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 O adoecimento corporal no ambiente de trabalho nem sempre pode ser compreendido apenas por sua dimensão orgânica. A psicanálise e a psicossomática propõem uma leitura mais ampla do sintoma, entendendo o corpo como espaço de inscrição do sofrimento psíquico, especialmente quando o sujeito permanece submetido a tensões emocionais prolongadas, conflitos identitários e exigências adaptativas excessivas.

No contexto do supermercado, o caso do fiscal de caixa que também é psicólogo torna-se particularmente significativo. Trata-se de um sujeito dividido entre duas posições simbólicas: externamente ocupa uma função operacional e de vigilância; internamente, identifica-se com um desejo de reconhecimento ligado à área da psicologia e dos recursos humanos. Essa coexistência de lugares subjetivos produz tensão contínua, desgaste emocional e sensação de suspensão identitária.

Segundo Freud, “o ego é прежде de tudo um ego corporal” (Freud, 1923/1996). O corpo, portanto, não é apenas biológico; ele participa diretamente da vida psíquica. Quando o sujeito não consegue simbolizar suficientemente suas angústias, o sofrimento pode deslocar-se para o organismo.

A rouquidão e a perda da voz aparecem, nesse cenário, como sintomas extremamente simbólicos. A voz representa expressão subjetiva, reconhecimento e possibilidade de ser ouvido pelo outro. Quando ela enfraquece, o corpo parece encenar uma dificuldade psíquica relacionada à fala, ao posicionamento e ao desejo.

Na perspectiva psicanalítica, a perda de voz pode indicar:

  • contenção emocional prolongada;
  • fadiga narcísica;
  • sensação inconsciente de não reconhecimento;
  • esgotamento decorrente do excesso de autocontrole;
  • e conflito entre aquilo que o sujeito deseja dizer e aquilo que acredita não poder expressar.

O fiscal psicólogo vive permanentemente em estado de vigilância emocional. O ambiente supermercadista exige controle, observação constante, tolerância ao estresse e adaptação contínua às cobranças organizacionais. Dejours afirma que o sofrimento no trabalho emerge quando existe um distanciamento entre a subjetividade do trabalhador e as exigências da organização laboral (Dejours, 1992).

Nesse caso, o sujeito parece já não encontrar identificação plena com a função de fiscal. Entretanto, também não recebeu ainda reconhecimento simbólico para ocupar outro lugar profissional. Surge então uma condição de “entre-lugares”, marcada pela espera, silêncio institucional e insegurança quanto ao futuro.

Essa permanência prolongada em suspensão subjetiva produz desgaste psíquico importante. O sujeito tenta suportar a ansiedade da incerteza, mantendo funcionamento adaptativo elevado. Contudo, o corpo começa a demonstrar sinais de saturação emocional.

O resfriado, psicossomaticamente, pode ser compreendido como queda das defesas orgânicas associada ao esgotamento emocional. McDougall (1996) observa que muitos adoecimentos corporais surgem quando o aparelho psíquico encontra dificuldade em elaborar afetos intensos. O corpo passa então a expressar aquilo que não pôde ser simbolizado adequadamente.

Os sintomas respiratórios frequentemente aparecem ligados a:

  • excesso de tensão interna;
  • estados prolongados de adaptação;
  • sentimentos sufocados;
  • necessidade inconsciente de pausa;
  • desgaste emocional crônico.

A expectoração de catarro, especialmente quando intensa, também pode adquirir significado psicossomático. Simbolicamente, o organismo parece tentar expulsar algo acumulado internamente. Não se trata de atribuir significados fixos às secreções corporais, mas compreender que o adoecimento ocorre em uma totalidade biopsíquica.

A garganta possui forte valor simbólico porque representa a passagem entre interior e exterior. Aquilo que o sujeito não consegue elaborar psiquicamente pode aparecer justamente nesse território corporal da fala e da respiração.

Winnicott (1975) afirma que o indivíduo saudável é aquele capaz de sentir-se real e espontâneo em sua experiência subjetiva. No caso do fiscal psicólogo, parece haver uma ruptura parcial dessa espontaneidade, substituída por excesso de adaptação ao ambiente organizacional. O sujeito suporta, espera e tolera, mas progressivamente perde vitalidade emocional.

O sintoma então assume dupla função:

1.     Expressa sofrimento psíquico;

2.     Obriga o sujeito a interromper temporariamente a lógica excessiva de adaptação.

O corpo realiza aquilo que conscientemente talvez o indivíduo não consiga autorizar:

  • descansar;
  • retirar-se parcialmente das cobranças;
  • diminuir o ritmo;
  • silenciar.

Do ponto de vista relacional, os sintomas também transformam a forma como o sujeito é percebido socialmente. A rouquidão, o abatimento e o estado gripal comunicam fragilidade, exaustão e redução da potência subjetiva. Mesmo quando colegas interpretam apenas biologicamente o adoecimento, o corpo produz efeitos simbólicos na cena social.

O fiscal psicólogo passa a ser visto como:

  • cansado;
  • emocionalmente sobrecarregado;
  • silencioso;
  • menos energético;
  • ou atravessando um momento difícil.

A doença altera a presença subjetiva do indivíduo no ambiente de trabalho. O corpo torna-se linguagem visível do sofrimento emocional.

Na psicossomática psicanalítica, não existe separação absoluta entre mente e organismo. Marty (1993) descreve que determinados sujeitos, submetidos a sobrecargas emocionais prolongadas, podem apresentar descarga corporal do sofrimento quando o psiquismo não consegue simbolizar adequadamente as tensões vividas.

Assim, o resfriado e a perda de voz do fiscal psicólogo não devem ser reduzidos apenas a um evento infeccioso isolado. Eles podem representar:

  • fadiga emocional acumulada;
  • crise identitária profissional;
  • excesso de adaptação organizacional;
  • sofrimento silencioso;
  • necessidade inconsciente de recolhimento;
  • e tensão entre desejo subjetivo e reconhecimento institucional.

O corpo, nesse contexto, deixa de ser apenas organismo biológico e transforma-se em palco onde o sofrimento psíquico encontra possibilidade de expressão.

Referências bibliográficas

  • Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez.
  • Freud, S. (1996). O ego e o id (1923). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
  • Marty, P. (1993). A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas.
  • McDougall, J. (1996). Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.
  • Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

 

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