Pular para o conteúdo principal

O Psicólogo na Igreja

Ano 2021. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo chama a atenção do leit@r a observar a entrada da psicologia na igreja e o preconceito que ela sofre diante de alguns fiéis, de algumas lideranças e profissionais da psicologia, onde rotulam a psicologia, de psicologia cristã para interesses próprios e ainda o estereótipo de psicólogo cristão. Será que a função social do psicólogo na igreja é percebida como importante? A espiritualidade acompanha o homem ao longo da história. Enquanto um componente da vida humana, sua influência não se restringe ao âmbito sociocultural, aparecendo também na constituição da subjetividade do indivíduo, expressa em crenças, valores, emoções e comportamentos a ela relacionados. Desta forma, se faz presente nos atendimentos clínicos de Psicologia, trazida como parte da constituição psicológica dos clientes que procuram auxílio profissional para seus aborrecimentos.

Embora haja muitas divergências e contradições entre a Psicologia e a Teologia, não podemos negar o fato de que hoje em dia se faz necessário o estudo e conhecimento da psique do ser humano, através de seus comportamentos e atitudes. É necessário que um líder da igreja, esteja preparado, para saber como lidar corretamente, aconselhando, orientando, encorajando ou até mesmo encaminhado a pessoa a buscar ajuda de um profissional da área da saúde.

Na história da igreja evangélica, nada tem induzido os crentes ao abandono da fé na suficiência da Palavra de Deus mais do que a pseudociência do aconselhamento psicológico. Este discurso sinaliza um pensamento carregado de linguagem e emoções preconceituosa, temerosa que desconhece e não reconhece e ainda descrimina a psicologia como ciência. Considerando que a igreja evangélica é um serviço mais que tudo de referência no aconselhamento pastoral. Algumas igrejas possuem psicólogos licenciados em seu quadro de funcionários.

Parece que algumas igrejas missionárias estão exigindo que os seus candidatos a missionários sejam avaliados e aprovados por psicólogos profissionais licenciados, antes de serem admitidos ao serviço. Pois os mesmos estarão se defrontando com muitos conflitos ao saírem de sua terra natal.

Outras igrejas oferecem apoio psicológico voluntário e gratuito, onde o psicólogo atua em Plantão Psicológico, e o principal objetivo do projeto é acolher, atender e proporcionar às pessoas em sofrimento emocional um tratamento sem custos financeiros, oferecido gratuitamente à população. Mas a psicoterapia de grupo tem vagas limitadas e é oferecida a pessoas de baixa renda, ou seja, às pessoas que não são contempladas nos serviços gratuitos do município.

Alguns psicólogos e conselheiros cristãos tornam-se sempre mais conhecidos e respeitados pelos evangélicos as vezes mais do que os pregadores e professores no ambiente igreja e isto não é percebido com bons olhos pela liderança. Uma maioria de evangélicos está convencida de que não precisa de psicoterapia, pois, a Bíblia é necessária para suprir o que falta, no que se refere às necessidades mentais, emocionais e comportamentais. Então, qual o problema com a psicoterapia? De acordo com alguns cristãos, ela raramente funciona [e quando o faz é apenas superficialmente sendo conhecida como prejudicial].

Ou seja, não há envolvimento nem compromisso da parte do sujeito, ou ainda não funciona por que o indivíduo procura a psicoterapia na intenção de obter um milagre divino e quando não acontece o milagre ele a percebe como prejudicial, por ter investido dinheiro e tempo na psicoterapia. A partir desta percepção/ e ou perspectiva bíblica, ela é um engodo anticristão, o que leva o sujeito a recair na compulsão a repetição da pseudo esperança de cura por meio da religião. Ou seja, o indivíduo volta a buscar novamente na religião a cura do seu sintoma que não aconteceu por meio da psicoterapia.[...] Freud no seu texto “Recordar repetir e elaborar” (1914), texto esse em que começa a pensar a questão da compulsão à repetição, fala do repetir enquanto transferência do passado esquecido dentro de nós. Agimos o que não pudemos recordar, e agimos tanto mais, quanto maior for a resistência a recordar, quanto maior for a angústia ou o desprazer que esse passado recalcado desperta em nós.

