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Insônia, Sofrimento Ocupacional e Transição Identitária: uma leitura em Psicologia da Saúde a partir do caso de um fiscal psicólogo

 Resumo

Este artigo analisa, à luz da psicologia da saúde, o quadro de insônia de um fiscal de caixa com formação em psicologia e teologia, inserido em um ambiente de trabalho percebido como tóxico (supermercado). O caso evidencia uma articulação entre estresse ocupacional crônico, insônia de despertar precoce e um conflito de identidade profissional, associado ao desejo de migração para a área da psicologia. Integra-se ainda uma leitura da psicologia social, a partir do consumo do conteúdo da série The Witcher (especialmente o arco “Os Ratos”), como expressão simbólica do estado psíquico do sujeito. Discute-se como o adoecimento emerge não apenas da sobrecarga, mas da dissonância entre identidade e função exercida.


1. Introdução

O trabalho contemporâneo, especialmente em contextos de alta demanda e baixa autonomia, tem sido amplamente associado ao adoecimento físico e mental (Dejours, 1992; Karasek & Theorell, 1990). No campo da psicologia da saúde, compreende-se que sintomas como insônia não devem ser analisados isoladamente, mas como manifestações de processos adaptativos falhos diante de estressores crônicos (Taylor, 2018).

O caso analisado envolve um fiscal de caixa que apresenta despertares precoces recorrentes, acordando cerca de três horas antes do horário planejado, com dificuldade de retorno ao sono. Esse fenômeno ocorre em paralelo a um contexto de:

  • sobrecarga física e emocional
  • ambiente de trabalho percebido como tóxico
  • desejo de mudança profissional
  • ausência de estratégia concreta de transição

2. Caracterização do quadro: insônia e hiperativação

O padrão descrito corresponde à chamada insônia terminal ou despertar precoce, frequentemente associada a quadros de estresse e ansiedade (American Psychiatric Association, 2013).

Do ponto de vista fisiológico, observa-se ativação persistente do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA), com liberação inadequada de cortisol em períodos noturnos, o que compromete a manutenção do sono (McEwen, 2007).

Segundo a psicologia da saúde:

“O sono é um marcador sensível do equilíbrio psicofisiológico, sendo rapidamente afetado por estressores crônicos” (Taylor, 2018).


3. Estresse ocupacional: modelos explicativos

O quadro pode ser compreendido a partir de dois modelos clássicos:

3.1 Modelo Demanda–Controle (Karasek)

Ambientes com alta exigência e baixo controle geram maior risco de adoecimento psicológico (Karasek & Theorell, 1990).

No caso:

  • alta demanda: fluxo intenso, acúmulo de funções
  • baixo controle: pouca autonomia decisória

3.2 Modelo Esforço–Recompensa (Siegrist)

O desequilíbrio entre esforço elevado e baixa recompensa produz sofrimento psíquico (Siegrist, 1996).

Aqui:

  • esforço físico e emocional elevado
  • baixa perspectiva de reconhecimento ou crescimento

👉 Esses fatores configuram um cenário propício ao desenvolvimento de burnout (Maslach & Jackson, 1981).


4. O núcleo do conflito: dissonância identitária

Para além da sobrecarga, o elemento central do caso é a ruptura entre identidade e função exercida.

O sujeito:

  • possui formação em psicologia
  • deseja migrar para essa área
  • não se reconhece mais na função atual

Essa condição gera o que pode ser descrito como dissonância identitária ocupacional, conceito alinhado à ideia de incongruência entre self e papel social (Rogers, 1961).

Segundo Dejours (1992):

“O sofrimento no trabalho emerge quando o sujeito não consegue mais reconhecer-se naquilo que faz.”

Essa dissonância intensifica o estresse e contribui diretamente para a insônia.


5. A madrugada como espaço de emergência do conflito

Durante o dia, o sujeito encontra-se ocupado, o que reduz a percepção consciente do sofrimento. Na madrugada, com a diminuição de estímulos externos, ocorre:

  • aumento da ruminação cognitiva
  • intensificação da ansiedade antecipatória
  • maior contato com conflitos internos

Harvey (2002) destaca que a insônia é mantida por:

  • pensamentos repetitivos
  • hiperfoco em preocupações
  • ativação emocional noturna

6. Consumo de mídia como expressão simbólica (psicologia social)

Durante o episódio de insônia, o sujeito escolhe assistir à série The Witcher, especificamente o arco narrativo “Os Ratos”.

Sob a ótica da psicologia social, esse grupo representa:

  • marginalização social
  • ruptura com instituições
  • construção de identidade alternativa

Segundo Tajfel e Turner (1979), a identidade social é construída em relação aos grupos de pertencimento. Quando há falha de identificação com o grupo dominante, o indivíduo pode buscar:

  • novos referenciais simbólicos
  • identificação com grupos alternativos
  • oposição ao sistema vigente

7. O espelhamento psicológico

A escolha desse conteúdo revela um processo de espelhamento simbólico:

Elemento narrativo

Correspondência subjetiva

Grupo marginal

Sentimento de não pertencimento

Ruptura com sistema

Desejo de sair do trabalho atual

Sobrevivência em ambiente hostil

Vivência no supermercado

Rebeldia

Fantasia de mudança radical

Segundo a psicologia da saúde, o consumo de mídia em estados de insônia pode funcionar como:

  • regulação emocional
  • externalização de conflitos
  • validação subjetiva

Entretanto, também pode intensificar a ativação fisiológica, dificultando o retorno ao sono.


8. Ciclo de manutenção do adoecimento

O caso evidencia um ciclo típico:

1.     Estresse ocupacional

2.     Hiperativação fisiológica

3.     Insônia

4.     Fadiga diurna

5.     Redução da capacidade de enfrentamento

6.     Intensificação do sofrimento

👉 Esse ciclo é autossustentado e tende à cronificação se não houver intervenção.


9. Dimensão existencial e saúde

A psicologia da saúde contemporânea reconhece que o adoecimento não é apenas biológico ou comportamental, mas também existencial (Frankl, 1984).

Neste caso, a perda de sentido no trabalho e o desejo de alinhamento com a vocação (psicologia) são centrais.

A insônia, nesse contexto, pode ser compreendida como:

um sinal de falha na integração entre vida prática e sentido subjetivo.


10. Considerações finais

O caso analisado demonstra que a insônia do fiscal psicólogo não pode ser reduzida a um sintoma isolado. Trata-se de um fenômeno complexo que articula:

  • estresse ocupacional crônico
  • hiperativação fisiológica
  • dissonância identitária
  • conflito de transição profissional
  • expressão simbólica via consumo de mídia

A psicologia da saúde permite compreender esse quadro de forma integrada, evidenciando que o corpo, por meio da insônia, expressa a insustentabilidade do modo de vida atual.


Referências

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5).
  • Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez.
  • Frankl, V. (1984). Em busca de sentido.
  • Harvey, A. G. (2002). A cognitive model of insomnia. Behaviour Research and Therapy.
  • Karasek, R., & Theorell, T. (1990). Healthy Work.
  • Maslach, C., & Jackson, S. (1981). The measurement of burnout.
  • McEwen, B. S. (2007). Physiology and neurobiology of stress.
  • Rogers, C. (1961). On Becoming a Person.
  • Siegrist, J. (1996). Adverse health effects of high-effort/low-reward conditions.
  • Tajfel, H., & Turner, J. (1979). An integrative theory of intergroup conflict.
  • Taylor, S. E. (2018). Health Psychology.

 

 

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