Introdução
Um
acontecimento aparentemente banal no cotidiano de trabalho pode adquirir, sob a
perspectiva psicanalítica, uma dimensão bastante diferente. O episódio em
questão ocorre com um fiscal de caixa que, durante sua rotina no supermercado,
pega uma lasanha com a finalidade consciente de levá-la até a geladeira
vertical do setor de frios. Entretanto, durante o deslocamento, em vez de
chegar aos frios, dirige-se ao café. Somente quando chega ao local percebe o
desvio e verbaliza: “Ixi, olha o que aconteceu. Era pra mim colocar essa
lasanha aqui lá na geladeira dos frios e eu vim parar aqui despercebidamente.”
O
próprio sujeito identifica a situação como um erro de percurso. Porém, a
psicanálise permite suspender temporariamente essa explicação imediata e
perguntar: o que aconteceu nesse intervalo entre a intenção consciente e a
ação efetivamente realizada?
Freud
dedicou especial atenção aos chamados atos falhos — lapsos, esquecimentos,
erros de execução e outras manifestações aparentemente acidentais da vida
cotidiana. Em A psicopatologia da vida cotidiana, ele inclui
explicitamente os atos realizados de maneira equivocada, nos quais
ocorre uma divergência entre a intenção e a ação efetivamente executada. (Clássicos da História da Psicologia)
Isso
não significa que todo erro cotidiano tenha necessariamente uma causa
inconsciente. A própria literatura contemporânea ressalta que muitos lapsos
podem decorrer de atenção, hábito ou carga cognitiva. Portanto, a interpretação
psicanalítica deve ser apresentada como hipótese, e não como comprovação
objetiva de um desejo inconsciente. (Cambridge)
Neste
caso específico, porém, o episódio torna-se particularmente fecundo porque o
desvio não ocorre para um espaço qualquer: o sujeito chega ao café, um
lugar que, dentro da cadeia associativa construída por ele, pode representar
encontro, conversa, circulação, pausa, troca e possibilidade de relação. Em
contraste, os frios passam a ser associados simbolicamente à
conservação, à repetição, à permanência e, para esse sujeito, àquilo que pode
representar objetos, projetos ou experiências que ficaram “congelados” ou
vinculados ao luto.
A
interpretação, portanto, não pretende afirmar que o café tenha um significado
universal. Seu significado depende das associações do próprio sujeito.
1. O ato falho: quando a
intenção e o percurso se separam
A
intenção consciente é inequívoca:
“Preciso levar a lasanha para os
frios.”
Entretanto,
a ação produz outra sequência:
lasanha → deslocamento → café.
Há uma
pequena ruptura entre representação e ação.
O
sujeito sabe o que deveria fazer, continua carregando o objeto correto, mas seu
corpo realiza momentaneamente outro percurso.
Esse
detalhe é fundamental.
Não se
trata simplesmente de:
“Esqueci
a lasanha.”
Ele
não esqueceu o objeto.
Tampouco
esqueceu completamente a tarefa.
Ele perde
momentaneamente o destino da tarefa.
É
justamente esse tipo de desvio entre intenção e execução que permite aproximar
a situação daquilo que Freud investigou como Fehlleistungen, ou atos
falhos. Freud sustentava que determinadas ações aparentemente equivocadas
poderiam ser examinadas como formações nas quais conteúdos psíquicos não
inteiramente conscientes encontram alguma possibilidade de expressão. (The Library of Congress)
2. “Vim parar aqui”: o
estranhamento diante do próprio ato
A
frase do fiscal é particularmente importante:
“Vim parar aqui
despercebidamente.”
Ele
não diz:
“Decidi
ir ao café.”
Ele
diz, em essência:
“Quando percebi, estava aqui.”
Surge,
então, uma experiência de estranhamento diante da própria ação.
O
sujeito torna-se observador de algo que ele mesmo realizou.
É
nesse ponto que podemos formular uma pergunta psicanalítica:
Quem conduziu o percurso quando
a consciência deixou de dirigir completamente a ação?
Não se
trata de afirmar que “o inconsciente tomou o controle do corpo” como se fosse
uma entidade separada comandando o sujeito. A formulação mais rigorosa é que a
ação humana não é inteiramente determinada pela intenção consciente, e
determinados desvios podem tornar-se material para investigação do
inconsciente.
3. A lasanha permanece na mão: a
instituição continua presente
Talvez
seja o elemento simbólico mais expressivo de toda a cena.
O
fiscal chega ao café ainda carregando a lasanha.
Portanto,
ele não abandonou a tarefa.
A
instituição continua presente em suas mãos.
