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Guerras Ocultas Por Trás Da Guerra Bélica

 Ano 2022. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo conduz o leitor a pensar refletindo o que está por trás da guerra bélica, isto é, agressividade e conflitos percebido pelo sentido da visão mostrado pelos canais midiáticos. Nós nos opomos à ideia de que a guerra é inevitável, e argumentamos que compreender as raízes psicológicas do conflito pode aumentar a probabilidade de evitar a violência como forma de resolver os conflitos com os outros.

Sempre haverá a possibilidade de recorrermos à violência como uma resposta a determinada situação. O desenvolvimento da cultura, nos conta Freud, permitiu o deslocamento do poder, que deixou o campo da violência e adentrou o campo do direito. Quando isso acontece, o poder deixa de estar na mão do mais forte e passa a pertencer à coletividade, que estabelece códigos para evitar que o mais forte volte a se tornar um tirano.

Mas o desenvolvimento da cultura não foi suficiente para eliminar do ser humano seu lado violento. O fortalecimento dos nossos instintos amorosos foi a grande conquista evolutiva da nossa espécie e, graças a eles, aprendemos a encontrar destinos e formatos adequados para lidar com a violência. Não é porque a presença dos nossos instintos agressivos não foi eliminada pela evolução cultural que temos desculpas para fazermos a guerra. É justamente porque podemos ser violentos que precisamos, todos os dias, reafirmar os princípios da vida, da cultura e da civilização.

E a guerra na Ucrânia x Rússia é mais um reflexo do descuido com que o nosso tempo trata das questões fundamentais para nós. Em um momento marcado pelo esgotamento emocional que a pandemia de Covid-19 provocou na população mundial, o conflito na Europa nos remete a tantas outras guerras que vivemos, muito mais perto de nós.

Os conflitos nas periferias brasileiras, onde sobretudo os negros são mortos diariamente; guerras entre traficantes e policiais, o genocídio dos grupos indígenas; o flagelo da fome, a crise do desemprego no país. Tudo isso não nos deixa esquecer que em nosso próprio país a vida também tem sido violentamente posta em segundo plano.

Em o mal-estar da civilização, Freud deixa evidente que, na ótica dele, a cultura produz mal-estar na humanidade. Isso porque há uma contra posição entre a civilização e as exigências produzidas pela pulsão, já que um subverte o outro. Com isso, o indivíduo acaba abrindo mão de si mesmo e se sacrificando e essência. O mal-estar da civilização por causa de nossas tendências destrutivas. Ele deixa bem claro que todos nós carregamos movimentos inerentes à destruição, anticultural e anti-sociabilidade. Com isso, existe uma luta da civilização para tirar a liberdade do indivíduo e substituir pela da comunidade.

Segundo o Professor Darc Costa, citando o seu artigo, cabe, aqui breves digressões. Antes de analisar o fenômeno da guerra é interessante fazer algumas considerações sobre política, estratégia e poder. Política, estratégia e poder estão sempre conjugados em qualquer ação humana. A política é a arte de estabelecer objetivos. A estratégia é a arte de se empregar o poder para se alcançar os objetivos colocados pela política. O poder é a conjunção dos meios que se dispõe para se atingir os objetivos.

O poder não é senão uma forte influência. Uma influência tão vigorosa, que aquele sobre o qual ela se aplica comporta se da maneira desejada por quem a aplicou. Uma demonstração de poder visa convencer aos adversários, de não ser possível eles impedirem, àquele que o demonstrou, de alcançar seus objetivos. O poder nacional exerce sua influência pelo conjunto integrado de meios de toda ordem de que dispõem a nação, acionados pela vontade nacional para conquistar e manter os objetivos nacionais.

O conceito se refere ao conjunto completo de ferramentas à disposição, bem como à seleção da ferramenta ou da combinação de ferramentas adequadas para cada situação, quais sejam: a de meios diplomáticos, militares, políticos, jurídicos, econômicos e psicossociais. Hoje, quando se fala de estratégia de guerra, deve-se destacar que esta não é vista como era antigamente, somente como a arte de empregar forças militares para se alcançar um determinado objetivo estabelecido pela política.

