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O luto da identidade de fiscal de caixa e a dificuldade de construir uma nova identidade profissional em Psicologia: uma análise pela Psicologia Organizacional e do Trabalho

 Resumo

Este artigo analisa a trajetória de um indivíduo graduado em Psicologia que, diante da dificuldade de inserção profissional na área, ingressou no varejo como operador de caixa e posteriormente assumiu a função de fiscal de caixa, na qual permaneceu durante anos. Discute-se a diferença entre formação acadêmica, identidade ocupacional e identidade profissional, considerando que o encerramento subjetivo de uma função como projeto de futuro não produz automaticamente uma nova posição profissional. A análise aborda as condições de empregabilidade, a necessidade de subsistência, a influência da experiência ocupacional sobre a percepção das possibilidades de carreira e o temor de não conseguir ingressar na Psicologia. Fundamenta-se na literatura sobre identidade profissional, construção de carreira e transições no mundo do trabalho. Conclui-se que a dificuldade de consolidação da identidade profissional de psicólogo deve ser compreendida na relação entre recursos individuais, experiências anteriores, oportunidades institucionais e condições concretas do mercado de trabalho, sem reduzir a situação a uma suposta incapacidade individual.

Palavras-chave: Psicologia Organizacional e do Trabalho; identidade profissional; identidade ocupacional; transição de carreira; empregabilidade; construção de carreira.

1. Introdução

A construção de uma identidade profissional não se encerra com a conclusão de um curso superior. Embora a formação acadêmica represente uma etapa fundamental, o reconhecimento de si como profissional também se desenvolve por meio das experiências de trabalho, da aplicação dos conhecimentos, das relações institucionais e da participação em um campo profissional.

Mazer e Melo-Silva (2010), ao examinarem a produção científica brasileira sobre a identidade profissional do psicólogo, identificaram a importância articulada da escolha da profissão, da formação acadêmica e do exercício profissional. Essa perspectiva permite compreender que a graduação constitui um ponto de partida, mas não assegura, isoladamente, a consolidação de uma trajetória profissional.

O presente artigo parte da trajetória de um indivíduo que concluiu a graduação em Psicologia em 2018, após cinco anos de estudos, mas não conseguiu estabelecer uma inserção profissional estável na área. Anteriormente, havia trabalhado em telemarketing e, diante da necessidade de continuar trabalhando, ingressou no supermercado como operador de caixa. Posteriormente, assumiu a função de fiscal de caixa, na qual permaneceu durante anos.

O indivíduo reconhece que não deseja continuar construindo seu futuro profissional em torno da função de fiscal de caixa. Entretanto, continua trabalhando fisicamente no supermercado e não sabe se conseguirá exercer uma identidade profissional em Psicologia.

Essa situação coloca uma questão central para a Psicologia Organizacional e do Trabalho: o que acontece quando uma pessoa deixa de reconhecer sua ocupação atual como projeto de futuro, mas ainda não conseguiu construir uma alternativa profissional suficientemente concreta?

A hipótese desenvolvida é que o indivíduo se encontra em uma transição profissional na qual a identidade ocupacional anterior perdeu legitimidade como projeto de futuro, enquanto a identidade profissional desejada permanece sem consolidação equivalente no mercado de trabalho.

Essa hipótese não significa que o indivíduo tenha perdido sua identidade pessoal ou que esteja definitivamente impossibilitado de exercer Psicologia. Significa que existe um descompasso entre a formação concluída, a experiência profissional acumulada, o reconhecimento institucional e as oportunidades de inserção.

2. A dificuldade de construir uma nova identidade profissional

O ponto de partida da análise é o reconhecimento de que a trajetória acadêmica e a trajetória ocupacional não avançaram de maneira equivalente.

O indivíduo reconhece que sua trajetória como estudante de Psicologia terminou ao graduar-se depois de cinco anos estudando, mas ainda não consolidou uma nova identidade profissional ou uma nova direção para sua vida.

Nesse intervalo, a antiga posição de telemarketing, que exercia enquanto cursava Psicologia, pode oferecer uma referência conhecida. Ele sabe como agir quando ocupa o lugar de operador de telemarketing: observa, oferta produtos de telefonia móvel e internet, escuta os problemas e desejos do cliente, avalia, identifica problemas e toma providências.

Já a posição de sujeito fora daquela função profissional pode ser mais aberta. Exige perguntar o que deseja, o que considera importante, que caminhos quer explorar e quais decisões pretende assumir.

Se continuar recorrendo ao olhar de operador de telemarketing como referência principal, poderá preencher a incerteza do presente com uma maneira de funcionar que pertence ao passado.

