Não conseguiu construir um caminho de sucesso: o luto pela identidade profissional do psicólogo após sucessivas experiências de fracasso
Introdução
A
construção de uma identidade profissional é um processo contínuo que envolve
investimento emocional, formação acadêmica, aquisição de experiência,
reconhecimento social e retorno financeiro. Entretanto, nem sempre o esforço
empreendido conduz aos resultados esperados. Em algumas trajetórias, o sujeito
percebe que, apesar da persistência, diferentes caminhos percorridos permanecem
fechados, produzindo um sentimento de esgotamento, desesperança e fracasso.
O
presente artigo discute a trajetória de um psicólogo graduado em 2018 que, ao
longo de oito anos, buscou inserir-se em diferentes campos de atuação da
Psicologia, investindo tempo, recursos financeiros, conhecimento técnico e
dedicação, mas sem alcançar estabilidade profissional. A partir dessa
experiência, emerge a elaboração psíquica do luto pela profissão, entendida
como a perda de um projeto identitário que não conseguiu se consolidar na
realidade.
A construção de diferentes
caminhos profissionais
Após
concluir a graduação em Psicologia em 2018, iniciou-se uma busca ativa pela
inserção profissional.
O
primeiro caminho foi a clínica psicológica.
O
psicólogo investiu na construção de consultório presencial e posteriormente no
atendimento on-line. Produziu materiais de divulgação, desenvolveu sua
identidade profissional, buscou pacientes por diferentes meios e manteve
disponibilidade para atendimento.
Apesar
dos esforços, a clínica permaneceu com escassez de pacientes, tornando-se
financeiramente insuficiente para sustentar sua vida profissional.
Essa
primeira experiência já produziu uma discrepância entre o ideal construído
durante a graduação e a realidade encontrada após a formação.
Segundo
Bohoslavsky (1998), a identidade ocupacional é construída quando existe
reconhecimento social da profissão exercida. Quando esse reconhecimento não
ocorre, instala-se um conflito entre aquilo que o sujeito acredita ser e aquilo
que consegue efetivamente realizar.
A tentativa na Psicologia Social
Na
sequência, o profissional voltou-se para a Psicologia Social.
Participou
de inúmeros processos seletivos para instituições sociais, organizações do
terceiro setor e equipamentos públicos.
Embora
fosse convocado para algumas etapas, não obteve aprovação suficiente para
assumir cargos.
Essa
repetição de insucessos passou a produzir uma interpretação subjetiva de
incapacidade profissional.
Na
perspectiva cognitiva descrita por Beck (2013), sucessivos fracassos podem
favorecer a formação de crenças centrais como:
- "Não sou
competente."
- "Não sou
escolhido."
- "Meu esforço
nunca produz resultados."
Essas
crenças passam a influenciar a leitura que o sujeito faz dos acontecimentos
futuros.
A tentativa nos concursos
públicos
Outro
caminho percorrido foi o dos concursos públicos.
Durante
anos realizou estudos, preparação e participação em provas destinadas à
contratação de psicólogos.
Entretanto,
não conseguiu aprovação.
Na
experiência subjetiva do profissional, os concursos deixaram de representar
oportunidade e passaram a simbolizar repetidas confirmações de fracasso.
A tentativa na Psicologia
Hospitalar
Havia
também uma expectativa construída a partir de sua experiência anterior como
técnico em mecânica no Hospital de Clínicas da Unicamp.
A
familiaridade com o ambiente hospitalar fazia acreditar que esse poderia ser um
caminho possível para exercer a Psicologia Hospitalar.
Entretanto,
essa expectativa igualmente não se concretizou.
O
ambiente que anteriormente representava pertencimento passou a simbolizar uma
oportunidade perdida.
A tentativa na Psicologia
Organizacional
Enquanto
trabalhava como fiscal de caixa em um supermercado, surgiu a expectativa de
migração interna para o setor de Recursos Humanos.
A
função de Assistente de RH Generalista representava a possibilidade de utilizar
sua formação em Psicologia dentro da própria empresa.
Participou
do processo seletivo interno.
Aguardou
retorno durante semanas.
O
retorno nunca ocorreu de forma positiva.
A
promoção não aconteceu.
Esse
episódio possui importante significado psicológico.
O
fracasso não ocorreu em uma instituição desconhecida, mas no próprio local onde
já trabalhava e onde sua formação acadêmica era conhecida.
Essa
experiência pode intensificar sentimentos de invisibilidade profissional.
Segundo
Dejours (1992), a ausência de reconhecimento no trabalho constitui uma das
principais fontes de sofrimento psíquico.
A tentativa na Psicologia do
Esporte
Outro
investimento ocorreu na Psicologia do Esporte.
Desenvolveu
um projeto completo para atuação dentro de uma academia.
Produziu
conteúdos científicos.
Criou
vídeos educativos.
Escreveu
artigos.
Elaborou
materiais voltados para motivação, ansiedade, autoestima, imagem corporal,
aderência ao exercício físico e comportamento esportivo.
Buscou
parceria institucional.
Apesar
do investimento intelectual, o projeto não alcançou adesão suficiente para
consolidar sua atuação.
Na
percepção do profissional, mais um caminho foi encerrado sem resultados
concretos.
A tentativa como Educador Social
Paralelamente,
o psicólogo possuía graduação em Teologia.
Essa
segunda formação ampliava a expectativa de atuação como educador social em
instituições vinculadas à igreja.
Mesmo
assim, não foi selecionado.
Também
não conseguiu inserção como psicólogo social nesses espaços.