Segundo o conceito moderno, a estratégia de guerra é muito mais a arte de empregar o poder como tal, seja como força, seja como influência de qualquer outro tipo, para se atingir objetivos políticos. Quando há um choque de vontades, a arte de impor uma das vontades se traduz em uma estratégia de guerra. A estratégia militar é necessariamente uma estratégia de guerra e quando há o emprego de violência, isto é, de meios bélicos, um dos meios específicos do poder.

A estratégia militar caracteriza-se pelo recurso à violência para impor uma vontade ao inimigo. Mas, a melhor arte da guerra como estratégia consiste em alcançar um objetivo político sem se recorrer ao emprego da violência. Isto pode ser conseguido através de uma demonstração de poder econômico, financeiro ou de uma exclusiva demonstração de poder militar. A estratégia de guerra é, então, uma estratégia de dissuasão. Nesta, não há o emprego da força, somente a ameaça do uso da força.

Ou, também pode ser conseguida mediante o enfraquecimento progressivo da visão de objetivo político do adversário. Isto pode ser feito sem o emprego da força militar, mas pelo emprego do poder, através da estratégia do uso de operações psico informativas - Opsinf - (que serão explicadas adiante) e instrumentos midiáticos no interior do adversário.

A criação de um caos na ordenação das metas políticas do oponente pode ser o resultado estratégico de um desses novos tipos de guerra. A estratégia de guerra, a partir da qual a demonstração de poder é intensificada até o emprego real da força é a estratégia militar. A estratégia militar sempre é uma possível forma de aplicação da estratégia de guerra. Na verdade, a estratégia militar deve ser vista como a última forma do emprego da estratégia de guerra, posto que é a forma resultante do emprego do poder militar.

Ela se caracteriza pelo emprego da violência, quando o sucesso desejado não pode ser alcançado através de outros meios. A estratégia da guerra, em muitos casos, leva a estratégia militar a tentar atingir seus objetivos mediante uma confrontação direta e imediata de forças oponentes. Neste caso, temos a estratégia de ação direta, onde se busca uma grande batalha decisiva, na qual o objetivo é destruir a parte essencial das forças adversárias, através de alguns golpes potentes.

Outras vezes, a estratégia da guerra levará a estratégia militar a procurar vencer, pela manobra, um adversário, usando o espaço e o tempo e evitando o confronto direto com a força principal do inimigo, ou com as forças oponentes. Esta forma é conhecida como estratégia de ação indireta e busca desorientar o adversário, atraindo-o para uma posição mais desfavorável. Sem se engajar na batalha principal, procura desgastá-lo, progressivamente, de tal forma, que no final da guerra, ele estará exaurido.

Na estratégia da ação indireta, o adversário não é decididamente derrotado, mas é vencido pela manobra. A guerra é uma forma de fazer política, ou pelo menos um meio de fazer política, já que, na verdade, a guerra é a luta pelo poder. Guerra é o estado em que vivem aqueles que lutam. Na guerra, ambos os lados buscam impor uma vontade e uma paz da sua conveniência. O recurso à violência na busca ao poder é o que tem caracterizado o conceito de guerra.

Contudo, a guerra é um fenômeno muito mais abrangente que o conflito armado. Guerra só existe se houver choque de vontades, tem que haver uma dialética de vontades. Entretanto, uma vontade não necessita, obrigatoriamente, de se explicitar formalmente. Influir psicologicamente não é apenas determinante no conflito político, mas, também, o é na guerra, que é, fundamentalmente, uma batalha pela alma e pela vontade do adversário.

A guerra não deve ser vista como a conquista do terreno ou de determinadas posições. Apossar-se do terreno e conquistar certas posições são apenas instrumentos para se estruturarem de forma prevalente os desejos expressos na vontade de alguém sobre a vontade do outrem. Enquanto esse objetivo não for atingido, a guerra não será vencida. Repetindo, o que importa são os desejos expressos na vontade de alguém sobre a vontade do outrem.