O prejuízo seria usar uma identidade encerrada de operador de telemarketing para evitar o desconforto de construir uma identidade de psicólogo ainda não definida.

É importante não confundir isso com a ausência de identidade pessoal. O indivíduo não deixa de ser sujeito porque ainda não sabe qual será sua próxima identidade profissional no campo da Psicologia.

A transição entre posições profissionais envolve mais do que a mudança formal de cargo. Pode exigir a revisão de expectativas, a reorganização de objetivos e a construção de novas formas de reconhecer o próprio valor.

No caso analisado, a pandemia pode ter interferido nas oportunidades de inserção, na continuidade de experiências e na construção de vínculos profissionais na área da Psicologia. Essa possibilidade precisa ser considerada como contexto, sem atribuir à pandemia, isoladamente, a responsabilidade por toda a trajetória posterior.

O indivíduo não retornou à identidade de telemarketing como projeto profissional desejado, pois reconheceu que não queria mais aquela posição. Entretanto, passou a ocupar a posição de operador de caixa e, posteriormente, a de fiscal de caixa, porque precisava trabalhar e não conseguia consolidar sua inserção em Psicologia.

Agora que considera encerrada a função de fiscal de caixa como perspectiva de futuro, encontra-se novamente diante da necessidade de construir uma identidade profissional diferente.

A questão não é simplesmente descobrir quem deseja ser. É transformar uma formação acadêmica já concluída em uma trajetória profissional possível.

3. A necessidade de trabalhar e a aceitação de uma ocupação diferente da profissão desejada

É importante distinguir a escolha de uma profissão como projeto de vida da aceitação de uma ocupação diante das oportunidades efetivamente disponíveis.

O indivíduo não escolheu necessariamente o supermercado como projeto profissional. Encontrou nele uma possibilidade concreta de trabalho quando as oportunidades na área da Psicologia não se abriram da maneira esperada.

Diante dessa dificuldade, precisou buscar alternativas para continuar trabalhando e garantir sua subsistência.

A oportunidade que encontrou foi a de operador de caixa em um supermercado. Posteriormente, passou a exercer a função de fiscal de caixa, permanecendo nessa posição durante anos.

Pela Psicologia Organizacional e do Trabalho, essa trajetória pode ser compreendida a partir da relação entre projeto profissional, condições concretas de empregabilidade e necessidade de sobrevivência material.

Nem sempre o trabalhador ocupa a posição que deseja. Em determinadas circunstâncias, ocupa aquela à qual conseguiu ter acesso.

Isso não significa que tenha sido incapaz de construir uma carreira em Psicologia. Significa que, até o momento, as oportunidades às quais teve acesso não permitiram transformar sua formação em uma trajetória profissional estável nessa área.

Essa distinção impede que a ausência de inserção seja interpretada automaticamente como fracasso individual.

A permanência no supermercado pode ter resultado da combinação de necessidade de renda, experiência acumulada, disponibilidade de vagas e ausência de alternativas profissionais suficientemente viáveis. Não é necessário supor que o indivíduo tenha escolhido conscientemente o varejo para evitar o exercício da Psicologia.

A hipótese organizacional mais consistente é que a ocupação no supermercado assegurou a continuidade profissional e financeira, mas não resolveu a questão da identidade profissional ligada à Psicologia.

O indivíduo continuou trabalhando, mas a carreira que desejava construir permaneceu sem uma estrutura equivalente de inserção, experiência e reconhecimento.

4. A identidade de operador de telemarketing: uma referência conhecida que deixou de representar o futuro desejado

Na atividade de telemarketing, o indivíduo possuía um roteiro ocupacional relativamente conhecido. Observava as necessidades dos clientes, oferecia produtos de telefonia móvel e internet, escutava demandas, identificava problemas e tomava providências dentro dos limites de sua função.

Essa experiência pode ter contribuído para o desenvolvimento de competências como comunicação, escuta, identificação de necessidades, argumentação e resolução de problemas.

Entretanto, reconhecer competências desenvolvidas em uma ocupação não significa desejar permanecer identificado com ela.

O indivíduo deixou de considerar o telemarketing como a direção profissional que desejava seguir. Nesse sentido, a antiga identidade ocupacional perdeu parte de sua capacidade de organizar suas expectativas de futuro.

Na Psicologia Organizacional, podemos formular a seguinte hipótese: o indivíduo preservou competências adquiridas no telemarketing, mas deixou de reconhecer naquela ocupação uma identidade profissional desejável.

Ele não precisava apagar o passado para avançar. Precisava encontrar uma maneira de integrar o que aprendeu naquela atividade a uma trajetória profissional diferente.

