Pular para o conteúdo principal

O Sonho do Outro Não É O Meu Sonho

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Se um indivíduo não trabalha para realizar o seu sonho, trabalhará para realizar o sonho do Outro. Mesmo que o sujeito esteja trabalhando realizando o sonho do Outro, ele deve de algum modo usar este trabalho que é realização do Outro como ferramenta para realizar o seu sonho.

Vamos pensar nisso de forma simples. Na psicologia social, olhamos para como as pessoas são influenciadas pelo meio em que vivem e pelas relações que estabelecem com os outros.

Explicação Simples

Se uma pessoa não trabalha para realizar o próprio sonho, isso significa que está dedicando sua energia, tempo e esforço para ajudar outra pessoa a realizar os sonhos dela. Isso acontece muito, principalmente no ambiente de trabalho. Imagine alguém que sempre quis ser artista, mas trabalha como vendedor em uma loja. Ele não está seguindo o próprio sonho, mas ajudando o dono da loja a alcançar o sonho dele de ter um negócio bem-sucedido.

Agora, isso não significa que essa pessoa não pode transformar esse trabalho em algo que também a ajude a chegar mais perto do próprio sonho. Ela pode, por exemplo, usar as habilidades que desenvolve no atendimento ao público para ganhar mais confiança e, no futuro, fazer apresentações como artista.

Interpretação pela Psicologia Social

A psicologia social explica que nossas escolhas e comportamentos são influenciados pelas normas sociais, pela cultura e pelas relações com os outros. Muitas vezes, aceitamos trabalhos que não são exatamente o que queremos por causa de necessidades financeiras, expectativas da família ou pressão da sociedade. Mas, dentro desse contexto, podemos buscar maneiras de transformar essa experiência em algo útil para nosso próprio crescimento.

Ou seja, mesmo que alguém trabalhe para o sonho do outro, pode encontrar formas de aprender, crescer e se preparar para alcançar o próprio sonho no futuro. Isso significa enxergar o trabalho não como uma prisão, mas como um degrau para algo maior.

Vamos aplicar essa ideia ao caso de um fiscal de caixa que também é psicólogo.

Explicação Simples

O fiscal de caixa trabalha para manter a organização do supermercado, garantindo que os operadores de caixa sigam as regras e que os clientes tenham uma boa experiência. Isso significa que, no dia a dia, ele está ajudando a realizar o sonho do dono do supermercado – que é ter um negócio lucrativo e bem-administrado.

Mas esse fiscal de caixa também é psicólogo, e o sonho dele é atuar ajudando pessoas a se libertarem da fome emocional e dos vícios. A princípio, o trabalho no supermercado pode parecer um desvio desse sonho, mas ele pode encontrar formas de usar essa experiência como um degrau para alcançar seu objetivo.

Interpretação pela Psicologia Social

Na psicologia social, entendemos que o ambiente e as interações influenciam o comportamento e as decisões das pessoas. O fiscal de caixa pode usar o contato diário com funcionários e clientes como uma oportunidade para desenvolver habilidades que serão úteis em sua prática psicológica.

Observação do comportamento humano: Ele pode perceber padrões de consumo que indicam fome emocional ou vícios, ajudando a entender melhor as motivações inconscientes das pessoas.

Escuta ativa e empatia: Conversando com colegas e clientes, ele pode praticar habilidades de escuta e acolhimento, que são fundamentais na psicologia.

Compreensão da psicologia do consumo: Trabalhando em um ambiente onde o consumo impulsivo acontece o tempo todo, ele pode adquirir conhecimentos sobre como as pessoas tomam decisões, o que pode ser útil para ajudá-las a mudar hábitos nocivos no futuro.

Testar abordagens: Ele pode experimentar maneiras sutis de ajudar colegas a lidar com estresse e ansiedade no trabalho, aplicando técnicas psicológicas de forma prática.

