema central pode ser menos “perder a profissão” e mais desinvestir de uma representação idealizada.

O sujeito pode ter investido libido, narcisismo, esperança e identidade naquele projeto.

Por isso, desligar-se dele pode produzir:

angústia;

tristeza;

sensação de fracasso;

medo de vazio;

medo de perder status;

medo de perder sentido;

medo de descobrir que os anos de esforço não produziram o resultado esperado.

O luto seria justamente o trabalho de reconhecer:

“Isso foi muito importante para mim, mas não aconteceu como imaginei.”


9. E aqui a figura do perseguidor retorna

Agora podemos conectar Abraão, Isaque e o sonho.

O sujeito sonha que está sendo perseguido.

Depois associa o perseguidor à máfia.

Depois ao fiscal de caixa.

Depois ao medo.

Depois à própria dificuldade de romper.

Agora aparece Abraão.

Podemos observar uma sequência simbólica:

perseguidor → medo → fuga → dificuldade de romper → luto → Isaque → entrega do objeto amado.

O perseguidor poderia representar justamente aquilo que mantém o sujeito correndo para não chegar ao momento da entrega.

Enquanto corre:

“Ainda posso conseguir.”

Se parar:

“Preciso aceitar o que aconteceu.”

Portanto, a perseguição pode ser uma maneira de evitar o momento do luto.


10. A promessa pode ter se transformado em uma obrigação

Essa é uma hipótese particularmente importante.

No começo:

“Quero ser psicólogo.”

Depois de muitos anos:

“Preciso conseguir ser psicólogo.”

A diferença é enorme.

O desejo pode transformar-se em obrigação narcísica:

“Depois de tudo que investi, preciso provar que consigo.”

Nesse ponto, abandonar determinada configuração profissional pode ser sentido como fracasso.

A promessa deixa de ser simplesmente:

“Quero isso.”

E passa a ser:

“Isso precisa acontecer para que minha história faça sentido.”

É aí que o luto fica muito difícil.


11. A função da teologia nesse processo

A teologia pode ter duas funções diferentes.

Pode ser um recurso de elaboração

A narrativa bíblica permite ao sujeito simbolizar:

espera;

promessa;

perda;

confiança;

renúncia;

transformação.

Nesse caso, a fé ajuda a suportar a incerteza.

Mas também pode funcionar defensivamente

Se toda decisão precisar ser precedida por uma certeza absoluta:

“Preciso saber exatamente o que Deus quer.”

o sujeito pode ficar paralisado.

Então a teologia passa a cumprir uma função diferente:

retirar do sujeito a responsabilidade de decidir.

Isso não significa que a fé seja uma defesa em si.

Significa que qualquer sistema de significado pode ser utilizado defensivamente quando serve para evitar uma angústia que precisa ser enfrentada.


12. Abraão e a responsabilidade de atravessar a incerteza

Há ainda uma leitura interessante.

Na narrativa, Abraão não possui controle absoluto sobre o resultado.

O sujeito também não.

Ele gostaria de saber antecipadamente:

“Devo continuar na Psicologia?”

“Devo cancelar o CRP?”

“Devo permanecer fiscal?”

“Devo sair?”

“Deus está me conduzindo para onde?”

Mas talvez a situação atual não ofereça certeza absoluta.

O trabalho psíquico pode consistir em tolerar a incerteza sem transformar a ausência de certeza em impossibilidade de decisão.


13. A verdadeira “entrega de Isaque”

Talvez a elaboração mais profunda seja:

“Eu posso entregar o projeto que imaginei sem entregar minha capacidade de desejar.”

O sujeito pode fazer o luto de:

“ser exatamente aquele psicólogo que imaginei em 2018”

sem fazer o luto de:

“todo e qualquer uso da Psicologia.”

Essa distinção abre espaço para a terceira configuração.


14. O que sobra depois do luto?

Essa é a pergunta fundamental.