A
lasanha pode ser tomada, nessa leitura, como representação daquilo que o
sujeito continua carregando da realidade institucional: sua função, sua
obrigação, sua rotina, sua posição profissional e o trabalho que precisa
executar.
Temos
então uma imagem paradoxal:
As mãos continuam carregando
aquilo que pertence ao circuito institucional, enquanto o corpo se desloca
momentaneamente para outro lugar.
Essa
imagem pode ser utilizada como metáfora da própria situação subjetiva do fiscal
psicólogo.
Ele
permanece concretamente no supermercado, mas sua subjetividade pode estar
começando a questionar se precisa permanecer psiquicamente identificado com
aquele lugar.
4. Os frios: conservação e
repetição
O
setor dos frios adquire aqui um valor simbólico construído a partir das
associações do sujeito.
Não se
trata de dizer que “frios significam luto” na psicanálise. Essa equivalência
não existe como regra teórica.
Mas,
para esse sujeito, pode haver uma associação entre:
frios → conservação →
congelamento → permanência → repetição → aquilo que não circula.
A
própria função da geladeira é conservar.
Isso
permite construir uma metáfora:
O sujeito sente-se conservado em
uma posição profissional que se repete.
A
rotina cotidiana pode assumir a forma de um circuito:
trabalho
→ tarefa → problema → solução operacional → nova tarefa → novo problema →
repetição.
O dia
muda, mas a estrutura permanece.
É
nesse ponto que o conceito freudiano de compulsão à repetição pode ser
introduzido. Freud desenvolveu o conceito inicialmente em Recordar, repetir
e elaborar (1914) e o aprofundou em Além do princípio do prazer
(1920). A repetição, em sua formulação posterior, não se reduz simplesmente a
uma escolha consciente de repetir; ela pode aparecer como uma tendência que
ultrapassa aquilo que o sujeito deliberadamente pretende. (PubMed)
5. O café: circulação, encontro
e possibilidade
É
nesse ponto que o café ganha importância.
O café
pode representar, para esse sujeito, o oposto simbólico do congelamento:
café → calor → encontro →
conversa → circulação → troca → relação.
Enquanto
os frios podem simbolizar aquilo que permanece conservado, o café pode
representar aquilo que entra em circulação.
A
diferença pode ser esquematizada:
|
Frios |
Café |
|
Conservação |
Circulação |
|
Repetição |
Possibilidade |
|
Permanência |
Movimento |
|
Congelamento |
Calor |
|
Tarefa |
Encontro |
|
Objeto
armazenado |
Relação |
|
Aquilo
que permanece |
Aquilo
que circula |
Novamente,
trata-se de uma construção simbólica específica desse sujeito, não de uma
simbologia universal.
Assim,
o ato falho pode ser compreendido como uma pequena interrupção do circuito:
O sujeito pretendia chegar ao
lugar da conservação, mas seu percurso o conduz ao lugar associado à
circulação.
6. O corpo como participante da
formação
É
possível então utilizar a expressão “corpo que fala”, desde que ela seja
compreendida metaforicamente e não como se todo movimento corporal fosse uma
mensagem inconsciente pronta para ser decodificada.
Freud
relacionou o ego de maneira estreita ao corpo, chegando a formular que o ego é,
antes de tudo, um ego corporal. (Lutecium)
Isso
permite pensar que o corpo não é simplesmente um instrumento passivo comandado
por uma consciência totalmente soberana.
No
episódio, o corpo participa da cena:
a consciência indica um destino;
o corpo realiza outro percurso; depois a consciência percebe e interroga aquilo
que aconteceu.
A
sequência pode ser representada como:
intenção → ação → estranhamento
→ associação → interpretação.
É
nesse sentido que o corpo pode funcionar como via de manifestação de algo
ainda não elaborado, sem que se afirme automaticamente que o gesto contenha
uma mensagem inequívoca.
7. O ato falho não revela
automaticamente “o desejo verdadeiro”
Essa é
uma ressalva essencial.
Seria
teoricamente exagerado concluir:
“O
inconsciente queria que o fiscal fosse ao café.”
Ou:
“O
inconsciente está dizendo que ele deve abandonar o supermercado.”
O ato
falho não funciona como um oráculo.
O que
ele oferece é uma formação a ser interrogada.
A
pergunta psicanalítica não é:
“Qual
é a tradução correta desse ato?”
Mas:
“Que associações esse ato produz
no sujeito?”
O que
o café representa para ele?
Quem
estava lá?
O que
ele sentia naquele momento?
O que
havia acontecido antes?
Por
que os frios assumem essa significação?
O que
significa “ficar” naquele supermercado?