O problema surgiu quando a identidade desejada, a de psicólogo, não encontrou condições concretas para se estabelecer.

A experiência anterior permanece parte da história profissional do indivíduo. Entretanto, não precisa funcionar como sua principal referência para todas as decisões futuras.

5. A identidade ocupacional de operador de caixa e fiscal de caixa

Ao ingressar no supermercado, o indivíduo passou a ocupar uma posição que exigia comportamentos, responsabilidades e formas de reconhecimento específicos.

Como operador de caixa, precisava registrar compras, atender clientes e cumprir procedimentos. Como fiscal de caixa, passou a responder por outras demandas: apoiar operadores, acompanhar ocorrências, solucionar problemas operacionais e assumir responsabilidades relacionadas ao funcionamento dos caixas.

A progressão de operador para fiscal representou uma mudança real de função e de responsabilidade. Entretanto, não significou necessariamente uma aproximação de sua identidade profissional desejada.

O supermercado ofereceu algo que a trajetória em Psicologia ainda não havia proporcionado de maneira estável: um lugar concreto para trabalhar, uma rotina, remuneração, responsabilidades definidas e uma posição reconhecida pela organização.

Esse lugar podia ser ocupado mesmo sem a consolidação de uma carreira em Psicologia.

A expressão máscara social, utilizada para descrever as diferentes posições profissionais, pode ser compreendida aqui como uma metáfora para os papéis que assumimos nas organizações.

Ao ingressar no supermercado, o indivíduo passou a ocupar uma posição que exigia comportamentos, responsabilidades e formas de reconhecimento específicos.

A função de fiscal de caixa não se limitava às tarefas executadas durante a jornada. Ela também envolvia relações com colegas, expectativas da liderança, responsabilidades, procedimentos, horários, remuneração e reconhecimento institucional.

Quanto mais tempo uma pessoa permanece em determinada posição, maior pode ser a influência dessa experiência sobre sua percepção de competência, suas expectativas e suas possibilidades de futuro.

Isso não ocorre automaticamente com todos os trabalhadores, mas pode acontecer quando a ocupação se torna a principal referência profissional disponível.

No caso analisado, existe uma tensão: o indivíduo possui formação superior em Psicologia, mas sua experiência profissional remunerada mais prolongada e recente está associada ao supermercado.

Essa diferença pode produzir um descompasso entre:

  • aquilo que estudou e deseja exercer;
  • aquilo que efetivamente realizou no mercado de trabalho;
  • aquilo que consegue apresentar como experiência profissional recente;
  • aquilo que as instituições estão dispostas a reconhecer em processos seletivos.

Esse descompasso não demonstra falta de capacidade para a Psicologia. Indica que a formação acadêmica e a experiência profissional precisam ser articuladas de maneira mais concreta.

A identidade de fiscal de caixa foi construída dentro de uma alternativa que inicialmente não correspondia ao projeto profissional desejado. O indivíduo aprendeu a ser fiscal de caixa porque precisou exercer essa função. Desenvolveu competências, assumiu responsabilidades e passou a ser reconhecido institucionalmente a partir desse lugar.

Entretanto, existe uma diferença entre construir uma identidade ocupacional e desejar mantê-la como identidade profissional para o futuro.

O indivíduo pôde tornar-se competente na função sem que isso significasse que desejava continuar nela indefinidamente.

6. O luto da identidade de fiscal de caixa

O encerramento subjetivo da função de fiscal de caixa não equivale ao desligamento organizacional.

O indivíduo pode sentir que a função de fiscal de caixa perdeu seu sentido como projeto profissional, mesmo continuando empregado no supermercado e realizando atividades operacionais.

Nesse caso, há uma diferença entre o encerramento subjetivo de uma identidade ocupacional e o encerramento formal do vínculo de trabalho.

O vínculo continua. As tarefas continuam. As exigências físicas continuam. A remuneração continua sendo necessária.

Entretanto, o indivíduo já não reconhece necessariamente naquela função o lugar em que deseja construir seu futuro.

Essa situação pode ser descrita como uma transição profissional incompleta: a posição anterior perdeu força como projeto de vida, mas ainda não foi substituída por outra posição profissional viável.

É importante não interpretar o encerramento subjetivo como se o trabalhador já tivesse concluído o processo de desligamento psicológico. Enquanto permanece exposto às mesmas condições de trabalho, ele continua recebendo estímulos que podem reativar hábitos, expectativas e formas de agir próprias da função.

Assim, pode existir uma diferença entre o que o indivíduo deseja ser profissionalmente e a posição que precisa continuar ocupando para manter sua subsistência.