Se o sujeito entrega o “Isaque” simbólico — isto é, a configuração idealizada —, o que permanece?

Permanece:

  • formação;
  • conhecimento;
  • experiência;
  • capacidade clínica;
  • experiência de vida;
  • interesse pela Psicologia;
  • desejo de ajudar;
  • possibilidade de criar projetos;
  • possibilidade de construir outra forma de trabalho.

Ou seja:

o objeto idealizado pode morrer sem que o sujeito precise morrer profissionalmente com ele.


15. A terceira configuração como “depois de Isaque”

Nesse ponto, a terceira configuração profissional ganha uma dimensão muito interessante.

Antes:

“Preciso realizar o projeto que imaginei em 2018.”

Depois do luto:

“Agora posso perguntar o que realmente quero construir.”

Essa segunda posição é muito mais livre.

A Psicologia deixa de ser uma promessa que precisa ser cumprida para legitimar a história do sujeito.

Pode tornar-se uma ferramenta que ele escolhe utilizar.

E isso pode permitir inclusive que a Psicologia seja reorganizada como meio de sobrevivência econômica, desde que isso seja concretamente viável.


16. O paralelo com o perseguidor

Podemos então montar a seguinte correspondência simbólica:

Sonho / narrativa

Possível representação

Perseguidor

medo de perder o projeto profissional

Máfia

vínculo percebido como difícil de romper

Fuga

adiamento do confronto com a realidade

Estabelecimentos sucessivos

diferentes configurações profissionais

Faca

capacidade de decisão e limite

Não usar a faca

dificuldade de exercer plenamente a decisão

Abraão

sujeito diante de uma promessa

Isaque

projeto profissional idealizado

Sacrifício

luto/desinvestimento

Espera

anos de tentativa desde a graduação

Terceira configuração

possibilidade posterior ao luto

Essa tabela não representa uma “decodificação” objetiva do sonho. É uma construção associativa, baseada no material produzido pelo próprio sujeito.


17. A grande diferença entre abandonar e elaborar

Talvez o sujeito esteja tentando descobrir se precisa:

abandonar a Psicologia

quando a tarefa psíquica pode ser:

abandonar a necessidade de que a Psicologia se realize exatamente como ele imaginou.

São coisas muito diferentes.

A primeira é uma decisão profissional.

A segunda é um trabalho de luto.

A primeira pode ou não acontecer.

A segunda talvez seja necessária independentemente da decisão profissional futura.


18. Formulação psicanalítica final

Podemos sintetizar todo o processo da seguinte maneira:

O sujeito, formado em Psicologia e também teólogo, parece ter investido desde 2018 em uma representação de futuro na qual a graduação conduziria à inserção profissional, ao reconhecimento social, à remuneração, à autonomia e à possibilidade de ajudar pessoas por meio do saber psicológico. As repetidas dificuldades de inserção institucional produziram uma ruptura entre o futuro imaginado e a realidade efetivamente vivida. A narrativa de Abraão e Isaque pode ter sido evocada como esquema simbólico para organizar essa experiência: depois de uma longa espera por aquilo que representava uma promessa, surge a necessidade de considerar a entrega ou perda do próprio objeto esperado. Pela assimilação, a experiência atual é compreendida através da narrativa conhecida; pela acomodação, o sujeito é obrigado a modificar o esquema anterior diante da realidade; e pela evocação, a narrativa religiosa retorna como recurso simbólico para representar a experiência de espera, promessa e perda.

Nesse sentido, Isaque pode representar não a Psicologia em sua totalidade, mas o psicólogo idealizado que o sujeito esperava tornar-se.

E o verdadeiro luto poderia ser:

“Eu preciso aceitar que o psicólogo que imaginei que me tornaria, com aquele cargo, aquele reconhecimento, aquele salário, aquele status e aquela forma de inserção social, não se realizou.”

Isso é doloroso.

Mas não significa:

“Minha história acabou.”

