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O psicólogo está vivendo contra si mesmo

 Introdução

Em muitos contextos organizacionais, especialmente em ambientes de alta pressão como o varejo supermercadista, observa-se um fenômeno silencioso: profissionais com formação ou vocação para o cuidado psíquico ocupando funções operacionais que exigem controle, cobrança e mediação de conflitos. Quando um psicólogo — ou alguém com esse desejo estruturante — atua como fiscal de caixa, por exemplo, pode emergir um sofrimento que ultrapassa o cansaço físico. Trata-se de um conflito entre identidade, desejo e função. Em termos psicanalíticos, podemos afirmar: esse sujeito está vivendo contra si mesmo.


1. O conflito entre o Eu e o Ideal do Eu

Segundo Sigmund Freud, a constituição psíquica envolve instâncias que organizam o funcionamento do sujeito. Entre elas, destaca-se o Ideal do Eu, que representa aquilo que o indivíduo aspira ser, em contraste com o Eu, que lida com as exigências da realidade.

Quando há um distanciamento significativo entre essas duas instâncias, instala-se um estado de tensão psíquica. No caso analisado, o sujeito exerce uma função de fiscalização — centrada em controle e correção — enquanto seu Ideal do Eu está ligado ao cuidado, à escuta e à transformação humana.

Esse desalinhamento produz efeitos como:

  • sensação de vazio
  • perda de sentido no trabalho
  • exaustão emocional
  • desinvestimento subjetivo na função

Como afirma Freud:

“O Eu não é senhor em sua própria casa.” (Freud, 1917/1996)

Ou seja, há forças internas — desejos, ideais — que entram em conflito com a realidade vivida.


2. Superego e a culpa por não realizar o próprio potencial

Outro elemento central é o Superego, instância que internaliza normas, valores e exigências. De acordo com Sigmund Freud, o Superego pode assumir uma função crítica e punitiva quando o sujeito percebe que não está correspondendo ao seu próprio ideal.

Nesse contexto, o psicólogo que não exerce sua função sente, ainda que de forma difusa:

  • culpa por “não estar onde deveria”
  • sensação de desperdício de potencial
  • autocrítica constante

Essa culpa não aparece necessariamente de forma consciente, mas se manifesta como irritação, desânimo e esgotamento.


3. O sofrimento ético: agir contra o próprio desejo

Para Jacques Lacan, o desejo é estruturante da subjetividade. Quando o sujeito se afasta de seu desejo, instala-se o que pode ser compreendido como um sofrimento ético.

No caso analisado, o conflito é claro:

  • a função exige cobrança e contenção
  • o desejo aponta para escuta e acolhimento

Essa contradição gera um mal-estar profundo, pois o sujeito percebe que suas ações cotidianas não estão alinhadas com aquilo que o constitui.

Lacan afirma:

“A única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo.” (Lacan, 1959-1960/2008)

Assim, o sofrimento não é apenas ocupacional — é existencial.


4. Absorção do estresse e identificação com o ambiente

Ambientes de alta demanda emocional, como o atendimento ao público, favorecem processos inconscientes de troca afetiva. Melanie Klein descreve mecanismos como a identificação projetiva, nos quais emoções são “depositadas” no outro.

O fiscal de caixa:

  • recebe a irritação dos clientes
  • absorve tensões do ambiente
  • torna-se um ponto de descarga emocional

Sem recursos psíquicos ou institucionais para elaborar essas cargas, o sujeito entra em sobrecarga, intensificando seu sofrimento.


5. “Algo precisa ser mudado”: o retorno do desejo

O momento em que o sujeito, ao deitar-se, pensa ou sente que “algo precisa ser mudado” é decisivo. Na psicanálise, isso pode ser compreendido como o retorno de conteúdos recalcados — ou seja, o desejo que insiste em emergir.

Esse ponto marca:

  • o limite da adaptação
  • o início de uma possível ruptura
  • a emergência de uma verdade subjetiva

Não se trata de um pensamento aleatório, mas de um sinal estruturante.


6. Entre repetição e transformação

Sem intervenção, o sujeito tende a permanecer em um ciclo de repetição:

  • trabalha → se frustra → se esgota → repete

Freud descreve esse fenômeno como compulsão à repetição (Freud, 1920/1996). No entanto, a tomada de consciência do conflito abre possibilidade de mudança.

Essa mudança pode ocorrer por:

  • reposicionamento profissional
  • ressignificação da função
  • ou elaboração psíquica do conflito

Conclusão

O psicólogo que atua em uma função desalinhada com seu desejo não está apenas insatisfeito — ele está em conflito estrutural consigo mesmo. Seu sofrimento não é um erro, mas um sinal.

Ignorar esse sinal leva à cronificação do mal-estar, à queda de desempenho e, muitas vezes, à saída da organização. Por outro lado, escutá-lo pode abrir caminho para transformação, tanto individual quanto institucional.

Do ponto de vista organizacional, reconhecer esses processos é estratégico: colaboradores que vivem contra si mesmos tendem a se desligar — física ou subjetivamente. Já aqueles que encontram espaço para alinhar função e identidade tornam-se mais engajados, produtivos e sustentáveis.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (1917/1996). Conferências introdutórias sobre psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1920/1996). Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1923/1996). O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (2008). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar.

Klein, M. (1991). Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.

 

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