Percebo que alguns pensam que a psicologia tem sabotado cristãos na fé, no que se refere à capacidade espiritual da Bíblia. Considerando que os psicólogos afirmam possuir insights dentro da natureza humana e também métodos para mudar atitudes, métodos esses que não se encontram na Bíblia, isso quer dizer que a Bíblia não é satisfatória para aconselhar nem conduzir os crentes em suas necessidades mentais, emocionais e comportamentais. [...] O terapeuta se preocupa com o seu cliente de uma forma não possessiva, que o aprecia mais na sua totalidade do que de uma forma condicional, que não se contenta com aceitar simplesmente o seu cliente quando este segue determinados caminhos e desaprová-lo quando segue outros. (Rogers, 1961 apud Carrenho, Tassinari e Pinto, 2010, p. 81)

A psicoterapia jamais alienaria a igreja ao engano de que psicologia e Bíblia podem ser apensadas isso deveria ser escandaloso para todo crente inteligente e maduro na fé. Percebido como a psicologia e a Bíblia são totalmente distintas, deveria ser óbvia a impossibilidade de uma real acomodação em seus ensinos. Finalmente, a chamada psicologia cristã não pode reconciliar a ciência com a fé. Pois não há possibilidade de ancorar a psicologia na Bíblia, nem muito menos adaptar a Bíblia a psicologia. E também por que não existe o curso de psicologia cristã na universidade. Porque a psicologia é uma ciência e não pode ser cristianizada. Sem dúvida, existem cristãos licenciados e psicoterapeutas, porém não em cargo algum se autointitulando como cristão na sociedade.

Será que existe psicólogo cristão? O que existe é o indivíduo singular que professa o cristianismo e com formação acadêmica em psicologia, por tanto não existe psicólogo cristão no mercado de trabalho, nem curso de psicologia cristã na universidade, porém sim o profissional psicólogo independente da crença. Ou seja, o profissional recebe o rotulo dos fieis de psicólogo cristão, médico cristão, psicanalista cristão e esta marca acaba perseguindo o profissional que não pediu tal estereótipo. Exemplo, já ouviram propaganda de médico cristão, médico candomblé, médico espirita ou mesmo no livro da Unimed, onde consta uma variedade de especialidades médicas, inclusive a psicologia e a psiquiatria, acaso se encontra o termo cristão associado a profissão do nome do indivíduo?

 Já se perguntaram por que deste estereótipo apenas na igreja evangélica, acaso a igreja católica marca o psicólogo de psicólogo católico. Onde será que estão os psicólogos espiritas, psicólogos sem reigião, psicólogos candomblé, psicólogo judeu, por que será que ainda não receberam o título. Isto é antiético. Alguns profissionais uma minoria operando por meio do ilusionismo se vinculam ao termo psicólogo cristão intencional ou não e acabam se beneficiando do título de algum modo.  Contudo o Conselho Federal de Psicologia não reconhece o psicólogo cristão na categoria profissional de psicólogos.

É lógico que não podemos generalizar todos os profissionais, pois existem psicólogos que são chamados de cristão no meio evangélico e atuam com ética de acordo com o Conselho Federal de Psicologia. Ou seja, alguns desejam se mostrar mais confiáveis que os psicólogos que seguem outras crenças por serem sujeitos desejante e faltantes de atenção, prestígio, status. [...] Em Freud (1900/2007a), o desejo é caracterizado por um impulso na busca da reprodução de uma satisfação original, mas de forma alucinatória; ou seja, faz referência a um objeto atrelado originariamente à satisfação e não mais encontrado, um objeto perdido e, então, representado na ordem do Simbólico. Assim, o desejo pode se realizar sem nunca se satisfazer - diferentemente do que acontece com a necessidade -, e sempre de forma parcial, na medida em que o encontro com o objeto, tomado pelo desejo circunstancialmente, também produz remissão ao mítico objeto perdido para sempre, reabrindo a insatisfação e relançando o desejo em sua incansável circularidade.

Por trás do título concedido por si mesmo/ e ou recebido de graça dos fieis de [psicólogo cristão] há a transferência da imagem e semelhança de Deus, de poder, de fé ao atender o crente, operando por meio do mecanismo defesa da projeção com isso cativa a confiança do paciente cristão. Mas no momento não existe qualquer psicologia cristã aceitável, que seja significativamente superior a psicologia não cristã. É difícil conceber que os cristãos desejam funcionar de um modo totalmente diferenciado dos colegas não cristãos. Assim como não existe uma teoria aceitável, um modo de pesquisa ou uma metodologia de tratamento distintamente cristão.