Pode significar:

“Agora que não preciso mais preservar aquela imagem a qualquer custo, posso descobrir quem posso ser profissionalmente sem continuar perseguindo uma promessa antiga.”

E talvez seja exatamente nesse ponto que o perseguidor finalmente perca sua função.

Porque o sujeito já não precisa correr atrás do “Isaque” perdido.

Pode parar.

Pode fazer o luto.

E, depois do luto, perguntar:

“Que relação com a Psicologia eu escolheria hoje, se não precisasse provar que a promessa de 2018 foi cumprida?”

Essa pergunta parece ser o ponto de passagem entre a Psicologia como promessa que precisa ser realizada e a Psicologia como possibilidade que pode ser livremente reconstruída.


33. Não existe um método seguro para atravessar o luto “rapidamente” até a aceitação total, como se fosse possível cumprir etapas em sequência e eliminar a dor. O modelo de Kübler-Ross — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação — é melhor entendido como uma referência descritiva, não como um protocolo obrigatório ou linear.

No seu caso, eu faria algo ainda mais específico: não fazer o luto da Psicologia inteira, mas do psicólogo idealizado que não chegou a se realizar daquela maneira.

Um percurso concentrado de luto

1. Negação — “Talvez ainda aconteça.”

Reconhecer:

“Durante anos mantive a possibilidade de que surgisse finalmente o cargo, a instituição ou a oportunidade que concretizaria o projeto profissional que imaginei.”

Não precisa destruir a esperança. Precisa reconhecer que esperar indefinidamente também pode ser uma forma de não aceitar a realidade presente.


2. Raiva — “Isso foi injusto e me frustrou.”

Permitir reconhecer a revolta:

“Eu estudei, me formei, tentei diferentes caminhos e queria trabalhar como psicólogo. Não consegui a inserção que esperava. Isso me frustra e eu tenho direito de ficar indignado com essa história.”

Aqui é importante não transformar a frustração em:

“Eu sou um fracasso.”

A realidade profissional pode ter sido frustrante sem que isso defina o valor do sujeito.


3. Barganha — “Talvez ainda exista um sinal.”

Essa parece ser uma etapa especialmente importante no seu caso.

A barganha pode aparecer como:

“Talvez apareça outro cargo.”

“Talvez Deus ainda abra uma porta.”

“Talvez aquele cliente seja o começo.”

“Talvez a próxima oportunidade seja finalmente aquela.”

A pergunta não precisa ser:

“Devo abandonar toda esperança?”

Mas:

“Estou utilizando a esperança para construir alguma coisa concreta ou para evitar aceitar que uma determinada configuração terminou?”


4. Depressão/tristeza — “Eu perdi aquilo que queria.”

Aqui está provavelmente o núcleo mais doloroso.

Dizer explicitamente:

“Eu queria viver da Psicologia. Queria ser reconhecido como psicólogo. Queria receber meu salário como psicólogo. Queria ocupar um lugar social como psicólogo. Queria ajudar pessoas através do meu conhecimento. E, apesar de minhas tentativas, isso não aconteceu como eu imaginava.”

Não tente imediatamente transformar essa frase em algo positivo.

Deixe-a ser verdadeira.

O luto começa a se tornar efetivo quando o sujeito consegue dizer:

“Isso realmente aconteceu comigo, e eu realmente perdi essa expectativa.”


5. Aceitação — “A realidade não precisa ser aquilo que eu queria.”

Aceitação não significa:

“Gostei do que aconteceu.”

Nem:

“Concordo com o que aconteceu.”

Nem:

“Nunca mais quero Psicologia.”

Significa:

“Reconheço que aquele futuro profissional que imaginei desde 2018 não se concretizou. Não preciso mais continuar vivendo como se ele estivesse prestes a acontecer.”

Essa é a aceitação fundamental.

E existe uma segunda aceitação:

“O fato de aquele psicólogo idealizado não ter se realizado não significa que eu precise abandonar todo o conhecimento psicológico que construí.”