O
fracasso ultrapassava, portanto, apenas a Psicologia e alcançava outra
identidade profissional construída ao longo da vida.
O voluntariado no Centro de
Referência LGBT
Entre
2017 e 2025 atuou como psicólogo voluntário em um Centro de Referência LGBT.
O
voluntariado representava experiência prática, compromisso social e dedicação à
população atendida.
Naturalmente
surgiu a expectativa de que essa trajetória pudesse favorecer futura
contratação.
Contudo,
essa contratação nunca ocorreu.
Do
ponto de vista subjetivo, o voluntariado passou a representar investimento
afetivo sem retorno profissional.
A produção científica e digital
Na
tentativa de ampliar sua visibilidade profissional, o psicólogo investiu também
na produção de conhecimento.
Construiu
um site profissional.
Criou
um blog.
Publicou
artigos.
Organizou
conteúdos científicos.
Produziu
textos durante anos.
Escreveu
materiais técnicos.
Divulgou
conhecimentos relacionados à Psicologia.
Esperava
que essa produção favorecesse sua procura como psicólogo clínico.
Entretanto,
novamente não percebeu retorno significativo.
O acúmulo dos fracassos
Isoladamente,
cada tentativa poderia ser compreendida como parte natural da trajetória
profissional.
Entretanto,
quando observadas em conjunto durante aproximadamente oito anos, essas
experiências passaram a constituir uma narrativa pessoal de fracasso.
Na
teoria da desesperança, Abramson, Metalsky e Alloy (1989) descrevem que
sucessivos eventos negativos podem levar o indivíduo a concluir que seus
esforços não modificam os resultados futuros.
Essa
percepção reduz significativamente a expectativa de sucesso.
O luto pela profissão
Nesse
contexto, emerge a ideia de desistir completamente da Psicologia.
Não se
trata apenas de abandonar uma ocupação.
O que
está sendo perdido é uma identidade construída durante anos.
Segundo
Freud (1917/2010), o luto consiste na elaboração psíquica diante da perda de um
objeto investido afetivamente.
Nesse
caso, o objeto perdido não é uma pessoa.
É um
projeto de vida.
É a
imagem de si como psicólogo bem-sucedido.
É o
futuro imaginado durante a graduação.
Kubler-Ross
(1969) descreve que perdas importantes costumam mobilizar negação, raiva,
barganha, tristeza e aceitação, embora essas experiências não ocorram
necessariamente em ordem fixa. No contexto profissional, sentimentos
semelhantes podem surgir quando um projeto de vida deixa de parecer viável.
Razões que levam o sujeito a
considerar o luto da Psicologia
Na
narrativa apresentada, destacam-se fatores que ajudam a explicar por que essa
ideia emerge:
- oito anos de
investimento contínuo sem alcançar estabilidade profissional;
- repetidas
reprovações em processos seletivos;
- ausência de
aprovação em concursos públicos;
- clínica com baixa
demanda de pacientes;
- fracasso percebido
em diferentes especialidades da Psicologia;
- ausência de
promoção interna na empresa em que trabalha;
- expectativa
frustrada de contratação após longo período de voluntariado;
- ausência de
retorno percebido dos investimentos em marketing profissional, produção
científica, blog e site;
- desgaste emocional
decorrente da discrepância entre expectativa e realidade;
- conflito entre a
identidade desejada (psicólogo) e a ocupação exercida (fiscal de caixa).
Esses
fatores podem contribuir para um processo de luto profissional, ainda que não
determinem, por si só, que abandonar a carreira seja a única alternativa.
Conclusão
A
trajetória apresentada evidencia o sofrimento que pode surgir quando anos de
investimento acadêmico, profissional e emocional não resultam na inserção
esperada no mercado de trabalho. Para esse psicólogo, a repetição de
experiências frustradas em diferentes áreas — clínica, social, hospitalar,
organizacional, esportiva, educacional, concursos públicos e produção
científica — levou à percepção de que nenhum dos caminhos construídos produziu
o sucesso almejado.
Sob o
ponto de vista psicológico, a decisão de considerar o abandono da profissão
pode ser compreendida como parte de um processo de elaboração de perdas, no
qual o sujeito busca reorganizar sua identidade diante da distância entre seus
projetos e a realidade vivida. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa
conclusão decorre de uma interpretação construída a partir de sua história e de
seu contexto, não constituindo uma prova de incapacidade profissional nem uma
demonstração de que novos caminhos estejam definitivamente impossibilitados. O
luto, quando ocorre, representa a elaboração de uma perda significativa; as
decisões sobre o futuro profissional, contudo, podem ser revistas à medida que
novos contextos, oportunidades e significados se apresentem.
Referências
- Abramson, L. Y., Metalsky, G. I., & Alloy,
L. B. (1989). Hopelessness depression: A theory-based subtype of
depression. Psychological
Review, 96(2), 358–372.
- Beck, J. S.
(2013). Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. Porto
Alegre: Artmed.
- Bohoslavsky, R.
(1998). Orientação Vocacional: a estratégia clínica. São Paulo:
Martins Fontes.
- Dejours, C.
(1992). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho.
São Paulo: Cortez.
- Erikson, E. H.
(1976). Identidade: juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar.
- Freud, S. (2010). Luto
e Melancolia (1917). In: Obras Completas, Vol. 12. São Paulo:
Companhia das Letras.
- Kübler-Ross, E. (1969). On Death and Dying.
New York: Macmillan.
- Super, D. E. (1990). A Life-Span, Life-Space
Approach to Career Development. In: D. Brown & L. Brooks (Orgs.), Career
Choice and Development. San
Francisco: Jossey-Bass.
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