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Desejo e Vontade, é o Mesmo?

 Ano 2021. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo chama a atenção do leit@r a compreender, a importância da diferença entre desejo e vontade. Por que o senso comum generaliza traduzindo desejo e vontade como sendo iguais. São dois conceitos completamente distintos e independente um do outro, embora ambos um depende do outro. O desejo em psicanálise não se trata de algo a ser realizado, mas sim de uma falta nunca realizada, o sujeito é um ser faltante e pode levar uma vida procurando sacia-lo.

E é por esse motivo que ele busca psicoterapia analítica principalmente para buscar respostas e caminhos a seguir e descobre mais tarde que suas demandas nunca serão satisfeitas. Pois em todas as escolhas que fazemos revelamos um novo desejo. Exemplo, um cidadão tem desejo e vontade de cursar teologia, entretanto o desejo de cursar é realizado, já a vontade em tornar-se pastor não é concretizada. Compreende-se que a demanda do desejar teologia foi realizado, mas a vontade em ser pastor não se concretizou.  Por tanto foi buscar resposta na análise que a vontade nunca será satisfeita.

Desejo é uma palavra que nos remete ao sentido sexual e a demanda denota um querer do outro, aquele que pede algo e para isso utiliza a fala para informar ao outro o que deseja. Apesar de se falar cada vez mais em depressão, um ponto essencial parece incompreendido; a depressão rouba o desejo e a vontade. O desejo quase ausente ou diminuído revela diferentes níveis da doença. Isto é até sabido por muitos, mas frequentemente esquecido no dia a dia, trazendo mais inconvenientes para quem sofre da depressão e para aqueles com quem convive. É comum que o próprio doente se veja como um inútil por fazer menos do que já desejou, sem a autonomia para alterar seus comportamentos e sentimentos.

Assim, é difícil mudar a ideia que o sujeito é sempre capaz de comandar sua vontade simplesmente escolhendo isso. Essa visão causa ainda mais prejuízos a autoestima do deprimido. É comum que o próprio doente não saiba que está com depressão e se aperceba como um inútil por fazer menos do que já conseguiu. Já observei casos em que o doente não percebe que está com depressão, sem conseguir mais ser o que era apesar de tentar e, com vergonha de si mesmo, tenta o suicídio.

Desejos x Vontade; Porque é tão importante saber a diferença? Nas linhas a seguir vou explicar o que são os desejos, o que é à vontade, porque é importante saber a diferença entre eles, e o mais importante, como diferenciar um conceito do outro. Desejos são reações emocionais a estímulos externos, ou seja, alguma coisa acontece fora de você que lhe causa uma reação. Você reage por instinto, não por vontade. Muitas vezes reage contra a sua vontade, mas por desconhecimento, não consegue controlar isso.

Já a vontade é o seu potencial em busca de expressão. Ou, em outras palavras, vontade é a sua capacidade de executar determinada coisa tentando se comunicar com você, com o objetivo de sair e mostrar o que ela sabe fazer. Desejamos um bom emprego, uma boa quantia em dinheiro, uma boa casa, um bom carro, um bom relacionamento amoroso, uma boa profissão, boas amizades e muitas outras coisas boas porque vivemos em uma sociedade que provoca esses desejos em nós. Mas não nascemos com esses desejos, eles são gerados em nós à medida em que vamos crescendo e sendo estimulados pelo que acontece ao nosso redor.

Existe em nós um desejo enorme de sermos aprovados pelo meio em que vivemos, de fazer parte do contexto, de se enturmar, como o pessoal do senso comum diz. Sendo mais claro ainda, nós queremos que as pessoas gostem de nós ou nos aceitem. O problema é que para isso estamos dispostos a sacrificar a nossa individualidade, agindo como todo mundo, vestindo-se como todo mundo, falando como todo mundo, enfim, fazendo o que todo mundo faz. Ou seja, trabalhando onde os profissionais trabalham por que só tem essas organizações e profissões no mercado. O indivíduo trabalha por dinheiro e não por um ideal, por medo e não por um sonho, por desejos e não por vontade. [...] Em sua obra “Além do Princípio do Prazer” (1920, p.34), Freud afirma: a compulsão a repetição também rememora do passado experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que foram reprimidos.

E o dinheiro ganho com esse trabalho é gasto com aquilo que nos disseram que devemos gastar, e não com aquilo que nos realiza de verdade. Agora, enquanto somos manipulados o tempo todo e nossos desejos são decididos por outras pessoas, a vontade permanece reprimida dentro de nós, como um bicho selvagem trancafiado em um lugar que não é o seu, buscando uma maneira de sair de lá.