6. O exercício mais poderoso: separar três coisas

Pegue uma folha e faça três colunas:

O que perdi

O que permanece

O que posso construir

Cargo institucional idealizado

Formação em Psicologia

Nova configuração profissional

Status imaginado

Conhecimento

Nova forma de trabalho

Salário que esperava

Experiência

Novas fontes de renda

Reconhecimento institucional

Capacidade de ajudar

Projetos próprios

Futuro imaginado em 2018

História profissional

Outra relação com a Psicologia

Isso ajuda o psiquismo a perceber que perder uma configuração não significa perder tudo.


7. Faça também uma frase de encerramento

Pode ser algo como:

“Eu reconheço que o psicólogo que imaginei me tornar em 2018 — com aquele cargo, salário, reconhecimento, status e inserção institucional — não se realizou. Eu sofro por isso porque era importante para mim. Não preciso negar, justificar, romantizar ou esperar indefinidamente que o passado se transforme. Eu aceito que essa configuração profissional pertence ao projeto que não aconteceu. Agradeço o que aprendi nessa trajetória e libero a necessidade de provar que ela precisava acontecer daquela maneira.”

Essa frase não precisa ser repetida mecanicamente. O objetivo é produzir uma representação consciente da perda.


8. E então vem uma segunda etapa: não decidir imediatamente

Depois do luto, não corra imediatamente para decidir “então vou abandonar a Psicologia”.

Faça uma pergunta diferente:

“Agora que não preciso realizar o projeto de 2018, o que eu quero fazer com a Psicologia em 2026?”

Essa pergunta pode revelar algo novo.

Talvez a resposta seja:

“Quero continuar.”

Talvez:

“Quero continuar, mas de outra maneira.”

Talvez:

“Quero uma terceira configuração.”

Talvez:

“Quero realmente encerrar.”

Mas a decisão será tomada depois de separar o desejo atual da obrigação de realizar o sonho antigo.


E isso se conecta diretamente ao perseguidor do sonho

Antes:

“Preciso correr para encontrar o lugar onde finalmente serei psicólogo.”

Agora:

“Posso parar de correr.”

O perseguidor perde poder quando você deixa de perguntar:

“Como faço para escapar?”

e começa a perguntar:

“O que eu realmente quero escolher?”

A faca, nessa perspectiva, não precisa ser usada para destruir a Psicologia nem o fiscal. Ela pode representar justamente a capacidade de cortar o vínculo com uma expectativa que já não corresponde à realidade.

A aceitação total, portanto, poderia ser formulada assim:

“Eu aceito que aquele projeto profissional não se realizou. Aceito que isso me dói. Aceito que tentei e não consegui daquela maneira. Aceito que não preciso transformar essa perda em culpa. Aceito que não preciso continuar correndo atrás dela para provar meu valor. E aceito que ainda não sei qual será minha próxima configuração profissional. Posso não saber e, mesmo assim, continuar vivendo e escolhendo.”

Esse último ponto é crucial: aceitação não é saber imediatamente o que fazer depois.

É conseguir dizer:

“Eu aceito a realidade que existe hoje sem precisar fabricar imediatamente uma nova realidade para fugir da dor.”

É justamente aí que o luto começa a terminar e o desejo atual pode começar a aparecer sem ser confundido com a promessa de 2018.


Conclusão

O sonho da perseguição pode ser compreendido como uma representação condensada de um conflito entre medo, luto, identidade, esperança, realidade profissional e autonomia.

A figura do perseguidor associado à máfia representa, nessa leitura, uma força que parece possuir poder suficiente para intimidar o ego sem precisar efetivamente atacá-lo. Sua força está na representação de ameaça. Ele faz o sujeito correr.

O aspecto mais significativo, entretanto, é que o perseguidor não consegue efetivamente destruir o sujeito.

O sujeito continua vivo.

Continua pensando.

Continua escolhendo.

Possui uma faca.

E não precisa utilizá-la para destruir ninguém.