O que
significa “sair”?
O que
significa exercer Psicologia depois de tantos anos?
São
essas associações que poderiam confirmar, modificar ou até desmontar a
interpretação inicial.
8. O “erro” pode se transformar
em consciência
Existe,
entretanto, uma dimensão muito interessante no episódio.
O
sujeito interpreta inicialmente:
“Vim parar no lugar errado.”
A
psicanálise pode suspender essa interpretação e perguntar:
“E se esse lugar aparentemente
errado tiver produzido uma pergunta que o lugar certo não produziria?”
Aqui
ocorre uma inversão.
O
“erro” deixa de ser somente uma falha operacional e passa a ser uma ocasião
de estranhamento.
O
sujeito chega ao café e percebe:
“Eu
deveria estar nos frios.”
Mas
essa percepção pode produzir outra pergunta:
“Por que fui parar aqui?”
E uma
terceira:
“Por que estou há tanto tempo
indo sempre para o mesmo lugar?”
E
finalmente:
“O que eu desejo que aconteça
com minha vida profissional?”
O ato
não fornece a resposta. Ele abre a pergunta.
9. O fiscal psicólogo e a tensão
entre duas posições
O
episódio ganha uma dimensão ainda maior quando consideramos a dupla posição do
sujeito:
fiscal de caixa e psicólogo.
No
supermercado, sua função concreta é operacional, institucional e repetitiva.
Ao
mesmo tempo, ele possui uma formação e uma experiência acumulada que pertencem
ao campo da Psicologia.
Assim,
a lasanha pode simbolizar aquilo que ele efetivamente continua carregando:
a posição de trabalhador que
precisa cumprir uma tarefa.
Enquanto
o desvio para o café pode simbolizar:
a emergência de uma necessidade
de circulação de outros aspectos de si.
Não
necessariamente abandonar o trabalho imediatamente, mas encontrar espaços nos
quais seus conhecimentos, experiências e capacidade de reflexão possam adquirir
outra função.
O
conflito poderia então ser formulado assim:
“Continuo sendo aquilo que a
instituição necessita que eu seja, mas existe uma parte de mim procurando um
lugar onde aquilo que construí ao longo da minha trajetória possa circular.”
10. A compulsão à repetição e a
possibilidade de uma diferença
Aqui
aparece uma distinção importante.
A
compulsão à repetição não significa simplesmente:
“fazer
a mesma coisa todos os dias.”
Em
Freud, trata-se de um conceito metapsicológico muito mais complexo, relacionado
à repetição de experiências e posições que não se explicam simplesmente pelo
prazer consciente. (SciELO)
Por
isso, não devemos transformar automaticamente a rotina do supermercado em
“compulsão à repetição” no sentido técnico.
Podemos,
entretanto, usar o conceito como chave de leitura da experiência
subjetiva do sujeito:
uma vida profissional percebida
como circuito repetitivo pode produzir a sensação de estar preso a uma posição
que continua se reproduzindo.
Nesse
contexto, o desvio para o café representa algo interessante:
uma diferença dentro da
repetição.
O
sujeito continua no supermercado.
Continua
carregando a lasanha.
Continua
sendo fiscal.
Mas,
por alguns instantes, o percurso não termina onde deveria terminar.
11. O café como metáfora de um
lugar ainda não institucionalizado
Talvez
esse seja o aspecto mais profundo do símbolo.
O café
não é, necessariamente, o destino final.
Ele
pode representar um entre-lugar.
O
sujeito não está mais exatamente no circuito dos frios, mas também não saiu da
instituição.
Ele
está entre:
permanecer e deslocar-se;
repetir e experimentar;
conservar e circular;
executar e elaborar;
ser fiscal e voltar a ocupar
outras dimensões de sua identidade profissional.
Por
isso, o café pode ser compreendido como um espaço intermediário de
elaboração.
É
justamente nesse espaço intermediário que aparece a possibilidade de perguntar:
“O que quero fazer com aquilo
que sou e com aquilo que construí?”
12. O corpo não determina o
futuro
Também
é necessário evitar uma interpretação determinista.
O
episódio não permite concluir:
“O
corpo está mandando o fiscal sair do supermercado.”
Uma
ação isolada pode ser explicada por automatismo, hábito, distração, atenção
reduzida ou simplesmente erro de percurso.
A
própria discussão contemporânea sobre atos falhos recomenda cautela, pois nem
todo lapso possui necessariamente uma determinação inconsciente específica. (Cambridge)
O
valor psicanalítico do acontecimento surge quando ele entra em uma cadeia de
associações e repetições.
