Pular para o conteúdo principal

O psicólogo existe apenas no pensamento, mas o fiscal de caixa domina na ação

 Resumo

Este artigo analisa, sob as lentes da psicanálise, psicologia social e psicologia organizacional, o conflito entre identidade desejada e posição ocupada na realidade concreta de trabalho. A partir de uma leitura articulada de dinâmicas simbólicas, estruturais e comportamentais, discute-se como o sujeito pode sustentar um ideal profissional no plano do pensamento enquanto permanece, na prática, reproduzindo padrões que o mantêm em uma função operacional. O fenômeno é interpretado como uma combinação de dependência estrutural, evitação de risco, ganhos secundários inconscientes e ausência de ação estratégica.


1. Introdução

É comum, em contextos de trabalho operacional, encontrar sujeitos que apresentam alto nível de reflexão sobre si mesmos, clareza sobre seus desejos e capacidade analítica desenvolvida — mas que permanecem, por longos períodos, em posições que não correspondem ao seu projeto identitário.

Esse descompasso pode ser sintetizado na seguinte formulação:

o psicólogo existe como representação psíquica, mas o fiscal de caixa é quem opera na realidade.

A questão central, portanto, não é a ausência de consciência, mas a ausência de deslocamento comportamental consistente.


2. A perspectiva da psicologia social

Sob a ótica da psicologia social, o comportamento do indivíduo é fortemente influenciado por estruturas de poder, normas implícitas e dependência econômica.

2.1 Assimetria de poder e conformidade

Ambientes organizacionais operacionais são caracterizados por hierarquias rígidas, nas quais o controle de recursos (salário, estabilidade) limita a autonomia do trabalhador. Isso favorece a conformidade normativa (Cialdini & Goldstein, 2004), onde o indivíduo mantém comportamentos alinhados ao sistema mesmo quando há desconforto interno.

2.2 Frustração e deslocamento

A impossibilidade percebida de mudança gera frustração crônica. Segundo a hipótese frustração-agressão (Dollard et al., 1939), essa tensão pode ser deslocada para:

  • fantasia
  • queixa
  • ruminação

Em vez de ação efetiva.


3. A leitura psicanalítica

A psicanálise aprofunda o problema ao deslocar o foco da estrutura externa para a posição subjetiva do indivíduo.

3.1 O conflito entre desejo e lei

O sujeito se encontra dividido entre:

  • o desejo (ser psicólogo)
  • a lei simbólica (função atual, estabilidade, regras institucionais)

Essa tensão, conforme Freud (1923), é constitutiva do funcionamento psíquico.

3.2 O sintoma como compromisso

A permanência em um trabalho desalinhado pode ser compreendida como sintoma:

uma formação de compromisso entre desejo e defesa

O sujeito sofre, mas permanece.

3.3 Ganho secundário

Freud (1926) aponta que todo sintoma traz benefícios inconscientes. No caso analisado:

  • evitação do fracasso real
  • manutenção de identidade em potencial
  • proteção contra exposição e julgamento

Ou seja:

não agir preserva a fantasia de capacidade.

3.4 O conceito de gozo

Lacan (1975) introduz a noção de gozo como repetição de um padrão que não é prazeroso, mas estruturalmente fixado. Permanecer na posição de “quem ainda não conseguiu” pode oferecer uma estabilidade psíquica paradoxal.


4. Psicologia organizacional: estrutura e desalinhamento

A psicologia organizacional permite compreender como o ambiente reforça essa permanência.

4.1 Person-Job Fit

Segundo Kristof-Brown et al. (2005), o alinhamento entre características do indivíduo e demandas do trabalho é fundamental para engajamento.

No caso em análise:

  • perfil analítico, clínico
  • função operacional, repetitiva

Resultado:

baixo ajuste pessoa–cargo.

4.2 Modelo Demanda–Controle

Karasek (1979) demonstra que trabalhos com:

  • alta demanda
  • baixo controle

geram maior estresse e menor percepção de autonomia.

4.3 Entrapment (aprisionamento percebido)

O indivíduo passa a perceber ausência de alternativas, mesmo quando existem possibilidades externas. Isso reduz a iniciativa e reforça a inércia comportamental.


5. O erro central: consciência sem ação

A articulação das três abordagens revela um ponto crítico:

o sujeito já compreendeu sua situação, mas não reorganizou seu comportamento.

Esse fenômeno pode ser descrito como:

  • alta elaboração cognitiva
  • baixa execução prática

A reflexão, nesse caso, passa a funcionar como substituto da ação.


6. A identidade dividida: pensar vs agir

A divisão central pode ser estruturada da seguinte forma:

Dimensão

Psicólogo (pensamento)

Fiscal (ação)

Espaço

interno

externo

Forma

reflexão

execução

Risco

inexistente

real

Validação

imaginária

concreta

O problema não está em possuir ambas as dimensões, mas em sua dissociação.


