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Entre a Sobrevivência e a Falta: Uma Leitura Psicanalítica e Institucional do Sofrimento Identitário de um Fiscal de Caixa com Formação em Psicologia Organizacional

 O presente artigo propõe uma reflexão psicodinâmica e institucional acerca do sofrimento psíquico de um sujeito com formação em psicologia que atua operacionalmente como fiscal de caixa em um supermercado e participa de um processo seletivo interno para a função de assistente de Recursos Humanos generalista. A análise articula conceitos da psicanálise, psicologia organizacional e análise institucional para compreender os conflitos subjetivos envolvidos entre identidade profissional, reconhecimento simbólico, adaptação ocupacional e desejo de transformação humana dentro das organizações.

A ruptura entre identidade profissional e função exercida

O sujeito em questão possui formação em psicologia e conhecimentos em psicologia organizacional, contudo encontra-se inserido há anos em funções operacionais como operador e posteriormente fiscal de caixa. Tal realidade produz um conflito identitário profundo, pois existe uma discrepância entre:

  • aquilo que o sujeito compreende como sua vocação subjetiva;
  • e o lugar institucional concretamente ocupado.

Segundo Donald Winnicott (1975), o indivíduo necessita de ambientes suficientemente bons para expressar espontaneidade, criatividade e autenticidade do self. Quando o ambiente exige adaptações excessivas e permanentes, pode surgir um funcionamento defensivo baseado na contenção do verdadeiro self em favor da adaptação social.

Nesse caso, o sujeito parece ter desenvolvido uma adaptação ocupacional defensiva:

  • primeiro como operador de caixa;
  • posteriormente como fiscal de caixa;
  • e agora talvez novamente como assistente de RH operacional.

O problema central não reside apenas na função exercida, mas no contínuo afastamento simbólico da identidade de psicólogo organizacional.

O trabalho como espaço de reconhecimento simbólico

O sofrimento relatado não pode ser reduzido apenas ao desgaste operacional da função de fiscal de caixa. O sujeito descreve:

  • sensação de injustiça institucional;
  • sobrecarga emocional;
  • esgotamento subjetivo;
  • perda motivacional;
  • e impactos inclusive na disposição para treinar na academia.

O trabalho, conforme argumenta Sigmund Freud (1930/2010), ocupa papel central na economia psíquica do sujeito, funcionando não apenas como meio de sobrevivência, mas também como fonte de reconhecimento narcísico, pertencimento social e investimento libidinal.

Quando o ambiente ocupacional não oferece reconhecimento simbólico minimamente compatível com a identidade construída pelo sujeito, pode ocorrer:

  • enfraquecimento da autoestima;
  • sensação de aprisionamento;
  • perda de vitalidade;
  • e sofrimento existencial.

O sujeito não parece desejar apenas “mudar de setor”. O desejo mais profundo parece ser:

  • atuar como agente de transformação humana;
  • realizar escuta institucional;
  • desenvolver lideranças;
  • trabalhar competências socioemocionais;
  • auxiliar colaboradores;
  • e promover mudanças organizacionais através da psicologia.

O RH como espaço intermediário e não como realização plena

A possibilidade de promoção para assistente de RH surge simultaneamente como:

  • esperança;
  • alívio;
  • sobrevivência psíquica;
  • e continuação parcial da renúncia identitária.

O sujeito parece compreender que, mesmo ocupando o RH, dificilmente poderá exercer plenamente a psicologia organizacional, pois:

  • não existe cargo formal de psicólogo organizacional;
  • o RH aparenta funcionar predominantemente de maneira operacional;
  • e a cultura institucional parece pouco aberta à atuação psicológica mais ampla.

Dessa forma, o RH assume função de “ponte”:

  • afastando o sujeito do sofrimento intenso da função de fiscal;
  • mas sem permitir integração plena entre identidade profissional e prática institucional.