O psicólogo ao se posicionar como psicólogo cristão no ambiente igreja acaba induzindo os fiéis a convicções religiosas neste caso, por atuar de modo alienado, se pensar apenas na sua função social e abrangência social para a comunidade evangélica. Por função social, entendem-se os efeitos que a atuação do psicólogo produz na comunidade evangélica. Esse efeito é identificado em termos da abrangência e do significado social da atuação do profissional.

Por abrangência da função social entende-se o número de fiéis beneficiados pelo trabalho do psicólogo e a natureza social delas nas igrejas evangélicas. Por significado social da profissão entende-se a natureza do efeito produzido pelo psicólogo na igreja, por exemplo, se ele contribui para a transformação emocional, comportamental e social dos fieis na sociedade. Entretanto ainda há preconceito desvelado em pleno século XXI de que psicologia é para gente doida. Se posso conversar com meus amigos, não preciso de psicólogo. Não tenho problemas nem doença nenhuma, então não preciso de psicoterapia.  Terapia é supérflua, é jogar dinheiro fora.  

Terapia é para pessoas com a mente fraca. Eu já tenho Jesus, não preciso de psicólogo. O evangélico por se achar auto suficiente e imbatível, ou seja, o super crente resiste em reconhecer que está com angustias e por esta razão demora em buscar ajuda, pois inconscientemente está apegado ao preconceito, estereótipo e discriminação e quando o faz, ainda por medo, busca a ajuda de um profissional da psicologia que professe o cristianismo e dificilmente o não cristão. [...] Segundo Allport (1954) o preconceito é o resultado das frustrações das pessoas, que, em determinadas circunstâncias, podem se transformar em raiva e hostilidade. As pessoas que se sentem exploradas e oprimidas frequentemente não podem manifestar sua raiva contra um alvo identificável ou adequado; assim, deslocam sua hostilidade para aqueles que estão ainda mais “baixo” na escala social. O resultado é o preconceito e a discriminação.

Mas antes da tomada de decisão busca aconselhamento pastoral e aí está o perigo. Existe liderança preconceituosa que aconselha que o evangélico não deve buscar ajuda de um psicólogo, pois Deus vai curar. Porém a pessoa já cansou de pedir para Deus curar, e a cura ainda não ocorreu. Mas uma pequena minoria incentiva a procurar por ajuda de psicólogo ou psiquiatra independente da crença. E outros ainda se buscar um psicólogo, procure apenas o psicólogo cristão. [...] o acolhimento da psicoterapia às buscas efetivadas pelo paciente pelos caminhos da religiosidade não implica a necessidade de o psicoterapeuta comungar das mesmas crenças religiosas dele. Acolher é respeitar e aceitar as diferenças de maneira que estas não sejam impeditivas do pleno desenvolvimento do processo psiquiátrico. (Angerami, 2008, p.11).

Muitas pessoas independentes do seu credo buscam ajuda na Psicologia para saírem de várias contrariedades como conflito familiar, alcoolismo, medo, neurose, ansiedade, síndrome de pânico e por aí vai. A Psicologia seria uma grande ferramenta no trabalho pastoral, ela tem um papel imprescindível dentro da Igreja, se não existisse preconceito/ e ou medo da parte de alguns líderes que ainda não conseguiram despojar-se do velho homem, grifo meu. [..] Efésios 4:22 22 - Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano.

Compreendo que nunca o homem foi tão livre por fora e tão cativo no oculto do seu ser. Ou seja, mesmo tendo o livre arbítrio, nunca o homem esteve tão escravo no mundo de seus pensamentos e na zona de conforto de suas emoções, na tecnologia, nas redes sociais, no smartphone, no facebook, no whatsapp e outros em busca de prazer. O que o sujeito não soluciona em sua psiquê, seu corpo converte em doença psicossomática. [...] Em sua obra “Além do Princípio do Prazer” (1920, p.34), Freud afirma: a compulsão a repetição também rememora do passado experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que foram reprimidos.

Alguns indivíduos associam ciência e fé. Ninguém contesta, por exemplo, que certos tipos de queixas competem ao médico, e só a ele, medicar. Quando alguém próximo fica doente, o indivíduo ora a Deus pedindo a cura, mais nem por isso deixa de levá-lo ao médico. O mesmo deve ocorrer na psicologia; dentro do universo das chamadas doenças mentais, alguém com quadro de sofrimento psíquico deve ser encaminhado ao psicólogo, isso não exclui o poder da oração dos fiéis, porém apenas a oração não garante melhora alguma.