O luto, nesse caso, não significa necessariamente abandonar o emprego, pois o vínculo de trabalho continua. Significa elaborar a perda da expectativa de que aquela função possa constituir seu destino profissional desejado.

A consequência é que uma questão anteriormente encoberta pela rotina do trabalho volta a se apresentar:

Se eu não quero mais construir meu futuro como fiscal de caixa e ainda não consegui exercer Psicologia, qual será minha próxima posição profissional?

Essa pergunta não surge porque o indivíduo perdeu toda a sua identidade. Surge porque uma referência ocupacional importante perdeu sua legitimidade como projeto de futuro, enquanto outra ainda não adquiriu consistência suficiente.

A literatura sobre identidade profissional do psicólogo sustenta a relevância de compreender a passagem entre formação acadêmica e exercício profissional como parte de um processo de desenvolvimento da carreira, e não como uma consequência automática da graduação (Mazer & Melo-Silva, 2010).

7. O temor de não conseguir construir uma identidade profissional diferente

O indivíduo não está apenas diante da necessidade de encontrar outra vaga. Está diante da incerteza de conseguir construir uma trajetória diferente daquela que efetivamente conseguiu manter durante anos.

Essa incerteza possui uma base concreta: as oportunidades em Psicologia não se abriram da maneira esperada, e as tentativas de inserção não produziram, até o momento, o resultado desejado.

Por isso, o temor de continuar fiscal de caixa não deve ser tratado simplesmente como um pensamento negativo que precisa ser substituído por otimismo.

Ele se relaciona com a experiência acumulada de buscar oportunidades, não conseguir ingressar na área desejada e precisar continuar trabalhando em uma função que já não deseja como futuro profissional.

Podem coexistir três experiências psicológicas.

A primeira é a perda de uma referência conhecida. O indivíduo sabe como desempenhar o papel de fiscal de caixa, mesmo que não queira mais se identificar com ele. A função oferece uma estrutura conhecida de ação e sobrevivência.

A segunda é a insegurança diante de uma identidade ainda não consolidada. O indivíduo possui formação em Psicologia, mas não sabe se conseguirá transformar essa formação em uma ocupação remunerada e reconhecida.

A terceira é o receio de que a situação atual se prolongue. O fato de continuar trabalhando no supermercado pode alimentar a expectativa de que a vida profissional permanecerá organizada da mesma maneira por tempo indeterminado.

É importante distinguir o temor de não conseguir de uma demonstração de incapacidade. A trajetória passada explica por que o indivíduo teme não conseguir, mas não permite concluir que ele efetivamente não conseguirá.

Da mesma forma, a graduação não garante que uma oportunidade surgirá. A construção de outra identidade profissional dependerá também de condições do mercado, requisitos das instituições, possibilidades de inserção, recursos disponíveis e estratégias de transição.

A questão central é compreender como a experiência de insucesso ou de não concretização de oportunidades pode influenciar a maneira pela qual o indivíduo avalia suas possibilidades futuras.

A permanência prolongada em uma ocupação pode favorecer a percepção de que aquela é a única posição profissional possível, mesmo quando outras alternativas ainda precisam ser investigadas.

Entretanto, seria inadequado afirmar que tudo depende de uma mudança de pensamento. É preciso investigar oportunidades reais, barreiras de acesso e condições de trabalho.

8. A identidade profissional de psicólogo: formação concluída e inserção ainda não consolidada

A identidade profissional não é produzida apenas pela conclusão de um curso superior. Ela também se desenvolve mediante experiências, reconhecimento, participação em comunidades profissionais, aplicação de conhecimentos e construção progressiva de uma trajetória.

Mazer e Melo-Silva (2010) ressaltam que a identidade profissional do psicólogo envolve fatores pessoais e profissionais relacionados à escolha da carreira, à formação e ao exercício da profissão.

No caso descrito, pelo menos cinco fatores merecem investigação.

1. Descontinuidade entre formação e exercício profissional.

O indivíduo concluiu Psicologia, mas não conseguiu estabelecer uma trajetória remunerada contínua na área. A formação existe; a inserção profissional correspondente permanece limitada.

2. Experiências profissionais predominantemente vinculadas a outras ocupações.

O telemarketing e o supermercado ofereceram experiências concretas de trabalho, enquanto a identidade de psicólogo não encontrou a mesma continuidade institucional.

3. Ausência de uma posição profissional suficientemente definida.

O indivíduo sabe que deseja trabalhar com Psicologia, mas isso não determina, por si só, uma função específica, um público, uma instituição ou uma forma de ingresso no mercado.

