O Sofrimento Psíquico do Trabalhador Desalinhado de sua Identidade Profissional: Uma Compreensão Psicanalítica e da Psicodinâmica do Trabalho sobre a Permanência em uma Função sem Sentido
Resumo
O
presente artigo discute o sofrimento psíquico decorrente do desalinhamento
entre a identidade profissional do sujeito e a função efetivamente exercida no
contexto organizacional. Parte-se da hipótese de um trabalhador graduado em
Psicologia que permanece atuando como fiscal de caixa em um supermercado,
percebendo essa atividade como incompatível com seu projeto profissional. O
estudo aborda o impacto da frustração pela não concretização de uma
oportunidade de atuação em Recursos Humanos, a convivência em um ambiente de
trabalho percebido pelo sujeito como tóxico, a elaboração psicanalítica da
aceitação da realidade, o luto por um projeto profissional interrompido e a
ampliação da compreensão do sofrimento para outras pessoas que também podem
vivenciar desalinhamentos entre formação e atividade exercida. A discussão
fundamenta-se na psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan, na psicodinâmica
do trabalho de Christophe Dejours e em contribuições da psicologia
organizacional e da saúde do trabalhador.
Introdução
O
trabalho ocupa um lugar central na constituição da identidade humana. Além de
garantir a sobrevivência material, representa uma importante fonte de
reconhecimento social, pertencimento, desenvolvimento pessoal e realização
subjetiva. Quando existe coerência entre os valores do indivíduo, sua formação
acadêmica e a atividade profissional desempenhada, o trabalho tende a favorecer
sentimentos de competência, utilidade e significado. Entretanto, quando essa
coerência é rompida, podem surgir conflitos psíquicos importantes.
O
presente artigo analisa a situação de um sujeito que concluiu sua graduação em
Psicologia, construiu um projeto profissional voltado para o cuidado das
pessoas e para a atuação em Recursos Humanos, mas permanece trabalhando como
fiscal de caixa em um supermercado. Segundo seu próprio relato, essa função
perdeu completamente o sentido subjetivo, passando a representar uma atividade
incompatível com sua identidade profissional.
Além
do desalinhamento ocupacional, o sujeito relata intenso sofrimento relacionado
ao contexto organizacional, incluindo a percepção de convivência diária com
conflitos interpessoais, falta de reconhecimento profissional e frustração
decorrente da não concretização de uma oportunidade de atuar como assistente de
Recursos Humanos. É importante observar que essa interpretação corresponde à
experiência subjetiva do trabalhador e não permite, por si só, estabelecer
conclusões objetivas sobre as decisões da organização.
Na
perspectiva psicanalítica, esse sofrimento pode ser compreendido como resultado
do conflito entre o desejo e a realidade. O sujeito deseja exercer a profissão
para a qual se preparou academicamente, mas permanece ocupando um lugar
profissional que considera incompatível com sua história, seus valores e seu
projeto de vida.
Esse
conflito produz uma ruptura entre identidade e atividade laboral. O trabalho
deixa de funcionar como espaço de realização e passa a ser experimentado como
repetição, aprisionamento e desgaste emocional.
Sob a
ótica da psicodinâmica do trabalho, o sofrimento emerge quando o trabalhador
não consegue atribuir sentido àquilo que realiza diariamente, especialmente
quando percebe ausência de reconhecimento institucional e limitações para
desenvolver seu potencial profissional (Dejours, 2015).
Outro
aspecto relevante discutido ao longo desta reflexão é que, ao compreender a
origem de seu próprio sofrimento, o sujeito amplia sua capacidade de perceber
que outras pessoas também podem vivenciar conflitos semelhantes. Essa percepção
favorece uma postura mais empática diante de trabalhadores que exercem
atividades desalinhadas de seus projetos profissionais, sem que isso implique
concluir que todos vivam a mesma experiência ou ocultem sofrimento.
Da
mesma forma, a discussão é estendida às transições de carreira, como a
aposentadoria, destacando que a perda do papel ocupacional pode demandar
elaboração psicológica e reconstrução de novos sentidos de vida, embora essa
experiência varie entre indivíduos.