Não é difícil encontrar em alguns contextos [agora é importante não generalizar] membros de igrejas com sofrimento psíquico ou algum quadro de transtorno mental relatando sobre suas idas a determinados cultos. Nesse ambiente, não são raros relatos semelhantes ao seguinte; um sujeito toma remédio forte com prescrição médica controlada. A interrupção brusca do medicamento pode causar efeitos colaterais ou mesmo agravar sintomas de angustia. Mas em certos lugares, quando começa a participar no culto, o indivíduo recebe a informação de que o remédio é inútil ou insuficiente e deve renunciar a ele, que Deus o libertará. [...] “A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda” (CHAUÍ, 1996 p.8-9).

Os temas variam, porém, giram em torno da recomendação de que a participação pura e simples no culto garante o milagre. Quanto mais fervorosa a participação ou oração, maior será a garantia. Confiando no milagre o indivíduo adere ao culto, com uma expectativa de cura tão maior quanto a sua fé que retornam cada vez mais os efeitos fisiológicos anteriores ao uso do remédio. Nesses cultos, a promessa do milagre opera em via contrária ao uso dos remédios, o mesmo requer a ausência deles e basta apenas crer ter fé em Deus.

As práticas desses cultos deixam algo claro, há um adicionamento, feito por determinadas correntes religiosas, entre religião e psicologia, entre o que compete ao padre ou pastor e o que compete ao psicólogo. Criando uma ilusão, uma pseudo fantasia de cura, de libertação. Como se a psicologia fosse secundária e subjugada a interesses religiosos. Ou em outras palavras, como se o psicólogo se resumisse a uma espécie de agente religioso que ignoraria a própria ciência ou a colocaria explicitamente a serviço da religião. Certos contextos religiosos chegam a levar essa combinação a práticas errôneas, mal estruturadas e consideradas antiéticas. [...] Mecanismo defesa Fantasia, é um processo psíquico em que o indivíduo concebe uma situação em sua mente, que satisfaz uma necessidade ou desejo, que não pode ser, na vida real, satisfeito. É um roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente.

Um exemplo, uma corrente de psicólogos e/ou religiosos usando a máscara social se auto intitulados psicólogos evangélicos. Alguns deles inclusive receberam reprovação pública do Conselho Federal de Psicologia (CFP), por prometerem uma terapia para os indivíduos supostamente deixarem a homossexualidade. Chama atenção a frequente demanda de fiéis evangélicos por fazer terapia especificamente com psicólogos evangélicos. Entendo que o bom psicólogo nada tem a ver com sua formação religiosa. Compreendo que os clientes fazem essa procura seletiva por uma questão de identificação, com o jargão cristão ou evangélico, entretanto isso não garante, de modo algum, o sucesso da terapia.

Parece que o fiel inconscientemente tem medo/ e ou culpa de relatar sua história de vida para um desconhecido ao qual nem sequer sabe sobre a sua crença, pois para o evangélico o peso da crença religiosa tem um valor fundamental na escolha sobre o profissional de psicologia. Ou seja, o fundamental é saber que a punição não virá de fora, ela já está presente consciente ou inconscientemente, pois pecou contra Deus por pensar /e ou buscar ajuda de profissional da psicologia. O que não acontece muito em relação a outros profissionais da saúde como médicos, enfermeiros, dentistas, oftalmologistas, ginecologistas e outros. [...] Através do sentimento de culpa, a cultura domina nossa inclinação à agressividade, debilitando-a, desarmando-a, e colocando em seu interior um agente para cuidar dela “como uma guarnição numa cidade conquistada” (FREUD, 1997, p.84).

Outro eixo discursivo observado, interpreta a demanda evangélica como fruto de uma visão ingênua ou destituída de informações, decorrentes de percepções distorcidas sobre a Psicologia e o fazer psicoterapêutico. Tais equívocos seriam também explicados por preconceito de profissionais contra a ideologia religiosa, bem como de líderes religiosos contra o saber psicológico. Entendo que muitos fiéis evangélicos têm esta demanda de certa maneira por medo e/ou culpa. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162)

Psicologia ainda é vista em muitas denominações religiosas como algo do demônio ou pelo menos que não é de Deus. Crente não precisa de terapia, porque Jesus é o maior psicólogo. Grifo meu, no livro de Mateus 9:12 - Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. É possível a compreensão que Jesus está claramente dizendo que as pessoas saudáveis, não necessitam de médico, contudo aqueles que se encontram enfermos necessitam de médico. Por acaso síndrome de pânico, crise de ansiedade, depressão não indica que o indivíduo está doente.