Dessa forma, mesmo trabalhando para o sonho do dono do supermercado, ele pode transformar essa experiência em uma ferramenta para realizar o próprio sonho de ser psicólogo em tempo integral. Esse olhar estratégico evita que ele veja o trabalho atual apenas como um obstáculo e o ajuda a usá-lo como um trampolim para o futuro que deseja.

E no caso do fiscal de caixa que está trabalhando para realizar os desejos dos clientes no supermercado, como corrigir preços errados, dar desconto nas cervejas, pegar cigarros, auxiliar os operadores quando duplicam os itens no scaner, emitir notas fiscais para clientes, orientar empacotadores nos diversos trabalho de embalagens dos itens dos clientes dentre outras tarefas, mas como fica o sonho do fiscal de caixa que é psicólogo no que se trata de acolher clientes em terapia, se a maior parte do tempo está realizando os sonhos dos clientes no supermercado que dar descontos em carnes e cervejas.

Essa é uma questão importante, porque destaca o conflito entre o trabalho atual e o sonho de atuar como psicólogo. O fiscal de caixa está constantemente resolvendo problemas e atendendo aos desejos dos clientes dentro da lógica do supermercado – corrigindo preços, concedendo descontos, pegando cigarros, ajudando na conferência de itens, orientando empacotadores, entre outras funções. Tudo isso contribui para a satisfação do cliente, mas não está diretamente ligado ao seu sonho de acolher pessoas em terapia.

Como a Psicologia Social Explica Esse Conflito

A psicologia social nos mostra que o indivíduo é influenciado pelo meio e, muitas vezes, assume papéis que não refletem seus verdadeiros desejos. No caso do fiscal de caixa que também é psicólogo, o meio (o supermercado) faz com que ele passe a maior parte do tempo realizando os desejos dos clientes e do dono do mercado, ao invés de atuar no seu verdadeiro propósito, que é acolher pessoas em terapia.

 

Esse conflito pode gerar frustração e desmotivação, pois ele sente que suas habilidades psicológicas não estão sendo utilizadas como gostaria. Além disso, pode sentir que está contribuindo para o consumo impulsivo e para hábitos que vão contra o que ele gostaria de trabalhar como psicólogo (como dependência de álcool ou compra compulsiva de alimentos).

Como Usar o Trabalho Atual Como Um Degrau Para o Sonho de Ser Psicólogo

Mesmo dentro desse contexto, é possível encontrar formas de se aproximar do sonho e usar essa experiência para crescer como psicólogo:

Desenvolver habilidades terapêuticas no dia a dia

O contato com clientes e colegas permite praticar escuta ativa e empatia, habilidades essenciais para um psicólogo.

Quando um cliente ou funcionário estiver frustrado ou ansioso, pode-se aplicar técnicas de comunicação que ajudem a acalmá-los e compreender suas emoções.

Observar padrões de comportamento

Como fiscal de caixa, ele pode perceber como o consumo está ligado a fatores emocionais (por exemplo, compras impulsivas de álcool e doces).

Isso pode gerar insights sobre como as pessoas lidam com estresse e compulsões, algo útil para sua prática clínica futura.

Criar conexões e oportunidades

O supermercado pode ser um espaço para criar networking. Conversando com clientes e colegas, ele pode identificar pessoas que se interessam por temas de saúde mental e, no futuro, podem se tornar pacientes ou indicar seu trabalho.

Planejar a transição para a psicologia

Enquanto trabalha no supermercado, pode buscar formas de se estruturar financeiramente e profissionalmente para atuar como psicólogo em tempo integral. Isso pode incluir atender alguns pacientes no tempo livre, investir em marketing pessoal ou se especializar em uma área da psicologia que facilite essa transição.

Conclusão

Atualmente, o fiscal de caixa está ajudando a realizar os sonhos dos clientes no supermercado, mas ele pode começar a mudar essa realidade ao enxergar seu trabalho atual como um meio de adquirir experiência e se preparar para atuar como psicólogo. Isso evita a sensação de que está desperdiçando tempo e permite que ele faça uma transição planejada para a carreira que realmente deseja.