Guerra com armamento usual é aquela que é feita empregando-se armas brancas, de fogo e explosivos convencionais. Guerra Radiológica. A forma de guerra radiológica é aquela que é feita mediante o emprego de materiais físseis. Podem ser radioativas, pelo emprego de materiais radioativos ou, nucleares mediante o emprego de artefatos nucleares. A forma de guerra biológica é aquela que é feita mediante o emprego de agentes patológicos. Pode ser bacteriológica ou virótica. 

A forma de guerra cibernética é aquela que é feita mediante o emprego de equipamentos e máquinas centradas basicamente em informação e energia. A forma de guerra química é aquela que é feita pelo emprego de agentes químicos.  Guerra Econômica. A forma de guerra econômica não é assim classificada por muitos puristas que a nomeiam como um conjunto de agressões econômicas, já que entendem que a guerra é um fenômeno que necessariamente implica em uma ação física violenta.

Contudo, a guerra é um fenômeno decorrente do choque de vontades, em que as vontades se pretendem afirmar com o uso dos meios que dispõem o que necessariamente implica em agressões. Agressões que podem não ser físicas. Agressões que podem ser psicológicas e econômicas. Guerra da forma econômica é toda aquela decorrente de uma agressão de natureza econômica. Suas formas mais usuais são agressões financeiras dirigidas a moedas, tidos, agora, como ataques especulativos e que podem desestabilizar a economia de um país, ou, agressões comerciais decorrentes da ação fechar mercados ou para controlar fluxos de recursos.

Guerra da forma econômica tem sido usualmente praticada no final do século XX e no início do século XXI, sob o manto da paz e do discurso da estabilidade. Guerra Psicológica. Das formas citadas, a que é menos entendida é a forma de guerra psicológica. Uma guerra psicológica pode estar sendo travada sob um aparente discurso de paz. Ela é uma forma de guerra que aparentemente não mata, não aleija, não machuca fisicamente. Contudo seu poder destrutivo pode ser imenso.

Pode colonizar, pode subordinar, pode escravizar. É uma forma que quando vem sozinha é a expressão virtual da guerra. Mas se há uma guerra real ela estará sempre presente. A imagem bélica da guerra de destruição em massa, em especial sua vertente nuclear, requereu diferentes planejamentos estratégicos, diferentes armamentos, diferentes organizações de unidade, e finalmente, o que não é menos importante, um diferente treinamento dos oficiais e de suas unidades, algo que normalmente manteve relação direta com os padrões convencionais.

Assim, também, se passa com todos os demais tipos de guerra, inclusive para estes recentes tipos que surgiram, a guerra assimétrica e hibrida. Contudo, hoje, está claro que a guerra de destruição em massa parece ser a mais improvável das futuras guerras. Na verdade, a sua possibilidade nuclear, demonstrada em Hiroshima e Nagasaki, diferentemente do que muitos pensavam, não acabou com a guerra. Enfatizou outros tipos ou ensejou novos tipos de guerras.

Só as transferiu para outros espaços de concepção e de realização. Como a guerra nuclear tornou-se, de certa forma, impensável, a humanidade transferiu seus conflitos armados para as sarjetas, para as cavernas e para as florestas. A guerra assimétrica, após os atentados de onze de setembro, surgiu, contudo, um novo tipo de guerra, que figurava, exclusivamente, no plano das hipóteses, a guerra assimétrica, que nada mais é que uma guerra irregular travada no espaço mundial.

Voltemos à tese do conceito moderno a estratégia de guerra é muito mais a arte de empregar o poder como tal, seja como força, seja como influência de qualquer outro tipo, para se atingir objetivos políticos. Guerra assimétrica, talvez pudesse ser definida, como foi dito, de guerra irregular em escala mundial, ou como a guerra irregular, que não se cinge a um espaço nacional.