Este
artigo propõe, portanto, uma análise integrada entre psicanálise, psicologia
organizacional e psicodinâmica do trabalho, buscando compreender como o
desalinhamento entre identidade profissional e função exercida pode repercutir
na saúde mental do trabalhador, na elaboração de suas frustrações e na
construção de novos projetos de vida.
1. O trabalho como organizador
da identidade
Desde
a infância, o ser humano constrói representações acerca daquilo que deseja ser.
Essas representações são influenciadas por experiências familiares, escolares,
culturais e sociais. A escolha profissional passa a integrar a identidade do
indivíduo muito antes de sua inserção efetiva no mercado de trabalho.
Quando
o sujeito ingressa em uma graduação, especialmente em uma profissão vocacional
como a Psicologia, ele não adquire apenas conhecimentos técnicos; constrói
também uma identidade profissional baseada em determinados valores, como o
cuidado, a escuta, a promoção da saúde mental e o desenvolvimento humano.
Quando,
após a conclusão da formação, o indivíduo permanece por longo período exercendo
uma atividade percebida como incompatível com esse projeto identitário, pode
surgir um conflito profundo entre aquilo que acredita ser e aquilo que
efetivamente realiza.
Na
psicanálise, esse conflito pode ser entendido como um desencontro entre o
desejo e a realidade objetiva. O desejo permanece direcionado à atuação em
Psicologia, enquanto a realidade cotidiana exige o desempenho contínuo de
funções que o sujeito percebe como distantes desse ideal.
Para
Freud (1923), o ego é constantemente solicitado a negociar entre os desejos
internos, as exigências da realidade e as normas sociais. Quando essa
negociação se torna persistentemente frustrante, o sofrimento psíquico tende a
aumentar.
Sob a
perspectiva de Lacan (1964), o desejo não é simplesmente um objetivo
profissional específico, mas um elemento estruturante da subjetividade. Quando
o sujeito percebe que ocupa um lugar social incompatível com esse desejo, a
angústia pode intensificar-se.
Nesse
contexto, o trabalho de fiscal de caixa deixa de ser percebido apenas como uma
ocupação remunerada. Passa a representar, simbolicamente, a distância entre o
projeto de vida imaginado e a realidade efetivamente vivida.
Essa
experiência, entretanto, deve ser compreendida em sua singularidade. Nem todo
trabalhador que exerce uma função diferente daquela para a qual estudou
vivencia sofrimento intenso. Alguns encontram novas formas de realização,
enquanto outros reinterpretam seus projetos profissionais ao longo da vida. A
intensidade do sofrimento depende da história, dos valores, das expectativas e
do significado atribuído ao trabalho por cada indivíduo.
2. O luto pelo projeto
profissional, a frustração da promoção e o ambiente organizacional como
potencializador do sofrimento psíquico
O
sofrimento relacionado ao trabalho nem sempre decorre apenas das tarefas
executadas. Em muitos casos, ele emerge da ruptura entre aquilo que o
trabalhador esperava construir profissionalmente e aquilo que a realidade lhe
oferece. Quando essa ruptura persiste ao longo do tempo, ela pode desencadear
um processo semelhante ao luto.
Na
perspectiva de Sigmund Freud, o luto não se limita à perda de pessoas. Também
pode ocorrer diante da perda de projetos, expectativas, posições sociais ou
ideais investidos de intenso valor afetivo. Assim, quando um trabalhador
investe anos em uma formação acadêmica e constrói a expectativa de atuar em
determinada área, a não concretização desse projeto pode ser vivida como uma
perda significativa.
No
caso discutido neste artigo, o sujeito relata ter construído um projeto
profissional voltado para a Psicologia e para a atuação em Recursos Humanos. A
possibilidade de exercer uma função de assistente de RH representava, para ele,
mais do que uma mudança de cargo: simbolizava o reconhecimento de sua formação,
a aproximação de sua identidade profissional e a retomada de um projeto de vida
que permanecia suspenso.
A não
concretização dessa oportunidade foi experimentada pelo sujeito como uma
frustração intensa. É importante destacar que a interpretação de que houve um
impedimento deliberado por parte da supervisão corresponde à percepção
subjetiva do trabalhador. Com base apenas em seu relato, não é possível afirmar
objetivamente quais fatores determinaram a decisão organizacional. Do ponto de
vista clínico, entretanto, o elemento central é compreender o significado que
essa experiência adquiriu para o sujeito.