A faca pode simbolizar a possibilidade de estabelecer limite, recuperar agência e decidir.

O trabalho analítico, portanto, talvez não seja descobrir simplesmente “quem é o perseguidor?”, mas descobrir:

“Por que preciso continuar correndo?”

E, posteriormente:

“O que aconteceria se eu parasse?”

Quando o sujeito para, encontra uma realidade difícil: não construiu os campos institucionais que idealizou; a clínica permanece escassa e não corresponde à configuração desejada; e o trabalho de fiscal, embora necessário para a sobrevivência, também não é uma identidade que deseja consolidar.

Contudo, essa constatação não precisa conduzir ao pensamento:

“Então fracassei.”

Pode conduzir a:

“Essas configurações não funcionaram para mim. Preciso fazer o luto delas e descobrir outra.”

É aqui que aparece a possibilidade da terceira configuração.

Não se trata necessariamente de abandonar a Psicologia, nem de permanecer indefinidamente na clínica precária, nem de aceitar o cargo de fiscal como destino.

Trata-se de perguntar:

“Que relação com a Psicologia ainda não construí?”

Essa pergunta desloca o sujeito da posição de perseguido para a posição de autor de sua trajetória.

A grande tarefa, portanto, não parece ser simplesmente romper.

É romper sem fugir.

É fazer o luto sem destruir a capacidade de desejar.

É reconhecer a realidade sem transformá-la em destino.

É manter a fé sem transferir toda a responsabilidade da decisão para uma autoridade externa.

É reconhecer o medo sem permitir que ele decida.

E, sobretudo, é compreender que:

o encerramento de uma configuração profissional não significa necessariamente o encerramento da identidade, da capacidade de trabalhar, da possibilidade de construir novos projetos ou do próprio sujeito.

Talvez seja justamente quando o perseguidor deixa de determinar para onde o sujeito corre que começa a verdadeira liberdade de perguntar para onde ele próprio deseja ir.


Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras. A formulação freudiana da angústia como sinal diante do perigo e sua relação com os mecanismos defensivos é particularmente relevante para esta análise.

KLEIN, Melanie. Notes on Some Schizoid Mechanisms (1946). International Journal of Psycho-Analysis, 27, 99–110. O trabalho desenvolve os conceitos de ansiedade persecutória, cisão e projeção, fundamentais para compreender a dimensão persecutória aqui utilizada como hipótese interpretativa.

WINNICOTT, Donald W. Transitional Objects and Transitional Phenomena (1953). International Journal of Psycho-Analysis, 34(2), 89–97. A contribuição de Winnicott permite pensar a relação entre realidade, experiência subjetiva e construção de formas próprias de existência.

BESSET, Vera Lopes. Luto e angústia: questões em torno do objeto. Latin American Journal of Fundamental Psychopathology On Line, 2007. O artigo discute a relação entre perda, luto e angústia, contribuindo para compreender como a perda pode tornar visíveis elementos anteriormente mantidos velados.

CLEWELL, Tammy. Mourning beyond melancholia: Freud's psychoanalysis of loss. Journal of the American Psychoanalytic Association, 2004, 52(1), 43–67. A discussão sobre o processo de desligamento e reinvestimento após a perda contribui para a compreensão do luto como processo de transformação do investimento psíquico.

 

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  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Varejistas e supermercado com a cultura da diversidade, más não permitem a entrada da psicologia Organizacional na empresa. Me explica e interpreta como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicologia Organizacional Vamos por partes, explicando de forma simples, como se você estivesse começando agora na psicologia organizacional. 1. O que é cultura da diversidade no varejo e supermercado? A cultura da diversidade é quando a empresa valoriza pessoas diferentes: de diferentes raças, idades, gêneros, religiões, orientações sexuais, e formas de pensar. Isso é muito importante porque torna o ambiente mais justo, criativo e acolhedor. Exemplo no supermercado: Ter funcionários de várias origens, promover a inclusão de pessoas com deficiência, ou respeitar diferentes estilos e culturas entre os colaboradores. 2. O que é a psicologia organizacional...