Comunico que por meio da Psicologia da Religião é possível estudar os fenômenos religiosos como fenômenos da cultura, constituintes do ser humano. Ou seja, a Psicologia não pode se misturar a práticas que envolvam fé ou misticismo, uma vez que ela se propõe, através da atuação de seus profissionais, uma relação diferente da proposta por esses campos. Deste modo, a religião tem como função psicológica básica, fornecer símbolos [imagens, narrativas e rituais] que interferem na relação da consciência com o inconsciente, oferecendo um sistema de referência que promove a segurança e estabilidade do Ego.

Configura-se que o Psicólogo não usa sua profissão para induzir a determinadas convicções. O Psicólogo é proibido pelo Código de Ética de usar sua profissão para induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito. Psicólogo é um profissional que busca entender os comportamentos e as funções mentais do ser humano. Ele aplica métodos científicos para compreender a psiquê humana e atuar no tratamento e prevenção de doenças mentais e melhorar sua qualidade de vida.

Nenhuma ciência está tão próxima da religião quanto à psicologia. O psicólogo deve ter uma base sobre como manter sua religiosidade enquanto atuante de uma ciência que o obriga a não associa-la com a vida religiosa vivida pelo mesmo, de modo a não comprometer seus estudos e torná-lo imparcial diante dos atendimentos prestados a indivíduos de diferentes costumes e credos, inclusive, pessoas sem religião.

Por tanto a ligação entre religião e psicologia na Grécia, foi entendida que a alma era a sede do pensamento, e a igreja monopolizava o pensamento, na idade média, dois pensadores postularam teorias relacionadas à psicologia. Santo Agostinho, assim como Platão dizia que a alma era imortal, e defendia que também seria a manifestação de Deus no homem. Já São Tomás de Aquino defendia que apenas Deus teria uma essência e existência iguais, e isso justificaria a busca por Deus, pois o homem seria um ser incompleto. Então enquanto a Igreja Católica mantinha seu interesse sobre a psicologia houve uma relação entre as duas. Os estudos da igreja católica estavam centrados em manter essa ligação para usá-la em prol da fiel religiosidade dos seguidores. Apoiava apenas os estudos que considerava sagrados e repudiava tudo o que poderia trazer interferências a seu domínio.

A igreja nos dias de hoje, diz: precisamos da psicologia. Já não contamos com o Espírito Santo para produzir as mudanças necessárias na vida dos crentes. Os pastores, já não são competentes para aconselhar e curar por imposição de mãos. Têm que enviar os crentes aos psicoterapeutas. Noto a manifestação de alguns profissionais da psicologia com o mesmo comportamento da igreja católica na idade média, onde agora etiquetam por conta própria a psicologia, para psicologia cristã em prol da fiel religiosidade dos seguidores como meio de interesses escusos prometendo uma psicologia evangélica de cura, mas não de modo desvelado embora exercida por uma minoria que se alicerçam na máscara social de psicólogos cristãos, psicanalistas cristão, pois é um rótulo apreciado dentro do ambiente igreja com a intenção de causar notoriedade ao sujeito diferenciando do psicólogo comum, e no consultório particular também.

Já o código de ética dos psicólogos tem claras regras sobre a religiosidade: “Art. 02 – Ao psicólogo é vedado [entre outros]: […] e) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais ou religiosas, quando do exercício de suas funções profissionais.” Em outras palavras, enquanto profissional, o psicólogo não pode induzir ninguém a fazer parte de suas crenças religiosas, caso contrário sofrerá penalidades. Por tanto é uma (in)verdade a existência de psicologia evangélica ou cristã.

Agora reflitam, o psicólogo é um profissional que está sujeito a fazer psicoterapia para cuidar de sua saúde mental, para dar atendimento adequado ao paciente. A disciplina Psicologia social estuda o comportamento, preconceitos, estereótipos e discriminação na sociedade. Se o psicólogo cristão então buscar no mercado de trabalho o profissional psicólogo cristão, não encontrará a não ser no seu meio evangélico. Entendo que  o psicólogo até pode procurar outro profissional que professe o seu credo religioso, para se sentir mais seguro, entretanto se optar por fazer psicoterapia com outro profissional que não professa o cristianismo, estará contribuindo intencional ou não para o preconceito contra os outros colegas de profissão que tem outra crença.