4. Reconhecimento institucional insuficiente.

Quando as candidaturas não resultam em contratação, a pessoa pode começar a questionar não apenas suas chances de inserção, mas também o valor profissional de sua formação. Essa reação é possível, embora a ausência de contratação não prove falta de competência.

5. Desgaste associado à ocupação atual.

O desgaste físico e psicológico no supermercado pode reduzir a energia disponível para procurar oportunidades, atualizar competências, estabelecer contatos profissionais e preparar candidaturas.

Esses fatores podem se reforçar mutuamente. Quanto maior o desgaste, mais difícil pode ser investir na transição; quanto mais a transição demora, maior pode ser a sensação de aprisionamento na ocupação atual.

Esse ciclo, contudo, é uma hipótese de trabalho, não uma conclusão definitiva sobre o funcionamento psicológico do indivíduo.

A construção da identidade profissional de psicólogo exige, portanto, a articulação entre formação, experiência, competências demonstráveis e oportunidades concretas de inserção.

Não se trata de invalidar os anos de formação, mas de compreender por que eles ainda não se converteram na posição profissional desejada.

9. A transição profissional como processo contextual e não linear

A construção de carreira não precisa seguir uma sequência linear na qual a pessoa conclui a formação, ingressa imediatamente na profissão e permanece nela até a aposentadoria.

Savickas et al. (2009) propõem uma perspectiva de construção de carreira que considera as possibilidades contextuais, os processos dinâmicos, a progressão não linear e os diferentes aspectos da vida do indivíduo.

Essa perspectiva é pertinente ao caso analisado porque a trajetória não seguiu uma correspondência direta entre formação e ocupação.

O indivíduo estudou Psicologia, trabalhou em telemarketing, ingressou no supermercado e permaneceu no varejo. Agora, deseja construir uma trajetória profissional diferente, mas precisa fazê-lo a partir das condições atuais de sua vida.

O fato de uma carreira não ter seguido a sequência esperada não significa que sua construção tenha se tornado impossível. Significa que a transição exige uma avaliação realista dos recursos disponíveis, das barreiras existentes e das alternativas viáveis.

A literatura sobre transições também enfatiza a interação entre situação, recursos pessoais, suporte e estratégias de enfrentamento. Na análise de experiências de psicólogos gestores durante a pandemia, a interação entre recursos individuais e organizacionais foi identificada como relevante para lidar com mudanças profissionais (referência do estudo na seção bibliográfica).

Aplicada com cautela a este caso, essa perspectiva permite compreender que a transição não depende apenas de disposição pessoal. Ela também envolve condições materiais, oportunidades institucionais e apoio disponível.

O indivíduo não controla a abertura de vagas nem as decisões de contratação. Pode, entretanto, investigar áreas de atuação, aprimorar a apresentação de suas competências, diversificar estratégias de busca e avaliar as condições necessárias para uma mudança sustentável.

10. O risco de transformar a permanência no supermercado em uma previsão do futuro

Na Psicologia Organizacional, podemos investigar se o indivíduo começa a interpretar a continuidade da situação atual como evidência de que ela continuará indefinidamente.

A sequência poderia ser:

1.     Ele concluiu Psicologia, mas não conseguiu estabelecer uma carreira na área.

2.     Aceitou uma ocupação no supermercado para continuar trabalhando.

3.     Permaneceu nessa ocupação durante anos.

4.     Realizou o luto da identidade de fiscal de caixa como projeto de futuro.

5.     Continua fisicamente no supermercado, sem saber se conseguirá ingressar em outra área.

6.     Passa a temer que a função que já não deseja seja a única identidade profissional que conseguirá exercer.

O último passo merece atenção especial. A permanência prolongada em uma ocupação pode influenciar a percepção das possibilidades futuras, mas não demonstra que outras possibilidades deixaram de existir.

A experiência concreta de dificuldades de inserção pode levar o indivíduo a antecipar uma nova frustração. Nesse caso, as oportunidades futuras correm o risco de serem avaliadas não apenas por seus requisitos e condições reais, mas também pelo peso das experiências anteriores.

Entretanto, seria igualmente inadequado afirmar que tudo depende de uma mudança de pensamento. É preciso investigar oportunidades reais, barreiras de acesso e condições de trabalho.

A permanência no supermercado é um dado do presente; a impossibilidade de construir outra identidade profissional é uma conclusão sobre o futuro que ainda não foi demonstrada.

Essa distinção permite evitar duas interpretações extremas: considerar a trajetória passada uma prova de incapacidade ou afirmar que a inserção futura ocorrerá necessariamente.

O trabalho analítico deve sustentar a incerteza sem transformá-la em condenação nem em promessa.