Assimetria de poder econômico e financeiro, muitos recursos versus poucos; Assimetria de capacidade bélica, relativa e absoluta; Assimetria de estruturação organizacional, hierarquia versus rede; e entre outras, das seguintes assimetrias, do outro lado: Assimetria de objetivação, quase número infinito de alvos versus poucos para o adversário; Assimetria de resultados, indiferença de resultados no curto e médio prazo contra a necessidade de resultados expressivos do adversário no curto prazo; e, Assimetria comportamental, não sujeito a nenhuma regra, inclusive admitindo o suicídio na ação versus o adversário preso a regras e as convenções.

A guerra assimétrica, assim como a guerra irregular, é, devido a sua natureza, a guerra dos fracos contra os fortes, a guerra dos pobres contra os ricos. Como mostraremos a guerra irregular e os novos tipos de guerra; hibrida e a assimétrica, são fundamentalmente guerras de desgaste. Seguindo o conceito moderno, a estratégia de guerra é muito mais a arte de empregar o poder como tal, seja como força, seja como influência de qualquer outro tipo, para se atingir objetivos políticos.

A guerra hibrida é o emprego do poder através de um conjunto de intervenções de toda ordem preparada sobre um Estado Nacional, para exercer um fim fundamentalmente político. Ou qualquer tipo de agressão organizada que procura causar dano a um Estado Nacional, buscando desestruturá-lo, transformando-o em um estado falido, com o fim de apropriar-se de seu território, e/ou de seu imaginário coletivo, e/ou de seus recursos. Pode-se considerar que a guerra híbrida é um conflito no qual todos os agressores, exploram todos os modos de guerra, simultaneamente, empregando armas convencionais avançadas, táticas irregulares, tecnologias agressivas, terrorismo e criminalidade, visando desestabilizar a ordem vigente em um Estado Nacional.

Entende-se o que se busca numa guerra hibrida é a criação do caos no território inimigo. Sobre o caos há uma teoria, a teoria do caos que estabelece que fatores insignificantes, distantes, podem, eventualmente, produzir resultados catastróficos imprevisíveis e absolutamente desconhecidos no futuro. Tais eventos levariam o adversário a se defrontar com desdobramentos imprevisíveis e a perdas dos monopólios de gestão intrínsecos a um Estado Nacional.

Os novos tipos de guerra não têm começo. Só historicamente é que se define o tempo da guerra. Tem aí total similaridade com a guerra irregular. Os envolvidos nessas guerras têm um interesse notório em prolongar um falso período de paz, antes da definição explícita de seu início. A mobilização exige muito tempo. Ambas, devem ser vistas como o combate em sua totalidade, tendo sempre como atributos tanto a longa duração quanto a baixa intensidade.

Nos novos tipos de guerra, tanto a assimétrica como a hibrida, a exemplo da guerra irregular, não deve haver uma distinção tão objetiva, como existe em outros tipos de guerra, entre civil e militar, entre armas e não armas, entre espaço de guerra e espaço de paz. Uma guerra do novo tipo é uma guerra sem delineamento definido. É uma guerra de várias facetas. O novo tipo de guerra é uma guerra em que não se combate e, sim, se vive.

Toda a guerra busca objetivos políticos. O recurso à violência na busca do poder, como vimos, caracteriza a estratégia militar. Contudo, a definição clara de um tipo de guerra é muito difícil. Mas, tanto a guerra irregular quanto os novos tipos de guerra se inserem no contexto de uma rebelião ou de uma revolução. Revolução se dirige a certo objetivo, enquanto que rebelião se refere a certo comportamento. Existem revoluções, sem rebelião, e rebeliões, sem revolução.

