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Ansiedade matemática!


Ano 2020. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06Q147208
O presente artigo convoca o leitor(a) a reflexionar sobre a disciplina Matemática e observar se a mesma lhe causa um desconforto exagerado diante de eventos que exigem cálculos matemáticos. É percebido que alguns estudantes ao escolherem um curso acadêmico, as vezes escolhem curso que não tenham a disciplina matemática e com isso limitam a si mesmo a possibilidade de galgarem uma remuneração melhor no mercado de trabalho ou ainda o curso que realmente desejaria cursar.
A sensação de mal-estar ao lidar com cálculos pode estar relacionada a pressão por resultados e a relação de pais e professores com a disciplina. Ansiedade antecipação de uma ameaça, sendo que a pessoa acredita que um perigo pode acontecer e ele se prepara para esse perigo, o corpo se prepara ficando vigilante e alerta a este perigo e também se esquivando desse possível perigo. Exemplo, um aluno estudou para a prova e tirou nota zero, a próxima vez que realizar prova da mesma disciplina se sentirá ameaçado devido a nota zero tirada anteriormente, mesmo sabendo que pode tirar nota acima da média. [...] “A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda” (CHAUÍ, 1996 p.8-9).
Ansiedade é o medo do futuro --- Quanto maior a intolerância às incertezas do futuro – Maior a ansiedade/Pré-Ocupação. Fomos programados no cérebro para temer, sermos ansiosos e buscarmos permanentemente o maior controle possível de nosso meio ambiente, para nos sentirmos seguro. Os seres humanos são, filogeneticamente falando viciados em controlar.
Do ponto de vista cultural, há inclusive uma aceitação de que esta disciplina seja difícil. Contudo para algumas crianças e adolescentes a matemática é tão aterrorizante que chega a ser fonte de uma ansiedade além do esperado. A ansiedade matemática é uma fobia específica, que aparece como um sentimento de tensão ou desamparo e preocupação extrema frente a situações ou estímulos que envolvem a matemática ou números. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162)
Assim como as outras fobias específicas, a ansiedade matemática apresenta três níveis de resposta:
·        Comportamental: fuga, esquiva, evitação perante estímulos ou situações ansiogênicas.
·        Fisiológica: taquicardia, estômago revirando, sudorese e outras reações autonômicas.
·        Cognitiva: pensamentos de desamparo e distorcidos [eu não consigo aprender, eu sou burro].
A relação entre ansiedade matemática e desempenho matemático é bi direcionada. Isso significa que tanto a ansiedade pode levar a um baixo rendimento escolar quanto um padrão persistente de dificuldade de aprendizagem na matemática pode desencadear a ansiedade matemática.
Estados de ansiedade envolvem reações fisiológicas relatadas como desagradáveis, postura tensa; expressão facial cansada; movimentos sem direção; dores de cabeça; distúrbios estomacais; mãos pegajosas e outros. Entretanto não se limitam a eventos fisiológicos, nem são estes as causas do estado ansioso. Existe também a presença de componentes comportamentais e cognitivos, como relatos de sensações desagradáveis em ocasiões caracterizadas pela impossibilidade de fuga, antecipação da punição e separação do apoio (familiares/e ou amigos próximos).
O controle coercitivo nas aulas de matemática pode gerar a ansiedade diante da Matemática. [...] Em relação ao ensino da Matemática, Skinner (1972) aponta diversas características do controle aversivo utilizadas como estratégias de ensino do professor em sala de aula. Em épocas passadas, o controle aversivo era explícito e ocorria por meio de punição física diante de “mau” desempenho em sabatinas, por exemplo. No entanto, o controle aversivo explícito foi substituído pelo controle aversivo sutil, caracterizado pela censura e zombaria dos colegas em sala de aula, ou agressões verbais por parte do professor.
Imagine que o indivíduo tem que se deparar diariamente com uma situação ou atividade no qual sabe que não é bom? Dentre os fatores extrínsecos que aumentam a ansiedade, e que podem causar dificuldade, podemos citar, exemplo, a escola com demanda de atividades acima do perfil da capacidade da criança de lidar com tal exigência, pais autoritários e irmãos muito bons na disciplina. Ademais, precisamos considerar que existem diferenças individuais que deixam algumas crianças mais vulneráveis aos eventos ambientais. [...] Em sua obra “Além do Princípio do Prazer” (1920, p.34), Freud afirma: a compulsão a repetição também rememora do passado experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que foram reprimidos.
Apesar de ser estudada há mais de 50 anos há, ainda hoje, um desconhecimento sobre o assunto por parte da sociedade e, mais importante, por parte da escola, da universidade. A aprendizagem da matemática é hierarquizada e depende muito da repetição por meio de realização de exercício. Crianças, adolescentes/ e ou universitários com ansiedade matemática, como descrito, tendem a se esquivar de tarefas dessa disciplina, consequentemente, começam a apresentar mais dificuldades de aprendizagem em matemática. [...] Freud no seu texto “Recordar repetir e elaborar” (1914), texto esse em que começa a pensar a questão da compulsão à repetição, fala do repetir enquanto transferência do passado esquecido dentro de nós. Agimos o que não pudemos recordar, e agimos tanto mais, quanto maior for a resistência a recordar, quanto maior for a angústia ou o desprazer que esse passado recalcado desperta em nós.
Família e escola tentam transpor o problema por meio de aulas de reforço, recuperação paralela ou estratégicas pedagógicas. Mas para alguns estudantes no qual a ansiedade é muito grande, faz-se necessário, além de uma estimulação pedagógica, usar técnicas cognitivo-comportamental.
Pode-se buscar maneiras mais sutis de enquadrar o medo, incentivando as crianças, os estudantes a encararem as provas como um desafio e não como uma ameaça, e explicando que o medo não necessariamente reflete uma falta natural de habilidade.



Referência Bibliográfica
CHAUÍ, MARILENA. HEIDEGGER, vida e obra. In: Prefácio. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
FREUD, S. (1920), "Além do princípio do prazer” In: FREUD. S. Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII.
FREUD, S. (1996). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago. (1914). "Recordar, repetir e elaborar ", v. XII
FREUD, A. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: Biblioteca Universal
Popular, 1968
SKINNER, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. (R. Azzi,trad.). São Paulo: E.P.U. (Trabalho original publicado em 1968).

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