11. A construção de uma nova identidade sem abandonar imediatamente o emprego atual

A construção de uma identidade profissional em Psicologia não pode depender necessariamente de uma ruptura imediata com o supermercado.

O indivíduo continua precisando trabalhar. Uma saída sem alternativa de renda pode ampliar a insegurança e dificultar ainda mais a transição.

A tarefa consiste em construir uma possibilidade profissional enquanto a atual fonte de renda ainda é necessária, desde que as condições de saúde e segurança permitam a continuidade.

Essa construção precisa ocorrer em dois planos.

No primeiro, o indivíduo continua exercendo suas responsabilidades profissionais atuais, sem confundir essa necessidade com uma obrigação de permanecer identificado com o cargo para o resto da vida.

No segundo, começa a desenvolver uma trajetória de inserção em Psicologia por meio de objetivos verificáveis: delimitar funções compatíveis com sua formação, mapear instituições, identificar requisitos, demonstrar competências, estabelecer contatos e avaliar os resultados das candidaturas.

O critério de avanço não deve ser apenas conseguir imediatamente um cargo de psicólogo. Também pode incluir a identificação de uma área de atuação viável, a ampliação de contatos, o reconhecimento de lacunas específicas e a obtenção de experiências pertinentes.

Esses passos não garantem contratação, mas permitem avaliar a transição por evidências concretas, em vez de depender exclusivamente da esperança ou do medo.

A função de fiscal de caixa já faz parte da história profissional do indivíduo. Ele não precisa negar essa história, desvalorizar as competências que adquiriu ou tratar os anos de trabalho como tempo inteiramente perdido.

Entretanto, também não precisa transformar essa história em uma sentença sobre o futuro.

O objetivo não é convencer o indivíduo de que será necessariamente contratado como psicólogo. É ajudá-lo a investigar, com realismo, quais possibilidades permanecem abertas e quais ações podem aumentar suas chances de inserção.

12. Direção de intervenção pela Psicologia Organizacional e do Trabalho

A intervenção mais útil seria organizar a transição em etapas, sem exigir que o indivíduo abandone imediatamente sua fonte de renda.

12.1. Diagnóstico da trajetória

Diferenciar formação, experiências efetivas em Psicologia, competências adquiridas no telemarketing e no supermercado, requisitos profissionais ainda não atendidos e condições materiais para a mudança.

12.2. Delimitação do campo profissional

Escolher uma ou duas áreas prioritárias dentro da Psicologia, identificando funções concretas, instituições contratantes, requisitos de ingresso e atividades compatíveis com a formação.

12.3. Construção de evidências profissionais

Organizar currículo, portfólio, experiências pertinentes, materiais técnicos e exemplos de atividades que demonstrem a aplicação dos conhecimentos psicológicos, sem atribuir a si experiências que não possui.

12.4. Experimentação e inserção

Realizar candidaturas direcionadas, estabelecer contatos profissionais e avaliar oportunidades de atuação compatíveis com os requisitos legais, éticos e técnicos, sem depender exclusivamente de uma única instituição.

12.5. Revisão da transição

Avaliar periodicamente os resultados obtidos, as barreiras encontradas, o desgaste provocado pelo emprego atual e a viabilidade financeira de cada alternativa.

A lógica dessa intervenção é substituir a espera indefinida por um processo de transição com objetivos observáveis. A permanência no supermercado deixa de ser interpretada automaticamente como fracasso e passa a ser considerada uma condição atual que precisa ser administrada enquanto se investiga outra possibilidade.

13. A questão fundamental: construir uma alternativa profissional viável

A função de fiscal de caixa já faz parte da história profissional do indivíduo. Ele não precisa negar essa história, desvalorizar as competências que adquiriu ou tratar os anos de trabalho como tempo inteiramente perdido.

Entretanto, também não precisa transformar essa história em uma sentença sobre o futuro.

Na perspectiva da Psicologia Organizacional e do Trabalho, o desafio é compreender como uma pessoa que construiu uma trajetória ocupacional fora da área em que se formou pode reorganizar suas competências, expectativas e estratégias para buscar uma nova inserção profissional.

Essa reorganização não depende exclusivamente da vontade individual. Depende da relação entre o trabalhador e as oportunidades efetivamente existentes.

Por isso, a investigação precisa considerar tanto os recursos do indivíduo quanto as barreiras institucionais e mercadológicas que encontrou.

O objetivo não é convencer o indivíduo de que será necessariamente contratado como psicólogo. É ajudá-lo a investigar, com realismo, quais possibilidades permanecem abertas e quais ações podem aumentar suas chances de inserção.

