Entre o desejo e o ato: a inibição como destino — uma leitura psicanalítica do psicólogo capturado pelo trabalho alienante
Resumo
Este
artigo analisa, à luz da psicanálise, a condição de um psicólogo cuja prática
clínica encontra-se reduzida ao mínimo enquanto sua vida laboral é dominada por
um trabalho exaustivo em um supermercado. Apesar de elevado nível de
consciência sobre sua situação — incluindo o reconhecimento da exploração
institucional, da própria raiva e da estagnação — o sujeito permanece
impossibilitado de realizar o ato de ruptura. Argumenta-se que o impasse não
decorre de ignorância ou falta de motivação, mas de uma configuração estrutural
marcada por inibição do ato, captura libidinal, ação superegóica e sustentação
inconsciente da posição de impossibilidade.
1. Introdução
O
cenário em questão revela uma tensão clássica na clínica psicanalítica
contemporânea: a dissociação entre saber e agir. O sujeito em
análise sustenta simultaneamente duas posições:
- no plano
simbólico: “sou psicólogo”
- no plano real:
exerce uma função laboral que consome sua energia e organiza sua
existência
Essa
divisão produz um estado de suspensão, no qual o desejo não desaparece, mas
tampouco se efetiva. Como aponta Jacques Lacan, “o desejo do homem é o
desejo do Outro” — e aqui, o Outro institucional (o supermercado) ocupa o lugar
dominante na economia psíquica do sujeito.
2. Catexia e bloqueio da ação
O
próprio sujeito identifica que sua raiva — afeto que poderia operar como vetor
de mudança — encontra-se “catexizada” e sem via de descarga. Esse fenômeno é
coerente com a concepção de Sigmund Freud sobre o investimento
libidinal:
“A
catexia pode permanecer ligada à representação sem encontrar descarga motora”
(Freud, 1915/2010).
Nesse
caso, não há ausência de energia psíquica, mas sim sua imobilização.
O resultado é um estado paradoxal: alta tensão interna coexistindo com
paralisia externa.
3. Inibição do ato: além do
recalque
Diferentemente
do sintoma neurótico clássico, que implica formações substitutivas, o que se
observa aqui é uma inibição direta da função de agir. Em Inibição,
sintoma e angústia, Sigmund Freud diferencia:
- o sintoma como
compromisso psíquico
- a inibição como
limitação funcional do eu
O
psicólogo não ignora sua condição; ao contrário, ele a descreve com precisão.
Ainda assim, permanece incapaz de produzir o ato de desligamento. Trata-se,
portanto, de um bloqueio na passagem do desejo ao ato.
4. Captura libidinal e função do
ambiente
O
ambiente organizacional é descrito como rígido, exploratório e voltado à
exaustão dos trabalhadores. Contudo, uma leitura psicanalítica exige ir além da
denúncia sociológica.
O
trabalho não apenas explora — ele também:
- estrutura o tempo
- garante uma
identidade mínima
- oferece uma forma
de pertencimento
Assim,
o supermercado ocupa a posição de um Outro que captura e organiza a
libido. Como indica Christophe Dejours, o trabalho pode funcionar
simultaneamente como fonte de sofrimento e de estabilização psíquica.
Essa
ambivalência é decisiva: sair implica não apenas perder um emprego, mas abrir
mão de um arranjo que, embora alienante, sustenta o sujeito.
5. Deserção subjetiva e
esvaziamento libidinal
O
sujeito relata um “desligamento psicológico” já ocorrido, sem correspondente
ruptura concreta. Essa dissociação gera um estado de:
- permanência
corporal
- ausência de
investimento subjetivo
- empobrecimento do
eu
Freud
descreve esse fenômeno como retirada da libido dos objetos,
resultando em diminuição da vitalidade psíquica (Freud, 1917/2010).
O
efeito clínico é claro:
o
sujeito continua funcionando, mas sem desejar.
6. Supereu e exaustão
A
manutenção mínima da prática psicológica — atender um único paciente, realizar
trabalho voluntário — indica a ação de um supereu que exige continuidade sem
oferecer satisfação.
Segundo Jacques
Lacan, o supereu contemporâneo não proíbe, mas ordena: “Goza!”.
No entanto, aqui o imperativo assume a forma:
- “continue”
- “não desista
completamente”
- “mantenha-se
funcional”
Sem
circuito de prazer, o resultado é exaustão crônica e esvaziamento do desejo.
7. Fantasia de impossibilidade e
suspensão do ato
Um
ponto crucial emerge na afirmação: “não consigo sozinho produzir uma ruptura”.
Essa
formulação revela mais do que uma dificuldade prática — indica uma posição
subjetiva sustentada por uma fantasia:
- a mudança depende
de uma força externa
- o ato está
condicionado a algo que ainda não ocorreu
Para
Lacan, o ato implica sempre um corte que reconfigura o sujeito. Não se trata de
consequência linear de emoção ou planejamento, mas de uma decisão que
implica perda.
A
ausência do ato, portanto, sugere que:
algo
está sendo preservado na própria impossibilidade.
8. O gozo na repetição
Mesmo
em sofrimento, o sujeito permanece. Esse dado não deve ser moralizado, mas
compreendido como expressão do conceito de gozo.
O
gozo, em Lacan, refere-se a uma satisfação que ultrapassa o princípio do
prazer, podendo incluir dor e repetição. Permanecer no ambiente exaustivo pode,
paradoxalmente, garantir:
- adiamento do risco
clínico
- proteção contra o
fracasso
- manutenção de uma
identidade em suspenso
Assim,
o impasse não é apenas imposto de fora — ele é também sustentado de dentro.
9. Discussão
O caso
analisado evidencia um fenômeno recorrente na contemporaneidade: sujeitos
altamente reflexivos, capazes de nomear suas condições de sofrimento, mas
paralisados no nível do ato.
Isso
desafia abordagens baseadas exclusivamente em:
- insight
- motivação
- planejamento
racional
Na
perspectiva psicanalítica, a questão central desloca-se para:
- a economia
libidinal
- a função do
sintoma/inibição
- a posição do
sujeito frente à perda
10. Conclusão
O
psicólogo em questão não está desinformado nem desmotivado. Ele está estruturalmente
impedido de agir, sustentando uma posição marcada por:
- inibição do ato
- captura libidinal
- exaustão
superegóica
- fantasia de
impossibilidade
A
saída não reside em maior compreensão, mas na possibilidade de operar um corte
que implica perda real. Sem isso, o cenário tende à repetição indefinida:
o
desejo persiste, mas não se realiza; o sujeito sabe, mas não age.
Referências
- Freud, S.
(1915/2010). Os instintos e suas vicissitudes.
- Freud, S.
(1917/2010). Luto e melancolia.
- Freud, S.
(1926/2014). Inibição, sintoma e angústia.
- Lacan, J.
(1960/1998). Subversão do sujeito e dialética do desejo.
- Lacan, J.
(1970/1992). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise.
- Dejours, C.
(1994). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do
trabalho.
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