7. A travessia necessária

Do ponto de vista clínico e comportamental, a mudança exige:

7.1 Assunção do desejo

O desejo precisa deixar de ser contemplado e passar a ser sustentado em atos.

7.2 Introdução de risco controlado

A transição ocorre por:

  • pequenas ações
  • exposição progressiva
  • tolerância ao desconforto

7.3 Construção de realidade paralela

Antes da mudança formal de função, é necessário:

  • operar parcialmente na nova identidade
  • produzir experiências concretas

8. Discussão

A permanência em funções desalinhadas não pode ser explicada apenas por fatores externos. Trata-se de uma interação entre:

  • estrutura organizacional limitante
  • mecanismos psíquicos de defesa
  • ausência de estratégia comportamental

A mudança exige não apenas compreensão, mas reorganização prática da relação do sujeito com seu próprio desejo.


9. Conclusão

A frase que intitula este artigo sintetiza um fenômeno recorrente:

o psicólogo existe apenas no pensamento, mas o fiscal de caixa domina na ação.

Superar essa divisão implica deslocar o eixo da existência do plano imaginário para o plano prático.

Enquanto o desejo não se traduz em comportamento, ele permanece como possibilidade — não como realidade.


Referências

Cialdini, R. B., & Goldstein, N. J. (2004). Social influence: Compliance and conformity. Annual Review of Psychology, 55, 591–621.

Dollard, J., Doob, L., Miller, N., Mowrer, O., & Sears, R. (1939). Frustration and aggression. Yale University Press.

Freud, S. (1923). O ego e o id.
Freud, S. (1926). Inibição, sintoma e angústia.

Karasek, R. A. (1979). Job demands, job decision latitude, and mental strain. Administrative Science Quarterly, 24(2), 285–308.

Kristof-Brown, A. L., Zimmerman, R. D., & Johnson, E. C. (2005). Consequences of individuals’ fit at work. Personnel Psychology, 58(2), 281–342.

Lacan, J. (1975). Seminário, Livro 20: Mais, ainda.

Bandura, A. (1999). Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, 3(3), 193–209.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Entre - Lugar

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O que é o entre - lugar que as vezes nos encontramos em algumas situações. Construa um texto citando como exemplo um indivíduo que está no entre lugar através da psicologia social para ser gravado no Ainda sou podcast pelo host psicólogo Ayrton Júnior adaptado na linguagem assertiva informativa e que movimentos o sujeito realizar para demover se do entre lugar para ocupar na realidade o lugar que lhe pertence por direito Abaixo está um texto adaptado para ser lido no seu podcast "Ainda Sou" , com linguagem assertiva e informativa, fundamentado na psicologia social , explicando o conceito de entre-lugar e como o sujeito pode sair dessa posição ambígua e retomar o seu lugar legítimo na realidade: 🎙️ AINDA SOU — por Ayrton Júnior Hoje, vamos falar sobre um conceito muito presente nas experiências humanas, mas pouco nomeado: o entre-...

Desejo, Frustração e Narcisismos Nas Relações Virtuais

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um indivíduo está utilizando um aplicativo de relacionamento e se vê preso a uma dinâmica repetitiva: deseja mulheres que não o desejam e rejeita aquelas que demonstram interesse por ele. Essa experiência, embora comum, revela aspectos profundos da estrutura psíquica do sujeito, especialmente sob a ótica da psicanálise. O desejo do sujeito não está apenas direcionado às mulheres, mas àquilo que elas representam para ele. Ele projeta sobre as mulheres mais bonitas e jovens um ideal de beleza, juventude e valor social. Desejá-las é, para ele, uma forma de se aproximar do seu próprio ideal do eu — uma imagem idealizada de quem gostaria de ser. Assim, não se trata apenas de querer o outro, mas de desejar ser desejado por esse outro idealizado. Isso é o que Lacan chama de “desejo do desejo do Outro”. Ao desejar ser objeto do desejo dessas mulheres, o ...

Estagnação: Entre o Desejo e a Realidade

  Autor Fiscal psicólogo Sumário Introdução – A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático Capítulo 1 – A morte simbólica do objeto de desejo Capítulo 2 – A compulsão à repetição e a fixação libidinal Capítulo 3 – O princípio de realidade como resistência Capítulo 4 – O papel do ego, superego e id na estagnação Capítulo 5 – Caminhos de elaboração e micro-sublimações Epílogo – A pausa como incubação da energia libidinal Conclusão Final – Entre o cansaço e a reinvenção do desejo Referências Bibliográficas Introdução: A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático A estagnação psíquica é um estado de suspensão entre o desejo e o princípio de realidade. O sujeito sabe o que quer, sente o impulso da libido em direção a um novo objeto de prazer e realização, mas o contexto externo não oferece condições para que esse desejo se concretize. Surge, então, um vazio existencial em que o ego se vê esgotado e descrente. ...