A base do preconceito é o medo. Ou seja, entende-se o preconceito como uma atitude negativa que um indivíduo está predisposto a sentir, pensar, e conduzir-se em relação a determinado grupo [psicólogos não cristãos] de uma forma negativa previsível. Este pode ser o pensar do psicólogo cristão que estudou psicologia e agora atua alienado no preconceito.

Atualmente, temas ligados à espiritualidade e à religiosidade tem se tornado cada vez mais presentes no cotidiano de nossa sociedade e, como afirmam Cambuy, Amatuzzi e Antunes (2006, p. 79), tem incidido com muita frequência na clínica psicológica. Paralelo a isso, observo também da parte dos profissionais da psicologia um distanciamento ou evitação de se abordar este tema, desprazeroso, pois, para atender a estas demandas é necessário que o psicólogo compreenda esta manifestação humana que, embora tenha um significado muito próximo ao conceito de espiritualidade, difere deste em alguns aspectos.

Através de uma relação de suporte, o terapeuta clarifica as vivências do cliente, permitindo-lhe entender, modificar e compreender os valores e sentidos que tais experiências trouxeram para sua vida, e qual a importância que a religião ocupa em sua história pessoal. A partir do diálogo entre a psicologia e a religião amplia-se o olhar do terapeuta, permitindo-lhe enxergar o cliente que se revela e precisa ser compreendido como um todo e acolhido com suas vivências, valores e crenças. Apenas através desse caminho da compreensão será possível entender a pessoa em sua verdadeira humanidade.

Aceitar a questão da religiosidade dos clientes significa entender qual a importância que a religião ocupa na vida do cliente, estabelecendo com ele uma relação empática que lhe proporcionará um sentimento de ter sido acolhido independente de sua crença. Se você ainda pensa que pode ser possível psicologia evangélica, está totalmente equivocado, não existe a menor possibilidade. Ou ainda a existência de psicólogo cristão.



Referência Bibliográfica

Allport, G. W. (1954). The nature of prejudice (3ª ed.). Wokingham: Addison-Wesley

ANGERAMI, VALDEMAR AUGUSTO (org.) Psicologia e religião. São Paulo: Cengage, 2008. 

CAMBUY, KARINE. AMATUZZI, MAURO MARTINS. ANTUNES, Thais de Assis. Psicologia Clínica e Experiência Religiosa. Disponível em: http://www.pucsp.br/rever/rv3_2006/p_cambuy.pdf

CARRENHO, ESTHER. TASSINARI, MARCIS. PINTO, Marcos Alberto da Silva. Praticando a abordagem centrada na pessoa: dúvidas e perguntas mais frequentes. São Paulo: Carrenho Editorial, 2010.

CHAUÍ, MARILENA. HEIDEGGER, vida e obra. In: Prefácio. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

FREUD, S. (1920), "Além do princípio do prazer” In: FREUD. S. Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII.

FREUD, S. (1996). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago. (1914). "Recordar, repetir e elaborar ", v. XII

FREUD, S. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: Biblioteca Universal

Popular, 1968

FREUD, S. (1930) O Mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

FREUD, S. (2007e). Más allá del principio de placer (Obras Completas, Vol 18, pp. 1-62). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1920).


Comentários

Postagens mais visitadas

O Que Cabe A Mim No Ambiente, O Qual Estou Inserido

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O papel que você desempenha no ambiente em que está inserido é extremamente importante, pois suas ações e podem influenciar o comportamento e o bem-estar de outras pessoas e do próprio ambiente. Aplicando e exercitando as competências comportamentais, isto é, as soft skills e hard skills a fim de defrontar-se com a insegurança. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162). Em primeiro lugar, cabe a você respeitar as regras e normas do ambiente, seja ele uma escola, local de trabalho, residência, universidade, comunidade ou outro ambiente social. Isso inclui ser pontual, tratar as outras pessoas com respeito e cortesia, e seguir as normas de conduta estabelecidas para aquele ambiente. Al...