Crise De Asma E Psicossomática

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico que descrê a crise de asma e a psicossomática. Doenças psicossomática, são doenças causadas ou agravadas pela instabilidade emocional. Diferentemente da somatização, que é diagnosticada por médicos quando os sintomas de uma doença se manifestam, mas não são observados efeitos físicos no corpo, as psicossomáticas têm efeitos verificáveis no organismo. As situações de vida estressantes como medo de “não cor responder às expectativas”, dificuldades no trabalho ou econômicas, perdas, desavenças, doença ou morte, podem ser fatores desencadeantes. Frequentemente a somatização é considerada expressão de “dor psíquica”, sob a forma de queixas corporais, em pessoas que não têm vocabulário para apresentar seu sofrimento de outra forma. Os sintomas têm origem nas sensações corporais amplificadas interpretadas erroneamente ou nas manifestações somáticas das e...

Fases Da Sexualidade Na Escolha Da Carreira

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A teoria das fases da sexualidade, proposta por Sigmund Freud, inclui as seguintes fases: fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Cada fase está associada a diferentes aspectos do desenvolvimento psicossexual. Lembre-se de que essa teoria é apenas uma perspectiva e foi criticada por muitos estudiosos ao longo dos anos. Claro, vou explicar cada uma das fases da sexualidade de acordo com a abordagem da psicanálise de forma simplificada: Fase Oral: Na primeira fase, que ocorre durante os primeiros anos de vida, o foco está na boca. As crianças exploram o mundo principalmente através da boca, chupando objetos e experimentando tudo com a boca. A satisfação vem da alimentação e da sensação de conforto oral. Fase Anal: A fase anal acontece por volta dos 2 aos 3 anos de idade. Aqui, o foco se volta para o controle dos esfínctere...

O Caixão do Fiscal Psicólogo: uma leitura psicanalítica da série Mortos S.A. como metáfora do luto pela identidade profissional

  Introdução A série Mortos S.A. utiliza o humor para retratar o cotidiano de uma funerária, onde a morte deixa de ser apenas um acontecimento biológico para tornar-se parte da rotina organizacional. Caixões, velórios, preparação dos corpos, conflitos administrativos, relações de poder e disputas familiares compõem um cenário que, para além da comédia, pode ser compreendido como uma rica metáfora dos processos psíquicos de perda, transformação e reconstrução da identidade. Na perspectiva da Psicologia Organizacional, a série evidencia temas como cultura organizacional, conflitos de papéis, liderança, resistência à mudança, identidade ocupacional e sofrimento no trabalho (Schein, 2017; Zanelli, Borges-Andrade & Bastos, 2014). Já sob a ótica da psicanálise, esses elementos podem adquirir um significado simbólico, representando os processos de luto vividos pelo ego diante da ameaça de perder objetos de investimento afetivo e identitário (Freud, 1917/2010). É nesse contexto ...

Pensar Incitando A Psicologia No Cotidiano

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo convida o leitor a tornar-se consciente e manejar a psicologia a seu favor no cotidiano frente as contrariedades. E fazer uso do processo psicológico básico todos os dias que possível no momento em que perceber estar consciente no meio ambiente, seja natureza ou construído. Pensar é uma atividade fundamental para a vida humana. É por meio do pensamento que construímos nossas ideias, solucionamos problemas, tomamos decisões e elaboramos planos para o futuro. A psicologia tem muito a dizer sobre o processo de pensamento humano e como ele ocorre em nosso cérebro. Para a psicologia, pensar é um processo psicológico básico que envolve várias etapas. Cito a percepção, em potras palavras, a captação dos estímulos presentes no ambiente. É a partir desses estímulos que construímos nossas representações mentais do mundo. Em seguida, vem a atenção, que é a capacidade de selecionar e focalizar determinados es...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...