Se o
episódio ressoa com outros movimentos da vida do sujeito — insatisfação, desejo
de mudança, busca de espaços de atuação, sensação de estagnação, retorno
constante às mesmas situações —, então ele pode ganhar uma função
interpretativa muito maior.
13. O simbolismo central
Podemos
condensar toda a cena em uma imagem:
O fiscal carrega a lasanha
destinada à geladeira dos frios, mas chega ao café.
Essa
imagem contém duas forças.
A
primeira:
“Continue fazendo aquilo que
você sempre fez.”
A
segunda:
“Existe outro lugar para onde
seu movimento pode ir.”
Os
frios representam, nessa construção subjetiva, a conservação do já existente.
O café
representa a possibilidade de circulação daquilo que ainda pode acontecer.
A
lasanha representa aquilo que o sujeito ainda carrega consigo.
E o
deslocamento representa a possibilidade de que carregar algo não signifique
necessariamente continuar levando-o sempre para o mesmo destino.
Conclusão
O
episódio da lasanha e do café pode ser compreendido, dentro de uma leitura
psicanalítica, como uma pequena cena cotidiana na qual se torna visível a
tensão entre intenção consciente, ação corporal, repetição e desejo.
O
fiscal conscientemente pretendia realizar uma tarefa simples: levar a lasanha
aos frios. Seu corpo, entretanto, conduziu-o ao café. Quando percebeu o desvio,
chamou-o de erro. A psicanálise permite não negar o erro, mas interrogá-lo.
O
ponto central não é afirmar que o inconsciente “sabia” conscientemente qual era
o destino correto. Tampouco que o café seja objetivamente o lugar para onde o
sujeito deve ir. O valor do acontecimento está no fato de que o desvio produz estranhamento
e possibilidade de elaboração.
O
sujeito continua carregando a lasanha. Portanto, continua carregando a
instituição, a função e a obrigação. Entretanto, momentaneamente, seu percurso
se afasta do lugar da conservação e aproxima-se de um espaço associado, em sua
própria cadeia simbólica, ao encontro, à conversa, à circulação e à relação.
Desse
modo, o ato pode espelhar uma condição subjetiva:
“Ainda estou carregando aquilo
que a instituição me atribuiu, mas talvez já não queira que tudo aquilo que sou
permaneça destinado ao mesmo lugar.”
Essa
formulação não significa que o sujeito tenha encontrado definitivamente uma
saída. Significa que a repetição sofreu uma pequena interrupção.
E
talvez seja precisamente aí que esteja o valor psicanalítico do acontecimento.
O café
não precisa ser interpretado como “o destino verdadeiro”. Ele pode ser
compreendido como o lugar onde o sujeito, ao chegar aparentemente por
engano, encontra a oportunidade de perguntar pelo próprio caminho.
O que
parecia ser apenas:
“Fui ao lugar errado.”
pode
transformar-se em:
“Por que estou sempre indo para
o mesmo lugar?”
E essa
segunda pergunta é muito mais importante.
Porque
talvez o verdadeiro fenômeno não seja simplesmente o fiscal ter chegado ao
café.
Talvez
seja ele ter começado a perceber que a repetição de um percurso profissional
não precisa determinar para sempre o destino de sua subjetividade.
Referências bibliográficas
FREUD,
Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana (1901). Obra dedicada, entre
outros fenômenos, aos esquecimentos, lapsos e atos realizados de maneira
equivocada. (Clássicos da História da Psicologia)
FREUD,
Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). Texto fundamental para a
compreensão da relação entre repetição, atuação e elaboração na experiência
psicanalítica. A evolução do conceito de compulsão à repetição é retomada pela
literatura psicanalítica a partir desse trabalho. (PubMed)
FREUD,
Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Texto central para a
formulação metapsicológica da compulsão à repetição e para a discussão de uma
tendência repetitiva que não pode ser explicada apenas pelo princípio do
prazer. (Cambridge)
FREUD,
Sigmund. O ego e o id (1923). Trabalho fundamental para a segunda tópica
freudiana e para a formulação da relação entre ego, corpo e consciência. (Lutecium)
CAROPRESO,
Fátima; SIMANKE, Richard Theisen. Compulsão à repetição: um retorno às
origens da metapsicologia freudiana. Ágora: Estudos em Teoria
Psicanalítica, v. 9, n. 2, 2006. (SciELO)
PEREIRA,
Douglas Rodrigo; MIGLIAVACCA, Eva Maria. Compulsão à repetição na
metapsicologia freudiana. Revista de Psicanálise da SPPA. Discussão
dos diferentes momentos da elaboração freudiana do conceito de compulsão à
repetição. (Revista de Psicanálise da SPPA)
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