Essa
experiência pode representar uma ferida narcísica. Para Freud (1914), o
narcisismo está relacionado ao investimento libidinal na própria imagem e ao
sentimento de valor pessoal. Quando o trabalhador percebe que seu esforço, sua
formação e suas competências não são reconhecidos, sua autoestima pode ser profundamente
afetada.
A
consequência não é apenas a tristeza pela oportunidade perdida, mas também o
questionamento de si mesmo: "Meu investimento valeu a pena?",
"Minha formação tem algum valor?", "Existe espaço para mim na
profissão que escolhi?". Essas perguntas podem produzir sofrimento
persistente e enfraquecer a esperança em relação ao futuro profissional.
Ao
mesmo tempo, o ambiente organizacional descrito pelo sujeito é percebido como
um espaço de conflitos interpessoais, desgaste emocional e ausência de
perspectivas de crescimento. Independentemente de como esse ambiente seja
avaliado por outros trabalhadores, essa é a forma como ele é experimentado
subjetivamente, e é essa experiência que interessa à escuta clínica.
Segundo
Christophe Dejours, o sofrimento no trabalho tende a se intensificar quando o
trabalhador não encontra reconhecimento por aquilo que faz nem possibilidades
concretas de mobilizar suas competências. O reconhecimento não se reduz à
promoção ou ao salário; ele envolve sentir que o próprio trabalho possui valor
para si e para os outros.
Quando
o reconhecimento esperado não ocorre, o sofrimento pode assumir formas
variadas: desmotivação, perda de entusiasmo, sensação de inutilidade, redução
do investimento afetivo no trabalho e diminuição das expectativas em relação ao
futuro.
Outro
elemento importante é a convivência cotidiana com relações interpessoais
percebidas como difíceis. O sujeito relata que considera uma colega de trabalho
passivo-agressiva e que essa convivência diária aumenta seu desgaste emocional.
Sem afirmar objetivamente características da personalidade dessa colega, é
possível reconhecer que essa interação é vivida pelo sujeito como fonte
adicional de tensão.
Na
psicodinâmica do trabalho, as relações interpessoais constituem um dos fatores
centrais para a saúde mental. Ambientes marcados por conflitos persistentes,
baixa cooperação e comunicação difícil podem ampliar significativamente o
sofrimento ocupacional, sobretudo quando o trabalhador já se encontra
emocionalmente fragilizado por outras frustrações.
Nessas
circunstâncias, o ambiente deixa de ser percebido apenas como um local de
trabalho e passa a representar um espaço associado à angústia, à perda de
esperança e à repetição diária de experiências frustrantes.
Sob a
perspectiva de Jacques Lacan, o sofrimento também pode ser compreendido como
efeito da distância entre o lugar que o sujeito deseja ocupar e o lugar que
efetivamente ocupa no campo social. O desejo de atuar como psicólogo ou em
Recursos Humanos permanece vivo, enquanto a realidade cotidiana reafirma sua
permanência em uma função que ele considera incompatível com sua identidade
profissional.
Essa
distância entre desejo e realidade não produz apenas insatisfação. Ela pode
modificar a maneira como o sujeito percebe a si mesmo, seu futuro e suas
possibilidades de transformação.
É
nesse contexto que a aceitação da realidade passa a ocupar um lugar importante.
Do ponto de vista psicanalítico, aceitar não significa concordar com a situação
nem abandonar definitivamente o projeto profissional. Significa reconhecer os
limites da realidade presente para que a energia psíquica deixe de estar
exclusivamente investida na tentativa de modificar aquilo que não depende
apenas do sujeito e possa ser direcionada à elaboração do sofrimento e à
construção de novas possibilidades.
Esse
processo é frequentemente lento e doloroso, pois implica renunciar à
expectativa de que a realidade atual corresponda ao ideal anteriormente
construído. Contudo, essa elaboração pode abrir espaço para que o desejo seja
preservado sem ficar aprisionado exclusivamente à experiência frustrante vivida
naquela organização específica.