Revolução une credo, vontade, decisão e ação na política e buscam a mudança integral na ordem, seja ela política, social e ou econômica. Rebelião busca a fuga a uma dominação. A perda na fórmula política pode conduzir a uma revolução ou esta pode decorrer da inexistência de desenvolvimento econômico e social. Todavia, rebelião sempre está relacionada à tensão que deriva da percepção de que há uma privação na sociedade de bens e serviços econômicos, ou de prestígio social e ou de poder político.

Expectativas religiosas ou de caráter nacional que não são correspondidas também podem dar lastro a uma rebelião. Os novos tipos de guerra também podem vir a anular a distância entre países grandes e pequenos. Um país como a Coreia do Norte, se provido de armas de destruição em massa, pode se colocar tão forte como a Rússia ou a China.

Se tiver vontade e capacidade de conduzir uma guerra hibrida ou assimétrica, um pequeno país pode vir a se contrapor com razoável êxito contra a pretensa múltipla superioridade de uma potência. Ninguém vence um inimigo mais forte pela força, mas, sim, devido a uma causa justa e através de uma liderança dedicada. Todo ato de guerra é um trabalho de equipe. Líder e liderados, planejadores e operadores, todos trabalham em conjunto. A ligação, entre comando e execução, é importantíssima.

Respeito e reconhecimento geral do comandante são fundamentais para quem exerce a liderança. A guerra assimétrica e a guerra irregular são guerras da liderança democrática. Manter a todo custo disciplina é o objetivo maior do seu líder. Contudo, é como estrategista e como tático que o líder deve exercer o seu poder. É usando o tempo e o terreno e aproveitando as oportunidades que ele se consolida na liderança.

Os novos tipos de guerra se colocam como tipos de guerra praticados pela estratégia da ação indireta. Mas, os novos tipos de guerra, da mesma forma que a guerra irregular, não é o único meio para se conduzir uma estratégia de ação indireta. Tanto os novos tipos de guerra quanto à guerra irregular são sempre instrumentos de ação da estratégia indireta e pretendem conseguir um efeito psicológico.

Seus objetivos serão o de fazer os seus próprios objetivos políticos parecerem historicamente necessários, inevitáveis, e até mesmo, imprescindíveis, aos olhos do adversário. A estratégia nos novos tipos de guerra, portanto, é sempre a estratégia de ação indireta. O que existe em termos de estratégia nos novos tipos de guerra são os mesmos princípios gerais de estratégia militar. Surpreender o inimigo, romper a continuidade de suas forças, atacar seus pontos fracos e contra-atacar, aproveitando o esforço do adversário, permanecem elementos válidos e metas a serem perseguidas na construção e no decorrer dos combates.

Os novos tipos de guerra apresentam um sentido claro para se desencadear as ações militares por parte dos militantes: as operações caminham daquelas desconhecidas e não dominadas pelos adversários, para aquelas em que eles são especialistas. Caminham da periferia para o centro. A luta pode surgir em qualquer espaço e a qualquer tempo. A liberdade para operar nestes tipos de guerra constrói a sua própria força. Liberdade vista aqui como liberdade sobre o espaço e sobre o tempo. A guerra irregular é a guerra do espaço amplo. A guerra assimétrica é a guerra do espaço ilimitado. A guerra hibrida é a guerra do espaço delimitado.

Nas três, não existem frentes de combate. A retaguarda não existe para elas. Nas três, o poder de fogo é menos relevante que a mobilidade. São guerras de mobilidade. Nas três, o espaço não é mantido, nem ocupado. O espaço é contaminado. Mas a contaminação exige a presença do adversário. Em quase todas as condições, nesses três tipos de guerra, mais que a força, os determinantes últimos da vitória são o espaço e o tempo. O espaço e o tempo se materializam nos movimentos. Não são guerras de posição. São guerras de movimento e não de poder de fogo.

A guerra psicológica tem de ser conduzida por operações psicoinformativas – Opsinf. Opsinf são fundamentais para entender os novos tipos de guerra. Guerra de forma psicológica é feita basicamente utilizando-se as Opsinf. São nas Opsinf que os novos tipos de guerra se sustentam. Durante todas as fases dos novos tipos de guerra, como acontece na guerra irregular, as Opsinf estarão presentes.

