Resumo
Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da série A Reprovado como
um espelho simbólico da posição subjetiva de um psicólogo que atua como fiscal
em um supermercado. A análise articula conceitos fundamentais da psicanálise —
como identificação, ideal do eu, supereu, repetição e desejo — para compreender
como o significante “reprovado” organiza a experiência psíquica e sustenta uma
dinâmica de sofrimento, estagnação e, paradoxalmente, manutenção do desejo.
1. Introdução
A
experiência de “fracasso” raramente se limita ao campo objetivo (uma
reprovação, uma não inserção profissional). Na psicanálise, ela pode adquirir
estatuto estrutural, passando a organizar a identidade do sujeito. A
série A Reprovado opera, nesse contexto, como um dispositivo
de identificação: não apenas representa o fracasso, mas o reinscreve
simbolicamente para quem a assiste.
No
caso do psicólogo que trabalha como fiscal de supermercado, a narrativa não é
externa — ela ressoa diretamente em sua economia psíquica, atualizando
conflitos entre o que ele é e o que idealizou ser.
2. O significante “reprovado” e
a captura do sujeito
Para Jacques
Lacan, o sujeito é estruturado pela linguagem. O termo “reprovado” deixa de ser
um evento e passa a funcionar como um significante mestre que organiza a
identidade. O indivíduo não apenas “foi reprovado”; ele passa a “ser o
reprovado”.
Essa
operação implica uma captura simbólica:
“O
significante representa o sujeito para outro significante” (Lacan, 1966).
No
caso analisado, o psicólogo internaliza essa marca e passa a interpretar sua
trajetória profissional sob esse eixo, reduzindo a complexidade de sua história
a uma narrativa de falha.
3. Identificação e retorno do
recalcado
Ao
assistir à série, ocorre um processo de identificação com personagens que
encarnam trajetórias interrompidas. Essa identificação não é consciente e
linear; ela mobiliza conteúdos recalcados — frustrações, ideais abandonados,
desejos não realizados.
Segundo Sigmund
Freud (1915/2010), o recalcado não desaparece, mas retorna sob forma
disfarçada. O incômodo ou a familiaridade ao assistir à série indicam esse
retorno. Não se trata apenas de empatia narrativa, mas de reativação de
conflitos psíquicos.
4. Ideal do Eu e clivagem
subjetiva
A
distância entre o Ideal do Eu (ser psicólogo atuante, reconhecido) e o Eu atual
(fiscal de supermercado) produz uma clivagem. Essa discrepância intensifica
afetos como vergonha, culpa e inadequação.
Freud
(1923/2011) descreve o Ideal do Eu como uma instância que orienta e julga o
sujeito. Quando o sujeito se percebe distante desse ideal, emerge sofrimento
psíquico significativo. A série dramatiza essa distância, tornando-a mais
visível e, portanto, mais dolorosa.
5. Supereu punitivo e
paralisação
O
supereu, longe de ser apenas uma instância moral reguladora, pode assumir um
caráter punitivo e cruel. No caso em questão, ele se manifesta por meio de um
discurso interno acusatório: “você não conseguiu”, “você falhou”.
Esse
supereu não mobiliza ação; ele paralisa. Como aponta Freud (1923), quanto mais
o sujeito se submete às exigências superegóicas, mais culpado se sente. A série
pode reforçar esse circuito ao reiterar narrativas de fracasso.
6. Compulsão à repetição e gozo
A
permanência na posição de “reprovado” não é apenas passiva. Há uma dimensão de
repetição que sustenta essa posição. O sujeito repete, de diferentes formas, a
cena do fracasso — seja na manutenção de um trabalho que não corresponde ao seu
desejo, seja no consumo de narrativas que reafirmam essa identidade.
Freud
(1920/2010) descreve a compulsão à repetição como uma tendência a reviver
experiências dolorosas. Lacan posteriormente articula isso ao conceito de gozo:
há uma satisfação paradoxal implicada na repetição do sofrimento.
7. O desejo que insiste
Apesar
do discurso de desistência, o desejo não desaparece. Ele se manifesta
justamente no incômodo. Se a série afeta, é porque há investimento libidinal. O
desejo de atuar como psicólogo não está extinto — está recalcado, deslocado ou
inibido.
Lacan
(1964/2008) afirma que o desejo é indestrutível. Ele pode ser negado, mas não
eliminado. Nesse sentido, o sofrimento do sujeito é também um indicativo de que
algo ainda insiste.
8. O supermercado como posição
subjetiva
O
trabalho como fiscal não é apenas uma condição econômica; ele adquire um valor
simbólico de estagnação. O sujeito não apenas está ali — ele se percebe preso
ali. O espaço funciona como cenário de suspensão do desejo, onde a ação parece
inviável.
Essa
leitura desloca a análise de uma questão objetiva (“trocar de emprego”) para
uma questão estrutural: a posição subjetiva que sustenta essa permanência.
9. Considerações finais
A
série A Reprovado funciona, para o psicólogo analisado, como
um espelho que revela sua posição subjetiva: identificado ao fracasso, dividido
entre ideal e realidade, capturado por um supereu punitivo e inserido em uma
dinâmica de repetição.
No
entanto, esse mesmo espelho evidencia algo crucial: o desejo não desapareceu.
Ele se manifesta no incômodo, na identificação, na insistência afetiva. É
justamente nesse ponto — onde há sofrimento — que também reside a possibilidade
de deslocamento.
Referências Bibliográficas
- Freud, S.
(1920/2010). Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia
das Letras.
- Freud, S.
(1923/2011). O ego e o id. São Paulo: Companhia das Letras.
- Freud, S.
(1915/2010). Recalque. In: Obras completas. São Paulo:
Companhia das Letras.
- Lacan, J.
(1966/1998). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
- Lacan, J.
(1964/2008). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
- Goffman, E.
(1963/1988). Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade
deteriorada. Rio de Janeiro: LTC.
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