A Fila como Sintoma Organizacional: Defesa Institucional, Ruptura do Contrato Psicológico e Falha na Proposta de Valor ao Empregado

  Resumo Este artigo analisa, à luz da Psicologia Organizacional e da Psicodinâmica do Trabalho, uma cena cotidiana: um cliente questiona a escassez de operadores de caixa; a fiscal responde que “as pessoas não querem trabalhar”. Argumenta-se que a fila constitui um sintoma organizacional, cuja etiologia reside menos na “falta de vontade” individual e mais na ruptura do contrato psicológico, na fragilidade da proposta de valor ao empregado (EVP) e em mecanismos defensivos institucionais. A análise integra aportes de Denise Rousseau, Christophe Dejours, Edgar Schein, Frederick Herzberg e John W. Meyer & Brian Rowan, articulando níveis manifesto e latente do discurso organizacional. 1. Introdução: do evento banal ao fenômeno estrutural A cena é simples: fila extensa; poucos caixas abertos; cliente insatisfeito; resposta defensiva da fiscal. Contudo, como em toda formação sintomática, o que aparece (escassez operacional) remete a determinantes estruturais (políticas de...

O luto da forma antiga de existir profissionalmente

  Psicanálise, desejo, função e travessia subjetiva entre sobrevivência e inscrição institucional Introdução Na experiência contemporânea do trabalho, não é raro que o sujeito se encontre dividido entre a sobrevivência material e o desejo de uma função simbólica que dê consistência à sua existência. A psicanálise permite compreender que o sofrimento ligado ao trabalho não se reduz à precariedade econômica, mas toca diretamente a questão do lugar subjetivo: aquilo que nomeia o sujeito no laço social. O caso aqui articulado é o de um sujeito que exerce há anos a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas cujo desejo se orienta para uma inscrição como psicólogo institucional. Entretanto, esse lugar desejado não se encontra acessível no presente, e a clínica exercida nas folgas surge como um resto marginal e sacrificial. O sonho relatado — uma mensagem sobre como atravessar o luto, sem nomear o objeto perdido — aparece como forma privilegiada de expressão do inconsci...

Recrutamento & Seleção Teste Avaliação Perfil Profissional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. Existem diversas ferramentas e testes psicológicos que podem ser utilizados para avaliar o perfil de um operador de caixa de supermercado. Algumas das possibilidades exemplo, Inventário de Personalidade NEO-FFI: este teste avalia cinco grandes dimensões da personalidade [neuroticismo, extroversão, abertura, amabilidade e conscienciosidade] e pode ser útil para verificar quais traços são mais comuns em candidatos a operadores de caixa. Teste Palográfico: este teste avalia a personalidade a partir da interpretação de desenhos feitos pelo candidato. Ele pode ajudar a entender aspectos como dinamismo, estabilidade emocional, concentração e outros traços relevantes para a função. Teste H.T.P – [CASA, ÁRVORE, PESSOA] Buck (2003), define o H.T.P, como um teste projetivo que serve para obter informações de como uma pessoa experiência a sua individualidade em rel...

Adaptação De Emprego A Psicólogo

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Como um psicólogo na faixa etária adapta sua candidatura a emprego no mercado de trabalho para atuar em instituições na atuação de psicólogo da saúde. Como psicólogo na faixa etária adaptar sua candidatura a empregos no mercado de trabalho para atuar em instituições na área da psicologia da saúde requer a compreensão de diferentes abordagens teóricas e práticas. Vou explicar a seguir como você poderia adaptar sua candidatura, primeiro pela abordagem da psicologia social e depois pela abordagem da psicanálise. Abordagem da Psicologia Social: Na abordagem da psicologia social, é importante destacar a sua compreensão dos aspectos sociais e culturais que influenciam a saúde mental das pessoas. Aqui estão algumas dicas para adaptar sua candidatura: a) Educação e experiência: Destaque a sua formação acadêmica em psicologia social, enfatizando os curs...