Escorpião Dentro De Casa

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do Leitor para um excelente tópico. Um sujeito vai orar a Deus e quando se levanta observa um escorpião próximo ao tênis. Então mata escorpião. Na psicanálise, os sonhos, comportamentos e eventos simbólicos podem refletir conteúdos do inconsciente, como desejos reprimidos, conflitos internos ou mecanismos de defesa. O escorpião, nesse caso, pode ser interpretado como um símbolo de algo perigoso, oculto ou reprimido que surgiu à consciência. Vamos analisar o cenário como se você fosse iniciante: A oração a Deus : Representa uma busca por conexão espiritual, proteção ou orientação. Essa atitude pode ser vista como um movimento do ego em busca de equilíbrio e suporte diante de conflitos internos. O escorpião próximo ao tênis : O escorpião, em um contexto simbólico, pode representar algo no inconsciente que o sujeito considera ameaçador, como um medo, um desejo reprimido ou uma culpa...

A Desordem Da Qual Você Se Queixa

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo tem a intenção de encaminhar o leitor a regressar a atenção seletiva a fim de desvelar qual é a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa. O termo desordem remete a falta de ordem, desarrumação, desalinho e confusão em relação a nossa percepção e compreensão. Uma manifestação na qual os indivíduos que são considerados a massa corroboram para desaparecer a ordem social das atitudes harmoniosas e perfazem com comportamentos desordeiros, na percepção de quem está fora da manifestação é percebido como uma desordem comportamental por parte dos integrantes. Exemplos de desordem da qual vosmecê se queixa, desemprego; políticos corruptos; precariedade nos hospitais; salário baixo; ausência de moradia; escassez de clientes providos de moeda; preço alto do combustível; preço alto dos alimentos em supermercados; transporte coletivo precário e o que o senhor pensar enquanto lê o texto, pois a li...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...

O Que Cabe A Mim No Ambiente, O Qual Estou Inserido

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O papel que você desempenha no ambiente em que está inserido é extremamente importante, pois suas ações e podem influenciar o comportamento e o bem-estar de outras pessoas e do próprio ambiente. Aplicando e exercitando as competências comportamentais, isto é, as soft skills e hard skills a fim de defrontar-se com a insegurança. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162). Em primeiro lugar, cabe a você respeitar as regras e normas do ambiente, seja ele uma escola, local de trabalho, residência, universidade, comunidade ou outro ambiente social. Isso inclui ser pontual, tratar as outras pessoas com respeito e cortesia, e seguir as normas de conduta estabelecidas para aquele ambiente. Al...

Defesa Substitutiva: Autoconfiança Alcançada

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para observar a insegurança e o medo na sua vida ao se deparar com obstáculos, contrariedades e o princípio da realidade para alcançar seus objetivos. Como substituir a insegurança por confiança diante dos desafios da vida. Na abordagem psicanalítica, os mecanismos de defesa são estratégias mentais inconscientes que usamos para lidar com conflitos internos e proteger nosso ego. Um mecanismo de defesa substitutivo envolve substituir um sentimento ou estado de insegurança por algo mais positivo e fortalecedor, como a autoconfiança. Essa substituição pode ajudar a lidar com os desafios da vida de maneira mais eficaz. A psicanálise sugere que a insegurança pode surgir de conflitos não resolvidos ou de uma baixa autoestima enraizada em experiências passadas. Para desenvolver o mecanismo de defesa substitutivo da autoconfiança, é importante explorar e compreender as origens da ...

Insônia, Sofrimento Ocupacional e Transição Identitária: uma leitura em Psicologia da Saúde a partir do caso de um fiscal psicólogo

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicologia da saúde, o quadro de insônia de um fiscal de caixa com formação em psicologia e teologia, inserido em um ambiente de trabalho percebido como tóxico (supermercado). O caso evidencia uma articulação entre estresse ocupacional crônico , insônia de despertar precoce e um conflito de identidade profissional , associado ao desejo de migração para a área da psicologia. Integra-se ainda uma leitura da psicologia social , a partir do consumo do conteúdo da série The Witcher (especialmente o arco “Os Ratos”), como expressão simbólica do estado psíquico do sujeito. Discute-se como o adoecimento emerge não apenas da sobrecarga, mas da dissonância entre identidade e função exercida . 1. Introdução O trabalho contemporâneo, especialmente em contextos de alta demanda e baixa autonomia, tem sido amplamente associado ao adoecimento físico e mental (Dejours, 1992; Karasek & Theorell, 1990). No campo da psicologia da saúde, compreend...