Para enxergar o trabalho atual como um meio de adquirir experiência e se preparar para a transição para atuar como psicólogo, é importante mudar a forma como você percebe sua rotina no supermercado. Em vez de ver apenas como um trabalho operacional que não tem relação com a psicologia, você pode focar em extrair aprendizados que serão úteis para sua futura atuação clínica.

Passo 1: Identificar Competências Psicológicas no Trabalho Atual

O trabalho de fiscal de caixa exige várias habilidades que também são essenciais na psicologia. Você já está praticando algumas competências sem perceber:

Escuta ativa e comunicação → No supermercado, você lida com clientes frustrados, ansiosos e irritados. Saber ouvir, acalmar e resolver problemas é um treino diário para o acolhimento terapêutico.

Observação do comportamento humano → Você percebe padrões de consumo, impulsividade, ansiedade e até relações familiares na forma como os clientes compram. Isso pode ser útil para compreender as emoções e hábitos das pessoas.

Gestão de conflitos → Resolver divergências entre clientes e operadores de caixa, lidar com insatisfação e manter a calma são habilidades valiosas na prática clínica.

 

Empatia e paciência → Muitos clientes estão sobrecarregados emocionalmente. Ao praticar a empatia no atendimento, você já está treinando a base do acolhimento psicológico.

Passo 2: Transformar Cada Experiência em Aprendizado

Sempre que interagir com clientes e colegas, pergunte-se:

"O que essa situação me ensina sobre comportamento humano?"

"Como eu posso aplicar esse aprendizado na minha futura atuação como psicólogo?"

Por exemplo:

Se um cliente pede cigarro ansiosamente, você pode refletir sobre a relação entre ansiedade e tabagismo.

Se um operador de caixa está esgotado, você pode perceber os impactos do estresse ocupacional e pensar em estratégias para lidar com isso.

Passo 3: Criar Pequenas Ações Práticas na Psicologia

Mesmo trabalhando no supermercado, você pode começar a construir sua transição para a psicologia:

Atender pacientes no tempo livre → Iniciar com poucos atendimentos por semana para criar experiência e ganhar confiança.

Criar conteúdo sobre psicologia → Fazer postagens ou vídeos simples no Instagram sobre temas como ansiedade, vícios e consumo emocional. Isso ajuda a atrair futuros clientes.

Fazer cursos e especializações → Buscar formações complementares para se diferenciar e ganhar mais segurança na clínica.

Desenvolver networking → Conversar com clientes e colegas sobre psicologia, apresentando-se como psicólogo, para que saibam que você pode ajudá-los no futuro.

 

Passo 4: Planejar a Saída Estratégica do Supermercado

Se a ideia é atuar como psicólogo em tempo integral, o ideal é planejar financeiramente essa transição. Você pode:

Guardar dinheiro para um período de adaptação.

Criar uma base de pacientes antes de sair do supermercado.

Procurar parcerias com clínicas ou projetos sociais para conseguir mais atendimentos no início.

Conclusão

O supermercado não precisa ser apenas um lugar onde você realiza o sonho dos outros. Ele pode ser um campo de aprendizado e preparação para sua transição para a psicologia. A chave está em mudar o olhar sobre o trabalho e usar cada experiência como um degrau para seu verdadeiro objetivo.

Se o objetivo é atuar como psicólogo social, o trabalho atual no supermercado pode ser visto como um campo de observação e prática da psicologia social na vida real.

A psicologia social estuda como o comportamento humano é influenciado pelo meio, pela cultura e pelas interações com outras pessoas. No supermercado, há inúmeras situações que refletem esses fenômenos.

1. Identificar Elementos da Psicologia Social no Trabalho Atual

Comportamento de Consumo e Influência Social

Os clientes compram por necessidade real ou são influenciados por publicidade, promoções e pressão social?

Como o desejo por descontos em carnes, cervejas e cigarros reflete hábitos culturais e valores sociais?

Relações de Poder e Hierarquia

Como os funcionários lidam com a autoridade do gerente?

 

Como os empacotadores e operadores de caixa se relacionam com os fiscais e supervisores?

