O Psicólogo que se inscreve todos os dias no ambiente de supermercado: precarização, neoliberalismo e evidências empíricas do sofrimento no trabalho brasileiro
Resumo
Este artigo aprofunda a análise da
reinscrição subjetiva no trabalho articulando fundamentos da psicologia social,
psicanálise e teorias contemporâneas do neoliberalismo com dados empíricos do
mercado de trabalho brasileiro. A partir de um caso-tipo — um psicólogo atuando
como fiscal de caixa — investiga-se como a permanência em um lugar de
sofrimento é sustentada por dispositivos sociais, econômicos e subjetivos.
Utilizam-se dados de rotatividade, informalidade e adoecimento psíquico para
sustentar a análise. O referencial teórico inclui Christophe Dejours, Jacques
Lacan, Byung-Chul Han e Pierre Dardot. Conclui-se que o sofrimento psíquico no
trabalho contemporâneo é estrutural, intensificado pela precarização e pela
internalização da lógica de desempenho.
Palavras-chave:
trabalho; subjetividade; burnout; precarização; neoliberalismo.
1. Introdução
O mundo do trabalho no Brasil tem
passado por transformações profundas, caracterizadas por flexibilização,
aumento da informalidade e intensificação das exigências produtivas. Nesse
contexto, o sofrimento psíquico deixa de ser uma exceção e passa a configurar
um fenômeno estrutural.
O caso do psicólogo inserido em
função operacional revela uma contradição central: mesmo consciente do seu
esgotamento, o sujeito permanece, reinscrevendo-se diariamente no ambiente de
trabalho.
2. Problema, hipótese e objetivos
2.1 Problema de pesquisa
Como os dados empíricos do mercado
de trabalho brasileiro ajudam a compreender a permanência do sujeito em
contextos de sofrimento psíquico?
2.2 Hipótese
A permanência no trabalho, mesmo
sob sofrimento, é sustentada pela precarização estrutural, pela insegurança
econômica e pela internalização da lógica neoliberal, que desloca para o
indivíduo a responsabilidade por sua permanência ou saída.
2.3 Objetivo geral
Articular dados empíricos do
mercado de trabalho brasileiro com a análise psicossocial da reinscrição
subjetiva.
2.4 Objetivos específicos
- Analisar indicadores de rotatividade e
precarização
- Relacionar dados de adoecimento psíquico ao
contexto laboral
- Compreender o impacto da insegurança econômica
na subjetividade
- Integrar dados empíricos à leitura
psicanalítica
3. Referencial teórico
(Mantido e ampliado conforme seção
anterior, com autores clássicos e contemporâneos)
4. Metodologia
Pesquisa qualitativa de natureza
teórica, com incorporação de dados secundários provenientes de relatórios
institucionais brasileiros (IBGE, DIEESE, Ministério da Saúde), analisados à
luz de referenciais psicossociais e psicanalíticos.
5. Problematização empírica: o cenário brasileiro
5.1 Rotatividade e instabilidade
O mercado de trabalho brasileiro
apresenta alta rotatividade, especialmente em setores como o varejo. Dados do
DIEESE indicam taxas elevadas de substituição de trabalhadores, refletindo
vínculos frágeis e pouca estabilidade.
Essa dinâmica reforça a permanência
do sujeito no trabalho atual, mesmo insatisfatório, devido ao risco de não
recolocação.
5.2 Informalidade e precarização
Segundo dados do IBGE (PNAD
Contínua):
“A taxa de informalidade no Brasil
permanece elevada, atingindo cerca de 39% da população ocupada” (IBGE, 2023, p.
12).
A informalidade amplia a
insegurança e reduz o poder de decisão do trabalhador.
5.3 Adoecimento psíquico e burnout
O Ministério da Saúde aponta
crescimento significativo nos afastamentos por transtornos mentais:
“Os transtornos mentais e
comportamentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no
Brasil” (BRASIL, 2022, p. 8).
Além disso, a síndrome de burnout
foi oficialmente reconhecida como fenômeno ocupacional pela OMS, evidenciando
sua relevância global.
6. Análise e discussão
6.1 A permanência como efeito da insegurança
Os dados empíricos demonstram que
sair do trabalho não é apenas uma decisão subjetiva, mas um risco concreto.
Nesse sentido, a permanência do
sujeito pode ser reinterpretada não como passividade, mas como estratégia de
sobrevivência.
6.2 O neoliberalismo como operador psíquico
Como afirmam Pierre Dardot e
Christian Laval (2016, p. 335):
“A norma neoliberal impõe que cada
indivíduo se responsabilize integralmente por sua trajetória.”
Assim, o sofrimento deixa de ser
atribuído ao sistema e passa a ser internalizado.
6.3 O cansaço estrutural
Para Byung-Chul Han (2017, p. 25):
“O sujeito do desempenho é ao mesmo
tempo explorador e explorado.”
O psicólogo no supermercado encarna
essa dupla posição.
6.4 Articulação com a psicanálise
A teoria de Jacques Lacan permite
compreender que:
“O sujeito se sustenta no desejo do
Outro” (LACAN, 1998, p. 203).
Os dados empíricos mostram que esse
“Outro” não é abstrato — ele é sustentado por condições materiais concretas.
7. Considerações finais
A incorporação de dados empíricos
evidencia que o sofrimento psíquico no trabalho não pode ser reduzido a fatores
individuais. Ele é produto de uma articulação entre:
- precarização estrutural
- insegurança econômica
- captura subjetiva pelo neoliberalismo
O psicólogo que se reinscreve
diariamente no supermercado não está apenas repetindo um padrão psíquico, mas
respondendo a um contexto que limita suas possibilidades reais de ruptura.
Referências (Normas ABNT)
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde
mental e trabalho no Brasil. Brasília: MS, 2022.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A
nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo:
Boitempo, 2016.
DEJOURS, Christophe. A loucura
do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do
cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
IBGE. PNAD Contínua: mercado de
trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
LACAN, Jacques. Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SENNETT, Richard. A corrosão do
caráter. Rio de Janeiro: Record, 2006.
WINNICOTT, Donald Woods. O
ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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