O desafio não é fabricar uma nova identidade nem apagar as anteriores. É construir condições para que a identidade profissional de psicólogo deixe de existir apenas como formação acadêmica e desejo de futuro e passe a encontrar expressão em atividades, relações profissionais e oportunidades concretas.

14. Conclusão

O indivíduo precisou aceitar uma oportunidade de trabalho no supermercado porque não conseguiu ingressar na área de Psicologia como desejava. Ao longo dos anos, construiu uma identidade ocupacional de fiscal de caixa que lhe permitiu trabalhar, adquirir experiência e manter sua subsistência.

Agora, ao elaborar o luto dessa identidade como projeto de futuro, encontra-se novamente diante da necessidade de construir uma posição profissional diferente. A dificuldade é que essa nova posição ainda não existe de maneira suficientemente concreta em sua vida.

Por isso, o medo de não conseguir exercer Psicologia é compreensível. Ele se apoia na distância entre a formação concluída, as oportunidades que não se concretizaram e os anos de permanência em outra ocupação.

Mas é preciso preservar uma distinção decisiva: não ter conseguido construir uma carreira em Psicologia até agora não equivale a ter perdido definitivamente a possibilidade de construí-la.

O indivíduo não precisa saber antecipadamente qual será sua identidade profissional definitiva. Precisa começar a transformar uma possibilidade ainda incerta em um processo de transição que possa ser investigado, planejado e avaliado.

A questão que permanece aberta é: como construir uma nova posição profissional quando a antiga já não representa o futuro desejado, mas a alternativa ainda não oferece segurança suficiente para ser assumida?

Essa é a tarefa central da transição: não apenas deixar de se reconhecer como fiscal de caixa, mas construir condições concretas para que outra identidade profissional possa adquirir realidade na vida do indivíduo.

O luto da identidade de fiscal de caixa encerra uma expectativa, mas não determina a identidade seguinte. A transição não está concluída apenas porque o indivíduo deixou de desejar a antiga função. Ela precisará avançar mediante a construção de uma alternativa profissional viável, considerando as condições econômicas, as oportunidades institucionais, os recursos pessoais e as experiências acumuladas.

Portanto, a questão decisiva não é quanto tempo o indivíduo permaneceu no supermercado, mas quais condições ele precisa construir para que o supermercado deixe de ser sua única referência profissional disponível e a Psicologia passe a ocupar um lugar efetivo em sua trajetória.

A permanência no supermercado é um dado do presente. O futuro profissional, entretanto, permanece em aberto.

Referências bibliográficas

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SAVICKAS, Mark L. et al. Life designing: a paradigm for career construction in the 21st century. Journal of Vocational Behavior, v. 75, n. 3, p. 239–250, 2009. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jvb.2009.04.004.

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COVID-19 E OS DESAFIOS POSTOS À ATUAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO: uma análise de experiências de psicólogos gestores. Psicologia: Ciência e Profissão. Artigo disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/4zhgMbKwz7jh4fFGzjdqR6R/. Acesso em: 9 out. 2026.

Nota metodológica

Este artigo constitui uma análise teórico-reflexiva de uma trajetória profissional relatada, não um estudo empírico publicado nem uma avaliação psicológica formal. As interpretações apresentadas são hipóteses de compreensão fundamentadas na Psicologia Organizacional e do Trabalho. A literatura citada sustenta os conceitos gerais sobre identidade profissional, construção de carreira e transição; não comprova, por si só, que todos os mecanismos discutidos estejam presentes no indivíduo analisado.

 

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  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Qual pode ser a motivação de um psicólogo para desejar trabalhar em instituições de longa permanecia para idosos. Vamos compreender o comportamento do psicólogo por meio da abordagem psicologia social. A psicologia social se preocupa em entender como os indivíduos são influenciados pelo contexto social em que vivem, incluindo as instituições. Ao trabalhar em uma instituição de longa permanência para idosos, um psicólogo pode ser motivado por diversos fatores relacionados a essa abordagem. Influências externas e tendências dominantes: Os psicólogos também estão sujeitos a influências externas, como a cultura profissional predominante, as demandas do sistema de saúde ou as preferências dos clientes. Se a abordagem psicanalítica, terapia comportamental cognitiva, psicologia humanista e outras não for valorizada ou for menos solicitada em determinado contex...