Como os clientes se comportam diante de funcionários em diferentes posições hierárquicas?

Identidade e Pertencimento no Trabalho

Alguns funcionários se identificam com o trabalho e veem sentido nele, enquanto outros apenas "sobrevivem" até o fim do expediente. Como isso afeta a motivação e o desempenho?

Como as relações entre os funcionários criam um sentimento de grupo e influenciam comportamentos individuais?

2. Aplicar a Psicologia Social no Dia a Dia

Você pode praticar a psicologia social mesmo sem estar oficialmente atuando como psicólogo:

Mediação de Conflitos

Quando há um desentendimento entre um operador de caixa e um cliente, por exemplo, você pode observar como os fatores sociais e emocionais afetam a situação. Pode até testar abordagens diferentes para acalmar o cliente ou ajudar o funcionário a lidar com a pressão.

Influência no Ambiente de Trabalho

Como as normas sociais internas do supermercado determinam o comportamento dos funcionários?

Pequenas mudanças na comunicação e no reconhecimento podem melhorar a motivação e o desempenho da equipe?

Como a cultura organizacional influencia o comportamento de cada pessoa?

 

Análise da Psicologia do Consumidor

Observar padrões de compra ajuda a entender como o meio social afeta as decisões dos clientes.

Você pode refletir sobre como as estratégias de marketing influenciam a percepção de valor dos produtos.

3. Criar Pequenas Ações Para Se Preparar para a Transição

Mesmo dentro do supermercado, você pode começar a estruturar sua atuação como psicólogo social. Algumas ideias:

Iniciar um Projeto de Psicologia Social

Exemplo: Criar um pequeno projeto interno para melhorar a qualidade de vida dos funcionários, ajudando a lidar com estresse, ansiedade ou comunicação no trabalho. Isso pode ser feito com conversas informais ou até com pequenas ações educativas.

Estudar e Produzir Conteúdo

Escrever sobre temas de psicologia social em um blog ou redes sociais pode ajudar a construir uma identidade profissional antes da transição.

Buscar Oportunidades de Trabalho na Psicologia Social

Participar de projetos sociais fora do expediente.

Procurar oportunidades em ONGs, empresas ou instituições que precisem de um psicólogo social.

Fazer networking com outros psicólogos que atuam na área.

4. Planejar a Saída Estratégica do Supermercado

Para se dedicar totalmente à psicologia social, é importante ter um plano de transição:

Identificar áreas da psicologia social que oferecem mais oportunidades de trabalho.

Construir uma rede de contatos com profissionais da área.

Se estruturar financeiramente para a mudança.

Conclusão

Mesmo que o trabalho atual pareça distante da psicologia social, ele pode ser um campo de prática e observação. Cada interação no supermercado é uma oportunidade para entender o comportamento humano, testar abordagens psicológicas e se preparar para atuar na área desejada. A chave está em mudar a perspectiva e começar a construir a transição desde já.

Projeto: Bem-Estar no Trabalho

1. Objetivo

Promover a qualidade de vida dos funcionários do supermercado por meio de estratégias simples para reduzir o estresse, melhorar a comunicação e fortalecer o bem-estar emocional no ambiente de trabalho.

2. Justificativa

O trabalho no varejo é marcado por pressão, alto volume de clientes, metas e conflitos interpessoais. Isso pode levar a altos níveis de estresse e ansiedade, impactando a saúde mental e a produtividade dos funcionários. Pequenas ações podem ajudar a melhorar o ambiente e tornar o trabalho mais leve.

3. Público-alvo

Funcionários do supermercado: operadores de caixa, fiscais de caixa, empacotadores, repositores e equipe administrativa.

4. Ações do Projeto

🔹 1. Rodas de Conversa "Descompressão no Trabalho" (Quinzenal)

Sessões de 20 a 30 minutos antes ou após o expediente para que os funcionários possam expressar dificuldades, compartilhar experiências e receber orientações sobre estresse e ansiedade no trabalho.
📍 Tema da primeira roda: "Como lidar com clientes difíceis sem se sobrecarregar emocionalmente?"