Na perspectiva de Carl Gustav Jung (2013), o sujeito atravessa um conflito entre individuação e adaptação coletiva. Internamente existe movimento em direção à autenticidade e significado; externamente existe exigência de adaptação funcional à estrutura organizacional existente.

O sujeito percebe que, mesmo mais próximo da psicologia:

  • continuará limitado operacionalmente;
  • não terá autonomia clínica-institucional;
  • e talvez precise manter silenciosamente suas compreensões psicológicas sobre o ambiente.

O sofrimento da não legitimação institucional

Um dos pontos centrais da análise é a experiência de não legitimação simbólica. O sujeito sente que:

  • possui saberes;
  • possui formação;
  • compreende fenômenos organizacionais;
  • mas não encontra lugar institucional para expressão legítima desse conhecimento.

Na teoria lacaniana, a noção de falta ocupa lugar estrutural na constituição do sujeito. Para Jacques Lacan (1998), o desejo humano está permanentemente atravessado pela busca de reconhecimento no campo do Outro simbólico.

Nesse contexto, a organização funciona como esse “Outro institucional” que:

  • reconhece determinadas identidades;
  • valida certas funções;
  • e exclui outras possibilidades subjetivas.

O sofrimento do sujeito parece emergir justamente da percepção de que:

  • mesmo sendo psicólogo;
  • talvez nunca possa existir plenamente como tal naquele ambiente organizacional.

Isso produz sensação de:

  • identidade suspensa;
  • existência profissional incompleta;
  • e apagamento simbólico parcial.

Sonhos, atos falhos e ansiedade antecipatória

Ao longo do processo seletivo interno, o sujeito relata:

  • sonhos fragmentados;
  • esquecimentos oníricos;
  • atos falhos;
  • interpretações simbólicas;
  • e intensa ruminação psicológica acerca da promoção.

Na perspectiva freudiana, o esquecimento do sonho pode ser compreendido como resistência psíquica. O conteúdo onírico, embora produzido pelo inconsciente, talvez carregue ansiedade suficiente para impedir sua recordação consciente.

Além disso, o sujeito parece desenvolver ansiedade antecipatória relacionada à possibilidade de rejeição institucional. Surge então o medo:

  • de não ser reconhecido;
  • de perder a vaga;
  • ou de perceber que a organização não possui espaço para aquilo que ele representa subjetivamente.

Ao mesmo tempo, o sujeito também percebe movimentos ambivalentes no ambiente:

  • reconhecimento tácito de sua formação;
  • mudanças simbólicas;
  • sinais institucionais ambíguos;
  • e possível circulação inconsciente da ideia de sua transição para o RH.

Considerações finais

A análise apresentada demonstra que o conflito vivido pelo sujeito ultrapassa amplamente a dimensão objetiva de um processo seletivo interno. O que está em jogo é:

  • identidade;
  • pertencimento;
  • reconhecimento;
  • autenticidade profissional;
  • e sentido existencial do trabalho.

A promoção para assistente de RH pode representar:

  • diminuição do sofrimento atual;
  • reorganização subjetiva;
  • e aproximação parcial da identidade desejada.

Contudo, ela talvez não elimine a experiência de falta simbólica, pois o sujeito percebe que continuará sem legitimidade institucional para exercer plenamente a psicologia organizacional dentro da estrutura do supermercado.

O caso revela uma tensão frequente nas organizações contemporâneas:

  • sujeitos com forte investimento identitário em áreas humanas;
  • inseridos em estruturas predominantemente operacionais e pragmáticas;
  • onde o saber psicológico frequentemente permanece silenciado, adaptado ou reduzido à funcionalidade administrativa.

O sofrimento central parece residir justamente nesse desencontro:
o sujeito sabe quem é subjetivamente, mas ainda não encontrou um espaço institucional onde possa existir plenamente dessa maneira.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2013.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

BLEGER, José. Psicologia institucional. Porto Alegre: Artmed, 1984.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.

SCHEIN, Edgar. Psicologia organizacional. Rio de Janeiro: Prentice-Hall, 1982.

 

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