O plano de propaganda é peça importante para uma guerra, mas é peça fundamental para o detalhamento das Opsinf de uma guerra irregular ou de um dos dois dos novos tipos de guerra. Este plano deve conter a identificação dos instrumentos disponíveis, seus alvos setoriais, ou de áreas, a indicação dos seus caminhos, mas, principalmente, quais são os seus objetivos.

A arte da propaganda consiste em colocar o êxito do inimigo como fracasso e o nosso fracasso como êxito. Todavia, propaganda sozinha nada faz. Quando falamos em Opsinf, estamos falando de um conceito revolucionário que está se transformando em elemento central nas ações políticas entre Estados Nacionais, nas ações de ataque e defesa que se processam tanto em época de paz quanto em época de guerra. Todavia, propaganda sozinha nada faz.

Quando falamos em Opsinf, estamos falando de um conceito revolucionário que está se transformando em elemento central nas ações políticas entre Estados Nacionais, nas ações de ataque e defesa que se processam tanto em época de paz quanto em época de guerra. Todavia, propaganda sozinha nada faz. Quando falamos em Opsinf, estamos falando de um conceito revolucionário que está se transformando em elemento central nas ações políticas entre Estados Nacionais, nas ações de ataque e defesa que se processam tanto em época de paz quanto em época de guerra.

Cada vez mais, o domínio do campo da percepção e do processamento criará condições para o direcionamento e o controle das ações. Estes espaços, da percepção e do processamento, são exatamente os da atuação essencial e excelente das Opsinf – cujos resultados reverberam e se refletem sobre o momento de ação. O objetivo das Opsinf é o de manter em um dado espaço (teatro de operações, espaço do conflito, país ou região, ou mundo) não só o domínio das informações, mas muito mais a administração das percepções com vistas à construção de consensos para a estruturação e desestruturação de imaginários.

Os objetivos das Opsinf são o de acordar ideias, ou de promover associações mentais, ou mexer com imaginários. Com as Opsinf busca-se formar quadros; difundir ideias, para mobilizar simpatizantes; e enfraquecer o poder do inimigo e sua vontade de resistir, diminuindo a sua fé na vitória. A guerra leva a muitos sacrifícios; o sacrifício da vida, o sacrifício da saúde, o sacrifício da liberdade e principalmente à privação das comodidades favoritas. As únicas pessoas que buscam um sacrifício de forma voluntária são aquelas que acreditam que existe um valor muito maior que o sacrifício, algo que para eles parece profundamente significativo.

O estabelecimento de um valor transcendental é a base sobre a qual se estrutura todo e qualquer sacrifício. Portanto, ao se engajar em um combate deve-se buscar lançar mão de todos os meios disponíveis para se estabelecer este valor transcendental.

O objetivo de toda a ação psicológica deve ser o de procurar convencer cada cidadão de que ele deve se colocar a serviço deste valor transcendental que pode ser uma ideia, transfigurada numa formulação política, ou retratada num imaginário e que deve justificar todo sacrifício necessário. As Opsinf dependem também dos discursos políticos e dos eventos militares. Elas visam tanto o público interno, como a mídia, como as sociedades amigas, neutras e inimigas.

A Opsinf tem de se ajustar ao nível de audiência para o qual ela se dirige. Daí porque a Opsinf deve explorar e utilizar primordialmente os instrumentos e argumentos que mexem com a emoção. O conflito, por sua vez, realimenta as ações derivadas dos princípios das Opsinf. A movimentação da informação será cada vez mais relevante em situações de conflito, podendo-se sobrepor até mesmo à movimentação de tropas ou de equipamentos nos espaços e antecedendo a, necessariamente, no tempo.