🔹 2. Comunicação Positiva no Ambiente de Trabalho

  • Criar um "Painel da Gratidão" onde os funcionários podem escrever mensagens positivas para os colegas.
  • Implementar o "Minuto do Reconhecimento", onde os supervisores destacam bons desempenhos e atitudes colaborativas no início do turno.

🔹 3. Técnicas de Relaxamento Rápido (Diário)

Disponibilizar orientações para os funcionários sobre técnicas simples para reduzir o estresse em poucos minutos, como:
✔️ Respiração 4-7-8: Inspirar por 4 segundos, segurar o ar por 7 segundos e expirar por 8 segundos.
✔️ Exercício de ancoragem: Observar 5 coisas ao redor, ouvir 4 sons, tocar 3 objetos, cheirar 2 aromas e perceber 1 gosto.

🔹 4. Caixa de Sugestões Anônimas

Criar um espaço onde os funcionários possam sugerir melhorias para o ambiente de trabalho ou relatar dificuldades. Os feedbacks serão analisados e discutidos nas rodas de conversa.

5. Recursos Necessários

📌 Um espaço tranquilo para as rodas de conversa.
📌 Um quadro ou mural para o Painel da Gratidão.
📌 Um pequeno bloco de anotações para cada funcionário (opcional).

6. Resultados Esperados

✔️ Redução do estresse e ansiedade entre os funcionários.
✔️ Melhoria na comunicação e clima organizacional.
✔️ Maior engajamento e satisfação no trabalho.
✔️ Aumento da colaboração entre os colegas.

Este projeto pode ser implementado de forma simples e eficaz, aproveitando momentos de pausa e fortalecendo o ambiente de trabalho sem custos elevados.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

A Fila como Sintoma Organizacional: Defesa Institucional, Ruptura do Contrato Psicológico e Falha na Proposta de Valor ao Empregado

  Resumo Este artigo analisa, à luz da Psicologia Organizacional e da Psicodinâmica do Trabalho, uma cena cotidiana: um cliente questiona a escassez de operadores de caixa; a fiscal responde que “as pessoas não querem trabalhar”. Argumenta-se que a fila constitui um sintoma organizacional, cuja etiologia reside menos na “falta de vontade” individual e mais na ruptura do contrato psicológico, na fragilidade da proposta de valor ao empregado (EVP) e em mecanismos defensivos institucionais. A análise integra aportes de Denise Rousseau, Christophe Dejours, Edgar Schein, Frederick Herzberg e John W. Meyer & Brian Rowan, articulando níveis manifesto e latente do discurso organizacional. 1. Introdução: do evento banal ao fenômeno estrutural A cena é simples: fila extensa; poucos caixas abertos; cliente insatisfeito; resposta defensiva da fiscal. Contudo, como em toda formação sintomática, o que aparece (escassez operacional) remete a determinantes estruturais (políticas de...

O luto da forma antiga de existir profissionalmente

  Psicanálise, desejo, função e travessia subjetiva entre sobrevivência e inscrição institucional Introdução Na experiência contemporânea do trabalho, não é raro que o sujeito se encontre dividido entre a sobrevivência material e o desejo de uma função simbólica que dê consistência à sua existência. A psicanálise permite compreender que o sofrimento ligado ao trabalho não se reduz à precariedade econômica, mas toca diretamente a questão do lugar subjetivo: aquilo que nomeia o sujeito no laço social. O caso aqui articulado é o de um sujeito que exerce há anos a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas cujo desejo se orienta para uma inscrição como psicólogo institucional. Entretanto, esse lugar desejado não se encontra acessível no presente, e a clínica exercida nas folgas surge como um resto marginal e sacrificial. O sonho relatado — uma mensagem sobre como atravessar o luto, sem nomear o objeto perdido — aparece como forma privilegiada de expressão do inconsci...