O Que Representa O Esquecimento Do Guarda-Chuva Na Vida Do Fiscal De Caixa

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O fiscal de caixa foi trabalhar e estava chovendo então abriu o guarda-chuvas para não se molhar e no trabalho deixou dentro de um saco plástico nó armário junto da mochila. E terminando a jornada pegou o guarda-chuvas e colocou na mochila com a intenção dê chegar em casa e abrir o guarda-chuvas para secar, mas esqueceu o guarda-chuvas molhado dentro do saco plástico na mochila e agora de manhã para sair para trabalhar ao abrir a mochila viu ó guarda-chuvas. Na psicanálise, um ato falho é uma ação ou comportamento que parece ser um erro, mas que, na verdade, revela algo oculto no inconsciente da pessoa. Vamos interpretar a situação com base nessa ideia: O contexto: O fiscal de caixa colocou o guarda-chuva molhado dentro do saco plástico para evitar molhar os outros itens na mochila, mostrando uma atitude cuidadosa e prática. Contudo, ao chegar em...

Não Dá Mais: uma leitura psicanalítica da permanência no sofrimento

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a permanência de um sujeito em um contexto laboral exaustivo e insustentável. A partir das contribuições de Freud, Winnicott e Lacan, discute-se como a compulsão à repetição, a ორგანიზ ação do falso self e a dimensão do gozo sustentam a manutenção do sofrimento, mesmo diante da consciência de seus efeitos devastadores. 1. Introdução A frase “não dá mais” marca um ponto de ruptura. No entanto, paradoxalmente, nem sempre ela conduz à saída. Em muitos casos, o sujeito permanece exatamente onde já reconheceu ser insuportável. O caso do fiscal psicólogo ilustra essa condição: jornadas extensas, sobrecarga física, privação de sono e ausência de perspectiva de mudança. Ainda assim, há permanência. A psicanálise permite compreender que essa permanência não é simplesmente racional — ela é estruturada. 2. A compulsão à repetição Segundo Sigmund Freud (1920/2010), o sujeito é levado a repetir experiências que não fo...

Modelo integrado do bloqueio da trajetória profissional

  Da sobrevivência ao desgaste do ideal vocacional Podemos organizar tudo o que discutimos em um encadeamento progressivo de processos psíquicos e institucionais . Em vez de eventos isolados, trata-se de um ciclo estruturado que se instala ao longo do tempo. Esse modelo ajuda a entender que o sofrimento atual não surge de um único fator, mas de uma sequência de efeitos acumulativos . 1. Formação e construção do ideal profissional Durante a graduação, o sujeito constrói: identidade profissional ideal vocacional narrativa de futuro A profissão passa a representar: sentido de vida pertencimento social valor pessoal Nesse momento, o investimento psíquico na profissão é alto. 2. Entrada no trabalho de sobrevivência Por necessidade econômica, o sujeito assume um trabalho que não corresponde ao projeto profissional. Inicialmente ele interpreta isso como algo: provisório estratégico temporário A ideia dominante costuma ser: “Enq...

Quando o Campo Fora do Mapa Escolhe: o Espelhamento Estrutural para o Psicólogo

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, um episódio aparentemente simples do mundo do trabalho — a contratação por uma instituição fora do circuito conhecido — como operador de um espelhamento estrutural para o psicólogo em transição profissional. Sustenta-se que o sofrimento repetido não decorre de incapacidade subjetiva, mas da insistência em acessar apenas campos simbólicos já nomeados e reconhecidos. O texto discute como a ruptura com o “campo conhecido” desvela limites da percepção, desmonta a compulsão à repetição e possibilita uma leitura mais lúcida da relação entre sujeito, saber e instituição, sem produzir novas ilusões. 1. Introdução: quando o fracasso não é pessoal Na experiência do trabalho e da inserção institucional, muitos sujeitos interpretam a ausência de reconhecimento como falha individual. A repetição de recusas tende a ser vivida como prova de inadequação ou insuficiência. Contudo, do ponto de vista psicanalítico, é preciso interrogar n...

Facilite O Reconhecimento Das Projeções

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Um psicólogo trabalha num supermercado na ocupação de operador de caixa e observa que os colaboradores têm comportamentos de bullying. O psicólogo pensa em fazer uma intervenção no comportamento dos colaboradores, mas não faz nada porquê os colaboradores não sabem que além de operador de caixa ele tem formação em psicologia. E talvez se der a conhecer para os colaboradores que é psicólogo corre o risco de não ser levado a sério no momento de propor as intervenções. A psicanálise sugere que os comportamentos têm raízes inconscientes e que a compreensão dessas dinâmicas pode levar a mudanças significativas. No entanto, a abordagem psicanalítica também valoriza a importância da transferência e da relação terapêutica, o que pode complicar a situação do operador de caixa que é psicólogo oculto. Dado que os colaboradores do supermercado não estão cientes da f...