Para estas operações o tempo é um fator essencial. Incidentes, no mundo, são hoje comunicados em tempo real. Para tanto, faz-se necessário compreender as Opsinf como parte de uma política de Estado Maior, como reflexo e voz da vontade política de um Estado Nacional. As Opsinf atuam sobre os imaginários. Existem três tipos de Opsinf: 1. A Opsinf destrutiva que desestrutura e destrói um imaginário, 2. A Opsinf construtiva que estrutura e constrói um imaginário e 3. A Opsinf subversiva que modifica um imaginário dissuade e atemoriza.

A Opsinf subversiva objetiva atacar parte das certezas ou das ideias e formas de ver o mundo que o inimigo possui, ou, caso não seja possível destruir a formulação central do inimigo, abalá-la nos seus fundamentos, de forma a desestruturar o imaginário do inimigo. Por exemplo, um objetivo de uma Opsinf subversiva pode ser o de apelar para a necessidade de se prover segurança às pessoas, principalmente, as pessoas que vivem nesse nosso tempo e se encontram nos países centrais, os mais civilizados.

Para esse fim, deverão ser utilizadas todas as formas possíveis para ilustrar visualmente: seja por imagens, ou gráficos, os perigos à espreita de todos os soldados e cidadãos do inimigo. Isto numa guerra assimétrica terá mais êxito se vier acompanhado de operações terroristas. Outro exemplo, o discurso da defesa da liberdade do inimigo numa guerra assimétrica deve ser combatido pelas Opsinf subversivas, de forma a acusá-lo, de forma convincente, de ter sido responsável por uma onda de repressão, de qualquer tipo, já realizada ou pretendida, de modo que o próprio inimigo começa a questionar a veracidade do apelo a liberdade em que acreditava de forma irrefletida.

O êxito será completo caso consiga-se condenar o adversário aos olhos do mundo e assim, em última análise, colocá-lo como imperial e totalitário ou, então, como vinculado a uma, senão a própria minoria racista, ou religiosa a ser sempre desacreditada. Munição das Opsinf. As Opsinf usam três munições para as suas diversas armas: palavras, músicas e imagens. As palavras podem ser faladas ou escritas, abrangentes ou específicas, corretas ou falsificadas. As músicas podem ser de denuncia ou de exaltação. As imagens podem ser públicas ou restritas.

 

 

Referência Bibliográfica

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  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, um episódio aparentemente simples do mundo do trabalho — a contratação por uma instituição fora do circuito conhecido — como operador de um espelhamento estrutural para o psicólogo em transição profissional. Sustenta-se que o sofrimento repetido não decorre de incapacidade subjetiva, mas da insistência em acessar apenas campos simbólicos já nomeados e reconhecidos. O texto discute como a ruptura com o “campo conhecido” desvela limites da percepção, desmonta a compulsão à repetição e possibilita uma leitura mais lúcida da relação entre sujeito, saber e instituição, sem produzir novas ilusões. 1. Introdução: quando o fracasso não é pessoal Na experiência do trabalho e da inserção institucional, muitos sujeitos interpretam a ausência de reconhecimento como falha individual. A repetição de recusas tende a ser vivida como prova de inadequação ou insuficiência. Contudo, do ponto de vista psicanalítico, é preciso interrogar n...

Facilite O Reconhecimento Das Projeções

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Um psicólogo trabalha num supermercado na ocupação de operador de caixa e observa que os colaboradores têm comportamentos de bullying. O psicólogo pensa em fazer uma intervenção no comportamento dos colaboradores, mas não faz nada porquê os colaboradores não sabem que além de operador de caixa ele tem formação em psicologia. E talvez se der a conhecer para os colaboradores que é psicólogo corre o risco de não ser levado a sério no momento de propor as intervenções. A psicanálise sugere que os comportamentos têm raízes inconscientes e que a compreensão dessas dinâmicas pode levar a mudanças significativas. No entanto, a abordagem psicanalítica também valoriza a importância da transferência e da relação terapêutica, o que pode complicar a situação do operador de caixa que é psicólogo oculto. Dado que os colaboradores do supermercado não estão cientes da f...