3. A compreensão do próprio
sofrimento, a ampliação da empatia e o sofrimento silencioso no trabalho
Um dos
movimentos psíquicos mais importantes ocorre quando o sujeito deixa de
compreender seu sofrimento apenas como um problema individual e passa a
percebê-lo inserido em uma realidade social mais ampla. A experiência pessoal
torna-se uma via de acesso para compreender que o trabalho, embora seja fonte
de realização para muitas pessoas, também pode constituir uma importante fonte
de sofrimento para outras.
No
caso analisado, o sujeito passa a reconhecer que sua dor não decorre
exclusivamente de uma fragilidade pessoal. Ela está relacionada, segundo sua
percepção, ao fato de exercer uma função que considera profundamente
desalinhada de sua identidade profissional, permanecer em um ambiente que
vivencia como desgastante e não conseguir exercer, de forma efetiva, a
profissão para a qual se preparou academicamente.
Essa
compreensão modifica a forma como ele olha para si mesmo. Em vez de interpretar
seu sofrimento apenas como um fracasso individual, ele começa a reconhecer a
influência das condições de trabalho, da organização e das oportunidades
disponíveis sobre sua experiência subjetiva.
Ao
mesmo tempo, essa mudança de perspectiva amplia sua capacidade de empatia. O
sujeito passa a olhar para outras pessoas e se perguntar se elas também
experimentam conflitos semelhantes entre aquilo que desejavam profissionalmente
e aquilo que efetivamente realizam.
Essa
reflexão pode levá-lo, por exemplo, a olhar para seu filho e questionar se a
atividade profissional exercida por ele está ou não alinhada aos seus
interesses, valores e projetos de vida. Contudo, do ponto de vista clínico, é
importante reconhecer que essa é uma hipótese que precisa ser construída na
escuta do próprio filho. Não se pode concluir, apenas por analogia, que ambos
compartilham a mesma experiência.
Da
mesma forma, ao observar colegas que trabalham como operadores de caixa,
fiscais ou em outras funções operacionais, o sujeito pode reconhecer que
algumas dessas pessoas talvez também enfrentem conflitos entre sua formação,
seus sonhos e a ocupação que exercem. Entretanto, seria inadequado afirmar que
todos vivem esse sofrimento. Algumas podem sentir-se realizadas, outras podem
enxergar aquele trabalho como um meio temporário de sustento, enquanto outras
realmente podem experimentar intenso sofrimento psíquico.
Essa
cautela é importante porque a psicanálise parte do princípio da singularidade
do sujeito. Cada trabalhador atribui um significado próprio ao trabalho, às
perdas, às frustrações e às possibilidades de realização.
O sofrimento silencioso e os
mecanismos de defesa
A
percepção do sujeito também o leva a refletir sobre o sofrimento que pode
permanecer invisível nas organizações. Muitas pessoas continuam desempenhando
suas atividades sem verbalizar angústias, frustrações ou sentimentos de
desalinhamento profissional.
Segundo
Christophe Dejours, o sofrimento no trabalho nem sempre aparece de forma
explícita. Para continuar produzindo e suportar situações difíceis,
trabalhadores podem desenvolver estratégias defensivas individuais e coletivas.
Essas estratégias ajudam a preservar o funcionamento psíquico, mas também podem
dificultar o reconhecimento do sofrimento.
Na
perspectiva de Sigmund Freud, mecanismos de defesa como a negação, a
racionalização e a repressão podem atuar protegendo o indivíduo de conteúdos
dolorosos. Assim, algumas pessoas podem minimizar o impacto do trabalho sobre
sua saúde mental, evitar falar sobre o tema ou convencer-se de que "é
assim mesmo", não porque necessariamente estejam satisfeitas, mas porque
essa forma de enfrentamento lhes permite continuar funcionando.
Entretanto,
é igualmente importante reconhecer que nem toda pessoa que fala pouco sobre o
trabalho ou demonstra resistência em discutir sofrimento está utilizando
mecanismos de negação. Algumas realmente experimentam satisfação na atividade
que exercem. Por isso, a escuta clínica deve evitar generalizações e
privilegiar a experiência singular de cada trabalhador.