Não Dá Mais: uma leitura psicanalítica da permanência no sofrimento

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a permanência de um sujeito em um contexto laboral exaustivo e insustentável. A partir das contribuições de Freud, Winnicott e Lacan, discute-se como a compulsão à repetição, a ორგანიზ ação do falso self e a dimensão do gozo sustentam a manutenção do sofrimento, mesmo diante da consciência de seus efeitos devastadores. 1. Introdução A frase “não dá mais” marca um ponto de ruptura. No entanto, paradoxalmente, nem sempre ela conduz à saída. Em muitos casos, o sujeito permanece exatamente onde já reconheceu ser insuportável. O caso do fiscal psicólogo ilustra essa condição: jornadas extensas, sobrecarga física, privação de sono e ausência de perspectiva de mudança. Ainda assim, há permanência. A psicanálise permite compreender que essa permanência não é simplesmente racional — ela é estruturada. 2. A compulsão à repetição Segundo Sigmund Freud (1920/2010), o sujeito é levado a repetir experiências que não fo...

Recrutamento & Seleção Teste Avaliação Perfil Profissional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. Existem diversas ferramentas e testes psicológicos que podem ser utilizados para avaliar o perfil de um operador de caixa de supermercado. Algumas das possibilidades exemplo, Inventário de Personalidade NEO-FFI: este teste avalia cinco grandes dimensões da personalidade [neuroticismo, extroversão, abertura, amabilidade e conscienciosidade] e pode ser útil para verificar quais traços são mais comuns em candidatos a operadores de caixa. Teste Palográfico: este teste avalia a personalidade a partir da interpretação de desenhos feitos pelo candidato. Ele pode ajudar a entender aspectos como dinamismo, estabilidade emocional, concentração e outros traços relevantes para a função. Teste H.T.P – [CASA, ÁRVORE, PESSOA] Buck (2003), define o H.T.P, como um teste projetivo que serve para obter informações de como uma pessoa experiência a sua individualidade em rel...

A Reinscrição Compulsiva no Trabalho de Supermercado e a Possibilidade de Ruptura: uma análise psicossocial, psicanalítica e crítica do cotidiano laboral

  Resumo O presente artigo analisa o fenômeno da reinscrição compulsiva no trabalho cotidiano, tomando como referência o contexto de um psicólogo inserido na função de fiscal de caixa em supermercado. A investigação articula conceitos da psicanálise, psicologia social e teorias críticas do trabalho contemporâneo, destacando a compulsão à repetição, a alienação no campo do Outro e a internalização da lógica neoliberal. Parte-se da hipótese de que a permanência no trabalho, mesmo sob sofrimento psíquico, é sustentada por mecanismos subjetivos e estruturais que capturam o sujeito em um ciclo de reinscrição diária. Conclui-se que a ruptura desse ciclo não se reduz a uma decisão individual, mas exige uma reorganização subjetiva e condições materiais que permitam a emergência do desejo. Palavras-chave: compulsão à repetição; trabalho; subjetividade; neoliberalismo; sofrimento psíquico. 1. Introdução O cotidiano laboral contemporâneo, especialmente em contextos operacionais...

Facilite O Reconhecimento Das Projeções

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Um psicólogo trabalha num supermercado na ocupação de operador de caixa e observa que os colaboradores têm comportamentos de bullying. O psicólogo pensa em fazer uma intervenção no comportamento dos colaboradores, mas não faz nada porquê os colaboradores não sabem que além de operador de caixa ele tem formação em psicologia. E talvez se der a conhecer para os colaboradores que é psicólogo corre o risco de não ser levado a sério no momento de propor as intervenções. A psicanálise sugere que os comportamentos têm raízes inconscientes e que a compreensão dessas dinâmicas pode levar a mudanças significativas. No entanto, a abordagem psicanalítica também valoriza a importância da transferência e da relação terapêutica, o que pode complicar a situação do operador de caixa que é psicólogo oculto. Dado que os colaboradores do supermercado não estão cientes da f...