Dinheiro objeto de cobiça na pandemia

Ano 2020.Escrito por Ayrton Junior O presente artigo chama a atenção do leitor(a) a olhar para si mesmo e perceber como está se enxergando na pandemia em relação ao dinheiro e as partes não resolvidas que espelha o dinheiro na sua vida. Nossos hábitos financeiros não são apenas produtos do condicionamento e de lições aprendidas de como manejar o dinheiro que aprendemos [ou não] quando crianças. Existem sujeitos gastadores e poupadores nas famílias, crianças que cresceram na pobreza e conseguem riqueza, herdeiros que gastam toda a fortuna da família. Nas relações que temos com nossas finanças está ligado ao auto controle da ação por impulso [prazer / e ou desprazer e a ansiedade]. Um dos instrumentos de aferição da saúde psíquica é exatamente a relação da pessoa com o dinheiro. O leitor já chegou à conclusão óbvia de que o dinheiro ou poder cobrem ilusoriamente todas as carências pessoais, pois a pessoa que o detém será objeto do comentário, cobiça e interesse dos demais a sua vo...

O Fiscal Morto: A Escuta Psicanalítica de um Ego Dividido entre o Dever e o Desejo

  Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo] Introdução Este livro nasce da escuta de um conflito silencioso: o de um sujeito que, formado em Psicologia, atua como fiscal de caixa em um supermercado — um espaço de intensa dinâmica social, mas carente de reconhecimento subjetivo. O personagem central, o fiscal psicólogo , simboliza o homem moderno dividido entre o trabalho que sustenta o corpo e o desejo que alimenta a alma . No entanto, o ambiente organizacional, regido por normas e metas, torna-se o espelho de uma estrutura psíquica aprisionada: o superego institucional, que reprime o desejo de ser, em nome do dever de parecer produtivo. Pela lente da psicanálise , este livro propõe uma escuta — ou, como diria Lacan, uma escanálise — da dor de um sujeito que, sem perceber, retirou a libido de sua própria função. A análise busca compreender o processo inconsciente que o levou a se perceber como um “fiscal morto” , sem prazer, sem reconhecimento e sem o brilho do desejo que...

Entretenimento Vs Saúde Mental

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Na psicanálise, o comportamento humano é frequentemente dividido em duas partes: o consciente e o inconsciente. O consciente é o que estamos cientes e percebemos, enquanto o inconsciente é o que está escondido em nossas mentes e nos influencia sem que estejamos conscientes disso. Quando se trata de preferências de entretenimento, como o que as pessoas escolhem assistir em plataformas online, tanto o consciente quanto o inconsciente desempenham papéis importantes. Estímulos Conscientes: As pessoas geralmente escolhem assistir a vídeos que as fazem sentir-se bem, entretidas ou informadas. Elas podem estar conscientemente evitando assuntos relacionados à saúde mental porque acham esses temas desconfortáveis, perturbadores ou simplesmente não têm interesse neles. Escolhem coisas que se alinham com seus interesses pessoais, hobbies ou valores co...

Deslocamento Libidinal e Frustração Profissional: Uma Leitura Psicanalítica da Intensificação do Investimento Erótico na Vida Adulta

  Resumo Este artigo propõe uma análise psicanalítica da intensificação da excitação sexual em um homem adulto que, diante de frustrações profissionais persistentes, investe maciçamente sua libido em uma relação virtual marcada por troca de nudez e erotização recíproca. A partir da metapsicologia de Sigmund Freud, articulam-se os conceitos de libido, deslocamento, catexia, sublimação e economia psíquica para compreender o fenômeno. Dialoga-se também com contribuições de Jacques Lacan acerca do desejo e da falta, ampliando a interpretação estrutural do caso. Palavras-chave: libido; deslocamento; frustração profissional; sublimação; desejo; psicanálise. 1. Introdução A psicanálise concebe o psiquismo como uma economia de forças, na qual a energia pulsional — particularmente a libido — busca constantemente vias de investimento e descarga. Quando determinadas áreas da vida encontram-se bloqueadas ou frustradas, essa energia pode ser redirecionada para outros objetos disp...

Academia E O Cerebro

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Na neuropsicologia, estudamos como o cérebro e o sistema nervoso influenciam o comportamento e os processos mentais. A atividade física é um exemplo claro de como esses elementos estão interligados, pois o exercício não só afeta o corpo, mas também causa efeitos positivos e significativos no cérebro. 1. Aumento de neurotransmissores Durante o exercício, o cérebro libera substâncias chamadas neurotransmissores, como a dopamina, serotonina e endorfina. Cada uma dessas substâncias tem um papel específico no humor e na motivação: Dopamina: Está associada à sensação de prazer e recompensa. Quando fazemos exercício, os níveis de dopamina aumentam, o que ajuda a melhorar o humor e dá uma sensação de satisfação. Serotonina: Esse neurotransmissor ajuda a regular o humor, o sono e o apetite. O exercício aumenta a serotonina, promovendo uma sensação de ...