O desalinhamento profissional
como fenômeno social
A
reflexão do sujeito também conduz a uma compreensão mais ampla da realidade
social. Muitas pessoas investem anos em formação acadêmica, desenvolvem
expectativas sobre determinada profissão e, posteriormente, encontram
dificuldades para ingressar na área desejada. Razões econômicas, limitações do
mercado de trabalho, responsabilidades familiares ou oportunidades restritas
podem levá-las a exercer funções diferentes daquelas inicialmente planejadas.
Esse
fenômeno pode gerar sofrimento quando o indivíduo percebe que existe uma
distância persistente entre sua identidade profissional e sua atividade
cotidiana. Contudo, essa distância não produz os mesmos efeitos em todas as
pessoas. Algumas conseguem reconstruir seus projetos de vida e encontrar novos
significados; outras vivenciam esse desalinhamento como uma perda profunda.
A aposentadoria e a reconstrução
da identidade
A
compreensão do sofrimento relacionado ao trabalho também permite refletir sobre
outra transição importante: a aposentadoria.
Durante
décadas, muitas pessoas organizam sua identidade em torno da profissão. O
trabalho estrutura a rotina, as relações sociais, a percepção de utilidade e o
reconhecimento recebido da sociedade. Quando esse papel ocupacional se encerra,
pode surgir a necessidade de reconstruir a própria identidade.
A
psicologia do envelhecimento e a psicologia organizacional destacam que
programas de preparação para a aposentadoria podem favorecer essa transição,
auxiliando o indivíduo a elaborar perdas, desenvolver novos projetos e
fortalecer outras fontes de significado para além do trabalho.
Entretanto,
assim como ocorre com o desalinhamento profissional, não se pode afirmar que
todas as pessoas aposentadas sofram ou neguem a importância da preparação
psicológica. Algumas vivem a aposentadoria como uma perda significativa; outras
a experimentam como uma etapa de liberdade, novos vínculos e realização
pessoal.
Sob a
ótica psicanalítica, o elemento central permanece o mesmo: compreender o
significado singular que o trabalho — e sua ausência — ocupa na história de
cada sujeito.
4. Discussão
A
análise desenvolvida ao longo deste artigo permite compreender que o sofrimento
relacionado ao trabalho não pode ser explicado apenas pelas características
objetivas da função exercida. Sob a perspectiva da psicanálise e da
psicodinâmica do trabalho, o sofrimento emerge da relação que o sujeito
estabelece com seu trabalho, com sua história, com seus projetos e com o
significado que atribui à atividade profissional.
No
caso discutido, o sujeito descreve uma experiência marcada pela percepção de
incompatibilidade entre sua identidade profissional e a função de fiscal de
caixa. Após concluir a graduação em Psicologia, construiu um projeto voltado
para o cuidado das pessoas e para a atuação em Recursos Humanos. Entretanto,
permanece desempenhando uma atividade que, em sua experiência subjetiva, já não
corresponde aos valores, às competências e ao futuro que imaginou para si.
Essa
situação pode ser compreendida como um conflito entre identidade profissional e
realidade ocupacional. O sofrimento não decorre apenas das tarefas executadas,
mas do significado simbólico que elas passaram a assumir. A cada jornada de
trabalho, o sujeito pode experimentar a sensação de estar distante do projeto
de vida que construiu ao longo de sua formação acadêmica.
Outro
aspecto discutido refere-se à frustração decorrente da não concretização da
oportunidade de atuar em Recursos Humanos. É importante reiterar que a
interpretação de que houve um impedimento deliberado por parte da supervisão
corresponde à percepção do sujeito e não permite estabelecer conclusões
factuais sobre as decisões da organização. Do ponto de vista clínico, contudo,
essa experiência adquiriu valor simbólico suficiente para intensificar
sentimentos de perda, injustiça e desânimo.
À luz
de Sigmund Freud, essa experiência pode ser entendida como um processo de luto
por um projeto profissional que não se realizou. O investimento afetivo
direcionado à expectativa de atuar em uma área alinhada à formação acadêmica
encontra uma realidade diferente, exigindo do ego um complexo trabalho de
elaboração.
A
contribuição de Jacques Lacan amplia essa compreensão ao enfatizar que o desejo
constitui um elemento estruturante da subjetividade. O sofrimento pode
intensificar-se quando existe um desencontro persistente entre o lugar que o
sujeito deseja ocupar e o lugar que efetivamente ocupa no campo social.