Quando o Campo Fora do Mapa Escolhe: o Espelhamento Estrutural para o Psicólogo

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, um episódio aparentemente simples do mundo do trabalho — a contratação por uma instituição fora do circuito conhecido — como operador de um espelhamento estrutural para o psicólogo em transição profissional. Sustenta-se que o sofrimento repetido não decorre de incapacidade subjetiva, mas da insistência em acessar apenas campos simbólicos já nomeados e reconhecidos. O texto discute como a ruptura com o “campo conhecido” desvela limites da percepção, desmonta a compulsão à repetição e possibilita uma leitura mais lúcida da relação entre sujeito, saber e instituição, sem produzir novas ilusões. 1. Introdução: quando o fracasso não é pessoal Na experiência do trabalho e da inserção institucional, muitos sujeitos interpretam a ausência de reconhecimento como falha individual. A repetição de recusas tende a ser vivida como prova de inadequação ou insuficiência. Contudo, do ponto de vista psicanalítico, é preciso interrogar n...

O Psicólogo que se inscreve todos os dias no ambiente de supermercado: uma análise psicossocial e psicanalítica da alienação no trabalho contemporâneo

  Resumo O presente artigo investiga o fenômeno da reinscrição subjetiva cotidiana no ambiente de trabalho, a partir do caso de um psicólogo que atua como fiscal de caixa em um supermercado. Analisa-se, sob a ótica da psicologia social e da psicanálise, o conflito entre identidade profissional e função exercida, destacando os processos de alienação, formação de falso self e captura no campo do Outro. A pesquisa, de natureza teórica, fundamenta-se em autores como Christophe Dejours, Jacques Lacan, Donald Winnicott e Erving Goffman. Conclui-se que a permanência no trabalho, mesmo após o desligamento emocional, está associada à necessidade de reconhecimento simbólico e sobrevivência material, configurando um estado de sofrimento psíquico silencioso. Palavras-chave: subjetividade; trabalho; alienação; falso self; psicologia social. 1. Introdução O trabalho, na contemporaneidade, ultrapassa sua função econômica, constituindo-se como um dos principais organizadores da iden...

O PSICÓLOGO QUE SE INSCREVE TODOS OS DIAS NO AMBIENTE DE SUPERMERCADO: PRECARIZAÇÃO, NEOLIBERALISMO E SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno da reinscrição subjetiva cotidiana no trabalho, a partir de um caso-tipo de um psicólogo inserido em função operacional no varejo. O estudo articula psicologia social, psicanálise e teorias contemporâneas sobre neoliberalismo com dados empíricos do contexto brasileiro. Parte-se da hipótese de que a permanência em contextos de sofrimento psíquico não se reduz à dimensão individual, sendo sustentada por precarização estrutural e pela internalização da lógica de desempenho. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza teórica, baseada em revisão bibliográfica e análise interpretativa. O referencial inclui Christophe Dejours, Jacques Lacan, Byung-Chul Han e Pierre Dardot. Conclui-se que a reinscrição cotidiana no trabalho é efeito de uma racionalidade que transforma o sujeito em gestor de si, intensificando o sofrimento psíquico. Palavras-chave: trabalho; subjetividade; burnout; neoliberalismo; precarização. Abstract This artic...

Por que o campo da psicologia não responde?

  Compulsão à repetição, nomes legitimados e a ilusão de autorização institucional Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por psicólogos que, mesmo munidos de formação, experiência e saber clínico, não encontram resposta do campo institucional. Argumenta-se que tal silêncio não se explica apenas por fatores mercadológicos ou etários, mas pela repetição inconsciente de um modo específico de busca: a insistência em instituições já nomeadas, reconhecidas e validadas no inconsciente do sujeito como detentoras do poder de autorização. Essa repetição sustenta uma esperança ilusória de reconhecimento e impede a emergência de outras formas de laço com o campo. O texto articula compulsão à repetição, ideal do eu, reconhecimento simbólico e estrutura institucional. 1. Introdução: o silêncio do campo não é neutro Quando o campo da psicologia não responde, a tendência imediata é interpretar o silêncio como rejeição pessoal, incompetência ou falha indiv...