Enquanto o desejo transforma o ser humano em uma cópia, um clone de outras milhares de pessoas, a vontade busca revelar a sua verdadeira identidade. Em outras palavras, o desejo se manifesta de fora do exterior para dentro, e a vontade de dentro para fora para o exterior. A vontade é o seu potencial buscando expressão, e expressar essa vontade é a única coisa que revela quem nós realmente somos e é a única coisa capaz de nos realizar. O medo é o maior inimigo da vontade. A vontade está recalcada e reprimida em meio a uma tonelada de desejos nossos, em sua maioria reprimidos. E nossos desejos reprimidos, frequentemente tornam-se em doença emocional, o que torna mais difícil o trabalho.

Para encontrarmos a nossa verdadeira vontade, é necessário, primeiro, removermos as pilhas e pilhas de desejos acumulados em nós, e eu não vejo outra maneira de fazer isso senão realizando esses desejos quando possíveis. Quando o desejo é realizado, ele deixa de existir. Agora, a questão é a coragem para realizar esses desejos. O medo domina a maioria de nós, e tudo o que fazemos de um modo geral, é baseado em medo. Medo de não ser aceito, de passar vergonha, de passar fome, de morrer, de perder o que já conquistamos, de não conseguir emprego, não conseguir dinheiro e a lista é infinita.

Mas precisamos ter a clareza de que, toda decisão baseada em medo, não tem relação com a vontade. Nossos instintos nos dominam, e somos como animais, em nada diferentes de qualquer outro animal. A única coisa que pode nos diferenciar dos animais é a vontade, e só viveremos a vontade quando dominarmos nossos instintos. A vontade nunca colide com a vontade de outra pessoa, porque ela é única, e por isso nunca será igual a de ninguém. O desejo nasce quando ocorrem as primeiras vivências de satisfação, com a formação do aparato psíquico, ou seja, o surgimento do desejo inaugura o psiquismo e será o motor deste aparato: três tipos de representações:

Ø A representação do objeto de satisfação, ou seja, a primeira que se ativa quando se reanima o desejo;

Ø A representação dos movimentos que se fizeram com este objeto e o que este fez;

Ø A representação da sensação de descarga.

O desejo é o desejo de voltar a reviver a experiência de satisfação, aquela primeira vivida no vínculo com o outro e que agora é o objeto desejado. A escolha de objeto sexual [externo] se sustenta em parte nas pulsões de auto conservação e em parte no próprio corpo, onde o objeto deixou seus registros. Então a história do corpo e sua representação irão definindo o Eu. Os desejos inconscientes dos objetos poderão chegar ao pré-consciente, a partir do período pré-edípico, pois com a aquisição da linguagem, podem ligar-se às representações palavra gerando assim os desejos pré-conscientes.

O Ego tira o investimento da representação-palavra, nega sua existência e não reconhece os desejos como seus. Mas estes desejos permanecerão querendo retornar, diretamente ou por meio de deslocamento pré-consciente que os representem e ao mesmo tempo evitem a censura. Esse retorno origina os sonhos, atos falhos, sintomas neuróticos, e por aí vai. Os desejos do superego contidos nos sonhos punitivos, de auto castigo. Esses desejos são resultantes de sentimento de culpa, que mesmo desconhecido pelo ego funcionam como desejo que se satisfaz periodicamente com o sofrimento do próprio Ego. O sofrimento impresso depende, provavelmente, dos diferentes graus de mistura de Eros e Pulsão de Morte que estão em jogo [sadismo do superego e masoquismo do ego].

O desejo é insaciável, ele nunca se farta após alcançar o seu objetivo. Ele não é uma coisa em si, ou uma substância, mas uma força que movimenta o homem; tão, mas ele deseja, mas ele quer desejar. Logo, a finalidade do desejo não é o objeto, mas sim o próprio ato de desejar, pois quanto mais cheio de vontades, mais incontrolável será o homem. E esta falta de controle é o que o homem, nos seus mais íntimos instintos busca. A liberdade, mas esta que, quando sem responsabilidades se converte em libertinagem e aprisiona o homem em um ciclo de decepções e desilusões. [...] Freud no seu texto “Recordar repetir e elaborar” (1914), texto esse em que começa a pensar a questão da compulsão à repetição, fala do repetir enquanto transferência do passado esquecido dentro de nós. Agimos o que não pudemos recordar, e agimos tanto mais, quanto maior for a resistência a recordar, quanto maior for a angústia ou o desprazer que esse passado recalcado desperta em nós.

O desejo, quando bem ajustado, é uma força que move o homem para a liberdade. O desejo como vontade de alcançar algo, de realizar sonhos, de satisfazer necessidades, fala-se do desejo referido à libido e à sexualidade. O Desejo é absolutamente contrário ao termo Vontade como algo desejo deliberado e consciente. O desejo do homem é o desejo do outro. Exemplo, o psicólogo tem o desejo em ter seu consultório repleto de pacientes porque seu colega já possui vários clientes no consultório.