A
psicodinâmica do trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours, acrescenta que
o reconhecimento desempenha papel fundamental na saúde mental do trabalhador.
Quando o indivíduo percebe ausência de reconhecimento, limitações para
mobilizar suas competências ou impossibilidade de atribuir sentido ao trabalho,
aumenta a probabilidade de sofrimento psíquico.
Entretanto,
uma consequência importante dessa elaboração é que o sujeito passa a
compreender seu sofrimento não apenas como uma experiência individual, mas como
parte de uma realidade social mais ampla. Essa compreensão amplia sua
capacidade de empatia diante de outras pessoas que também podem vivenciar
conflitos relacionados ao trabalho, ao desalinhamento profissional ou às
transições de carreira.
Contudo,
essa ampliação da empatia exige prudência clínica. Não seria adequado concluir
que todos os trabalhadores em funções operacionais, todos os profissionais
formados que atuam em outras áreas ou todas as pessoas aposentadas experimentam
sofrimento semelhante. A psicanálise parte do princípio de que cada sujeito
organiza sua experiência de maneira singular.
Assim,
a principal contribuição dessa reflexão não é classificar grupos inteiros como
sofredores, mas reconhecer que o sofrimento relacionado ao trabalho pode
existir de formas diversas e merece ser escutado sem julgamentos ou
generalizações.
Conclusão
O
trabalho representa muito mais do que uma fonte de renda. Ele participa da
construção da identidade, organiza projetos de vida, produz reconhecimento
social e oferece oportunidades de realização subjetiva. Quando existe coerência
entre a identidade profissional e a atividade exercida, o trabalho pode
favorecer desenvolvimento psicológico e sentido existencial. Quando essa
coerência é rompida, podem surgir conflitos importantes.
Neste
artigo, discutiu-se a hipótese de um sujeito que percebe sua permanência na
função de fiscal de caixa como incompatível com sua formação em Psicologia e
com seu projeto profissional. Em sua experiência subjetiva, essa
incompatibilidade, associada à percepção de um ambiente organizacional
desgastante e à frustração relacionada à oportunidade não concretizada em
Recursos Humanos, constitui o núcleo de seu sofrimento.
A
análise psicanalítica indica que esse sofrimento pode envolver processos de
luto, frustração narcísica, conflito entre desejo e realidade e necessidade de
elaboração da aceitação dos limites impostos pela realidade. Aceitar essa
realidade, entretanto, não significa aprová-la nem abandonar definitivamente o
desejo profissional. Significa reconhecer os limites do presente para que a
energia psíquica possa ser direcionada à elaboração do sofrimento e à
construção de novos caminhos.
O
processo de compreender a origem do próprio sofrimento também favorece o
desenvolvimento da empatia. Ao reconhecer que sua dor está relacionada à forma
como vive o trabalho, o sujeito torna-se mais sensível à possibilidade de que
outras pessoas também enfrentem conflitos semelhantes. Essa percepção, porém,
deve sempre respeitar a singularidade de cada indivíduo, evitando
generalizações sobre categorias profissionais ou fases da vida, como a
aposentadoria.
Por
fim, este estudo reforça que o sofrimento relacionado ao trabalho não pode ser
reduzido à ideia de fragilidade individual. Ele emerge da interação entre
história de vida, identidade profissional, condições organizacionais,
reconhecimento, possibilidades de desenvolvimento e significado atribuído ao
trabalho. A escuta clínica e as intervenções em psicologia organizacional devem
considerar essa complexidade, promovendo espaços de elaboração que permitam ao
sujeito reconstruir sentidos e desenvolver projetos compatíveis com seus
valores e sua identidade.
Referências
- Christophe
Dejours. A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho.
São Paulo: Cortez.
- Sigmund Freud. Luto
e Melancolia. 1917.
- Sigmund Freud. Sobre
o Narcisismo: Uma Introdução. 1914.
- Sigmund Freud. O
Ego e o Id. 1923.
- Jacques Lacan. O
Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.
1964.
- Jacques Lacan. Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar.
- Donald Winnicott. O
Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed.
- Viktor Frankl. Em
Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes.
Comentários
Postar um comentário