Ouro exemplo, um sujeito tem o desejo e a vontade e faz o curso de teologia para se tornar pastor, recebe proposta para pastorear igreja enquanto cursa o curso, então ora a Deus  entregando a sua vontade de pastorear igreja, na intenção de saber se Deus está de acordo;  e por tanto recebe como resposta que não é o momento, então concluiu teologia, abdicando da vontade de pastorear e se contenta com o desejo de estar formado em teologia e a partir deste momento opta por outro desejo, outro curso acadêmico e quando termina o curso acadêmico não sente vontade de tornar-se pastor, presumindo que o desejo e a vontade em tornar-se pastor foi reprimida no inconsciente.

A afirmação do como algo inconsciente não significa apenas que o desejo sujeito desconhece seus desejos mais escondidos, mas diz respeito à própria concepção do sujeito. A explicitação do que o sujeito porta sem saber; fora disso o desejo que aparece são os desejos expressados como vontade, necessidade, mas seja como for, apontam e se aportam em diferentes objetos que vão infinitamente recolocar o lugar da falta que funda o humano. Para a psicanálise querer [vontade] e desejar são dois conceitos diferentes, ou seja, posso querer [vontade] uma coisa conscientemente, mas inconscientemente não desejar essa mesma coisa, pois somos sujeitos divididos entre nossa consciência e nosso inconsciente e esse jogo de forças se faz presente em todo ser humano.

Fica mais fácil pensarmos quando ouvimos algumas pessoas dizendo: quero tal coisa, mas não consigo, ou, quero parar com isso e não consigo, nesses casos é preciso analisar quais desejos inconscientes que fazem com que o sujeito não consiga realizar o que diz que tanto quer. Exemplo, que parar de fumar e não consigo, traduzindo para o português claramente, tem o desejo de renunciar ao cigarro, porém tem a vontade diminuída para a realização do desejo, por diversas razões de insegurança, medo, ansiedade, raiva e outros. [...] “A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda” (CHAUÍ, 1996 p.8-9).

Chamamos de reação de ansiedade, onde existe a aproximação desejo e o afastamento vontade. Outro, exemplo, um trader tem o desejo de obter lucros com trading no mercado financeiro e através da vontade aplica as estratégias para tentar obter o resultado, porém a volatilidade do mercado contraria a vontade do trader impedindo-o de obter o lucro, gerando a perda. Quando falamos de consciência estamos falando daquilo que o sujeito sabe sobre si mesmo e quando nos remetemos ao inconsciente estamos aí designando um conjunto de conteúdos recalcados, conteúdos que são desejos e fantasias infantis, aquilo no qual o sujeito adulto não lembra porque está reprimido e as vezes nega quando toma consciência do desejo. [...] Negação, provavelmente é o mecanismo de defesa mais simples e direto, pois alguém simplesmente recusa a aceitar a existência de uma situação penosa demais para ser tolerada. Ex: Um gerente é rebaixado de cargo e se vê obrigado a prestar os mesmos serviços que exercia outrora.

Nesse sentido não deveríamos negligenciar a força do inconsciente quando alguém diz querer muito algo e não consegue realizar, uma vez o desejo inconsciente é muito mais forte do que o querer da consciência. Enquanto que o significado de desejo é aspiração diante de algo que corresponda ao esperado. Vontade é uma coisa que dá e passa, podemos perceber que, nessa circunstância, faltou empenho da parte da pessoa para a realização daquilo que era sua aspiração. Então, podemos entender que a realização da nossa vontade está diretamente relacionada às atitudes que deveremos empreender para alcançar aquilo que é do nosso desejo.

Exemplo, Ciclano tem o desejo de tomar sorvete e com vontade de que seja de chocolate, porém o ônibus demora muito, então ciclano permanece com o desejo de tomar o sorvete de chocolate, mas perdeu a vontade devido à demora do ônibus. Outro exemplo, um psicólogo têm desejo em ter alguns clientes no consultório, porém não tem vontade de investir dinheiro pagando impulsionamento de seus posts nas redes sociais.

Mais um exemplo, um paciente de esquizofrenia têm o desejo de curar-se do delírio de ruina, entretanto não tem vontade suficiente para praticar as tarefas diárias proposta pelo terapeuta por pensar que causa culpa e não traz resultados imediatos, isto devido à depressão que causa a diminuição da vontade.

Espero ter contribuído com este artigo esclarecendo a diferença entre desejo e vontade e que você leit@r consiga avaliar seu desejo e vontade a partir de agora e compreender que alguns desejos e vontades nunca se tornarão reais.

 

 

 

Referência Bibliográfica

CHAUÍ, MARILENA. HEIDEGGER, vida e obra. In: Prefácio. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

FREUD, S. (1920), "Além do princípio do prazer” In: FREUD. S. Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII.

FREUD, S. (1996). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago. (1914). "Recordar, repetir e elaborar ", v. XII

FREUD, S. (1990). O ego e o id. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 19, pp. 423).

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